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Existem palavras que eu sei o que significa, mas quando é para explicar para alguém eu travo. Por exemplo, saudade. Você sabe o que que é saudade? Você sente saudade, mas vai explicar para alguém o que é de fato saudade.
Hoje em dia, quando a gente escuta a palavra evangélico ou evangelho, nós temos essa mesma percepção, pois quase sempre ela vem colada em alguma coisa: música evangélica, político evangélico, igreja evangélica, programa evangélico, mas ninguém de fato consegue explicar o que que é evangélico. Quem vê de fora, e muitas vezes até quem está dentro de uma igreja acaba se perguntando: "O que que é o evangelho mesmo?"
Nesse vídeo, eu quero te convidar a dar alguns passos para trás. Em vez de começar pelo uso confuso que a gente faz dessa palavra hoje, nós vamos voltar para o mundo do Novo Testamento e ainda um pouco antes para o Império Romano para entender de onde veio esse termo. E é a partir daí que vamos olhar para o que Deus fez em Cristo Jesus e como essa boa notícia se aplica à nossa vida, não só como uma linguagem religiosa, mas como obra real de Deus em nós, fazendo de pecadores mortos espiritualmente novas criaturas em Cristo.
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Imagina comigo uma cidade pequena do Império Romano 2000 anos atrás. Não existe internet, não existe rádio, nem televisão. A vida acontece na praça, no mercado, nas ruas. Lá longe, o exército do imperador saiu para a guerra. Se o imperador perder, a cidade corre perigo. Mas se ele vencer, o povo respira aliviado. Os dias passam, ninguém sabe o que aconteceu. Até que um vigia vê de longe um mensageiro, um ar alto, correndo pela estrada, coberto de poeira, segurando um bastão ou um pergaminho. Ele entra pela porta da cidade, o povo se reúne e ele levanta a voz para anunciar.
No mundo greco-romano, a palavra usada para uma boa notícia oficial era eangelion, de onde vem o evangelho? Eu quer dizer bom. E Angelion ou Angelion quer dizer mensagem, anúncio. Não era um termo da igreja, era um vocábulo de rua da política, do império. Quando esse mensageiro gritava algo como: "Temos um evangelho do imperador", todo mundo entendia. Vem aí um anúncio grande sobre o governante. Pode ser uma vitória numa guerra, o nascimento de um herdeiro, a subida de um novo César ao trono. Depois dessa notícia, a vida da cidade não continuaria igual. Mudariam leis, tributos, cerimônias e homenagens. A realidade do povo agora precisa se ajustar a essa nova situação.
Esse uso da palavra boas novas, evangelho, não era exclusivo do Império Romano. Na tradução grega do Antigo Testamento, a mesma palavra aparece quando Deus promete libertar o seu povo. Isaías 52:7, o profeta fala dos pés do mensageiro que anuncia boas novas, evangelho. Do mensageiro que traz paz, anuncia salvação e diz a Israel: "Seu Deus reina". A ideia é muito parecida. Alguém chega com uma notícia que não é um conselho, nem uma sugestão, mas um anúncio de que Deus agiu, de que Deus está reinando, de que algo mudou de verdade.
Então, guarda essa cena na cabeça. Um povo em tensão, um mensageiro correndo, um anúncio sobre um rei que vence e governa, porque é essa palavra carregada de sentido político e histórico que o Novo Testamento vai usar quando fala de Jesus.
Quando a gente abre o Evangelho de Marcos, a primeira frase já entra de cabeça nesse caântico. Em Marcos 1:1 está escrito que aquele livro é o começo das boas novas, do evangelho a respeito de Jesus Cristo, filho de Deus. Para alguém do século acostumado a ouvir falar de evangelho, boas novas sobre, isso soa provocativo. Marcos está dizendo na prática que as boas novas que realmente importam não são sobre o imperador de Roma, são sobre Jesus, o filho de Deus.
Poucos versículos depois, ainda em Marcos 1, 14 a 15, nós lemos que Jesus andava pela Galileia anunciando as boas novas de Deus e dizendo: "Chegou a hora. O reino de Deus está próximo. Arrependam-se e creiam nas boas novas". Percebe como o evangelho na boca de Jesus tem anúncio. Ele não está oferecendo uma técnica espiritual. Ele não está propondo um sistema filosófico. Ele está declarando que o tempo chegou, que o reino de Deus se aproximou e que isso exige resposta, arrependimento e fé.
Ao mesmo tempo, os primeiros cristãos viviam sob o Império Romano, onde era comum ouvir-se a frase César é Senhor? A palavra Senhor em grego é curios. Era um título de autoridade máxima ligado ao poder político e religioso. E o Novo Testamento tem a ousadia de pegar esse título e colocá-lo sobre Jesus. Em Filipenses 2, 10 a 11, Paulo diz que Deus exaltou Jesus de tal forma que ao nome de Jesus todo o joelho se dobre e toda a língua confesse que Jesus é Senhor. No mundo que chama César de Senhor, a igreja proclama que o verdadeiro Senhor é Jesus de Nazaré.
Isso significa que desde o começo a palavra evangelho não foi apenas uma expressão religiosa neutra, era uma declaração de governo e autoridade. Era a notícia de que Deus interveio na história em Cristo e colocou nas mãos dele toda a autoridade. Era a proclamação de que existe um Senhor acima de César, acima de qualquer poder humano, acima de qualquer ídolo moderno. E se Jesus é Senhor, a vida de quem crê precisa se ajustar a essa realidade.
Mas antes de falar do que Deus fez em Cristo, a gente precisa encarar aquilo que as Escrituras tratam como algo muito sério: a situação humana sem Cristo. A Bíblia não descreve o ser humano apenas como alguém um pouco perdido ou um pouco desorientado. Efésios 2 1 a 3, Paulo diz que antes de Cristo nós estávamos mortos por causa de nossos pecados, seguindo a corrente deste mundo, obedecendo ao diabo, vivendo segundo os desejos da natureza humana e que por natureza éramos merecedores da ira de Deus, como os outros mortos, não fracos, não apenas confusos, mortos.
Em Romanos 3:10 a 12, Paulo cita o Antigo Testamento e diz que não há justo, nem sequer um. Não há quem busque a Deus. Essa é a doutrina que comumente nós chamamos de depravação total. Isso não quer dizer que todo mundo é tão mal quanto poderia ser, mas que o pecado afetou todas as áreas da nossa vida: mente, vontade, emoções, corpo, relações. E quer dizer também que por nós mesmos não buscamos a Deus, não corremos atrás dele. Se dependesse de nós, continuaríamos longe de Deus. Essa é a péssima notícia de nós mesmos que precisamos saber.
É nesse cenário que o evangelho se torna realmente a boa notícia. Em Efésios 2:4 a 5, logo depois de dizer que estávamos mortos, Paulo escreve que Deus é tão rico em misericórdia e nos amou tanto que, embora estivéssemos mortos por causa de nossos pecados, ele nos deu vida juntamente com Cristo. O evangelho não é Deus respondendo ao nosso esforço, é Deus agindo, apesar da nossa incapacidade.
Em primeiro aos Coríntios 153 a 4, Paulo faz um resumo que é quase uma declaração de fé. Ele lembra à igreja aquilo que já tinha anunciado como algo de primeira importância, ou seja, que Cristo morreu por nossos pecados, foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, como as escrituras já anunciavam. Repara que evangelho aqui é uma sequência de fatos: morte, sepultamento, ressurreição. Não é um conjunto de conselhos, mas o relato da obra de Cristo.
Essa obra começa com a encarnação. Em João 1:14 lemos que o verbo se tornou ser humano e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade. Deus não olhou de longe para a nossa miséria. Ele entrou na nossa história. Mas o coração do evangelho passa também pela cruz. Em Romanos 5:8, Paulo diz que Deus prova o seu amor por nós, porque Cristo morreu por nós quando ainda éramos pecadores.
Só que a cruz não mostra apenas amor, mostra justiça. Em Romanos 3:23 a 24, Paulo afirma que todos pecaram e não alcançaram o padrão da glória de Deus, mas que Deus, em sua graça, nos declara justos por meio de Cristo Jesus. Em seguida, em Romanos 3:25 a 26, ele explica que Deus ofereceu Jesus como sacrifício para que, ao derramar o sangue, a justiça de Deus fosse mostrada. Deus não fez de conta que o pecado não existe. Ele julgou o pecado em Cristo. É por isso que em segunda aos Coríntios 5:21, Paulo pode dizer que Deus fez Cristo, que nunca pecou, se tornar oferta por nosso pecado para que nele fôssemos declarados justos diante de Deus. Há uma troca. A nossa culpa foi colocada sobre Cristo e a justiça de Cristo é colocada sobre nós. Essa é a doutrina da substituição e da justificação.
Tudo isso seria incompleto se a história parasse na sexta-feira da paixão. Mas o evangelho inclui o domingo da ressurreição. Em Romanos 4:25, Paulo diz que Jesus foi entregue à morte por nossos pecados e ressuscitou para nos declarar justos. A ressurreição é a confirmação pública de Deus, dizendo: "A obra do Filho foi aceita, o preço foi pago, a justiça foi satisfeita". Em primeiro aos Coríntios 15, Paulo chega a dizer que se Cristo não ressuscitou, nossa fé é inútil. Sem ressurreição não existe evangelho.
Então, até aqui a gente tem uma sequência que é o coração da boa notícia: Deus desde a eternidade decidiu amar um povo. O filho de Deus se fez carne, viveu em perfeita obediência ao Pai. Levou sobre si a cruz, a culpa que era nossa, experimentou a justa ira de Deus contra o pecado. Morreu de verdade, foi sepultado, ressuscitou, foi exaltado, recebeu toda a autoridade e agora ele é anunciado como Senhor e Salvador.
Mas a pergunta continua: onde eu entro nessa história? Em João 6:44, Jesus afirma que ninguém pode vir a ele se o Pai que o enviou não o trouxer. Em João 15:16, ele diz aos discípulos que não foram eles que o escolheram, mas que foi ele quem os escolheu. Em Efésios 1 4 a5, Paulo diz que antes de criar o mundo, Deus já tinha nos escolhido em Cristo e decidido nos adotar como filhos.
Isso tudo mostra que por trás da minha resposta de fé existe a iniciativa eterna de Deus. Ou seja, quando alguém começa a se interessar por Cristo, quando alguém começa a se incomodar com o próprio pecado, quando alguém sente o coração atraído pelo evangelho, isso já é fruto da ação de Deus. Essa ação de Deus por dentro é o que a Bíblia chama de novo nascimento ou regeneração. Deus promete tirar o coração de pedra e colocar um coração de carne e colocar o seu espírito em nós para nos levar a andar segundo a sua vontade.
Agora, presta atenção num ponto importante: a nossa segurança não está na qualidade da nossa decisão, nem na beleza da nossa oração, nem na intensidade da nossa emoção. A nossa esperança está em Cristo, na obra dele, nas promessas que Deus fez. É pela fé somente, mas essa fé nunca vem sozinha de obras.
E onde entra a palavra evangélico nessa história toda? No nosso país, evangélico virou um rótulo sociológico. Quando alguém diz "fulano é evangélico", muita gente pensa em certos costumes, certos ambientes, certas músicas, certas posições políticas. Mas biblicamente, ser evangélico deveria ser simplesmente isso: ser alguém marcado pelo evangelho, pela boa notícia do que Deus fez em Cristo Jesus.
Em Atos 11:26, os discípulos foram chamados de cristãos pela primeira vez. O nome apontava para Cristo. Hoje, muitas vezes, o nome evangélico aponta mais para um grupo cultural do que para o evangelho em si. Isso gera dois problemas: primeiro, gente que carrega o nome, mas nunca entendeu o conteúdo. Conhece regras, participa de cultos, serve em ministérios, mas nunca se viu diante de Deus como alguém morto em pecados, salvo pela graça, justificado pela fé, transformado pelo Espírito Santo. Segundo problema, gente que rejeita o nome evangélico porque sofreu abusos, manipulou ou foi manipulado, viu escândalos, misturas de fé com ambição e acaba confundindo tudo isso com o próprio Cristo.
Se esse é o seu caso, de um lado ou de outro, eu quero te pedir que não julgue o evangelho pelas caricaturas. Volte para a fonte. Olhe para o que a escritura chama de boas novas. Em Romanos 1:16, Paulo diz que não se envergonha das boas novas, porque elas são o poder de Deus para salvar todo que crê. Ele não fala de poder de igreja, de poder de líder, de poder de grupo. Ele fala do poder de Deus ligado a uma mensagem sobre Cristo.
Isso significa que viver o evangelho não é só ter uma experiência individual, é também caminhar com o corpo de Cristo. Então, se hoje você se reconhece como alguém que foi alcançado por essa boa notícia, pelo evangelho, o convite é esse: aprofunde-se no evangelho. Mergulhe na palavra. Participe ativamente de uma igreja que leva a sério a escritura. Sente-se à mesa do Senhor. Ouça o evangelho domingo após domingo. Deixe Deus moldar a sua vida.
Lembra da cena do começo? O mensageiro correndo pela estrada, trazendo a notícia do imperador. Agora pensa em algo maior: a humanidade perdida, morta em pecados, debaixo de culpa, servindo a outros senhores como dinheiro, prazer, poder, ideologia, ego. Deus enviou o seu filho Jesus. Ele vive e morre, ressuscita. O Espírito Santo é derramado. Os apóstolos começam a anunciar. A notícia corre por estradas de terra, atravessa séculos, chega em outras línguas, desembarca em outros continentes, alcança o Brasil, entra na sua casa, na sua vida, em favelas, palácios, prisões, roças ou em universidades. Essa notícia é o evangelho.
O verdadeiro Senhor não é imperador de Roma, não é nenhum governante de hoje, não é o mercado, não é sequer a nossa vontade. O verdadeiro Senhor é Jesus Cristo. E como dizem as escrituras em João 3:6: "Deus amou tanto o mundo que deu seu filho para que todo que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna."
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