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Vamos falar sobre Rebeca

Eliane 15:25

Transcription

Rebeca Andrade, a Menina de Ouro, uma das maiores ginastas de todos os tempos. Antes de tornar-se a brasileira que mais vezes subiu ao pódio numa olimpíada, Rebeca chegou a vender latinhas para ajudar nas contas de casa. Mais tarde, já com a vida financeira quase resolvida, precisou enfrentar três lesões que a fizeram pensar seriamente em desistir da ginástica. Todos esses pensamentos que a atormentavam foram, aos poucos, conhecidos e educados na terapia. Seus resultados mostram o poder impressionante de uma mente forte e saudável, e nos mostram o verdadeiro desafio por trás de uma vida em alta performance. Depois de dominar o mundo com sua tranquilidade, deixa claro que a ginástica de elite é só o começo. Essa é uma história real da menina que encarou o medo de frente, descobriu o poder de um sonho e o quanto a coragem e a dedicação podem levar os seres humanos a lugares inimagináveis. Então, vamos fazer uma viagem pela vida e pelos aprendizados de Rebeca Andrade.

8 de maio de 1999: nasce Rebeca Andrade na periferia de São Paulo. Sua mãe, dona Rosa, trabalhava como empregada doméstica para sustentar os oito filhos. Quando criança, gostava de subir em árvores, brincar com os amigos de pega-pega, e foi na rua de casa que ela aprendeu a dar estrelinha, antes mesmo de conhecer a ginástica artística. Em época de olimpíadas, ela assistia pela TV e se encantava com Daiane dos Santos, ainda sem entender a transformação que aquela ginasta estava fazendo na sua vida. Dona Rosa, observando a filha, logo percebeu que ela levava jeito para o esporte, mas naquela época sua rotina de trabalho era tão difícil que não existia tempo para pensar sobre uma carreira esportiva para a filha. Quem cumpriu esse papel foi a tia de Rebeca, que estava começando a trabalhar no ginásio Bonifácio Cardoso, onde abriram inscrições para o projeto iniciação esportiva. Rebeca fez o teste, foi aprovada; a desenvoltura daquela criança de apenas 4 anos de idade fez com que ela recebesse o apelido de Daianinha de Guarulhos, em homenagem à primeira pessoa que fez seus olhos se encantarem com esse esporte.

O caminho de casa para o treino demorava duas horas a pé. Então, dona Rosa entregava o dinheiro da passagem, que seria para ela ir ao trabalho, nas mãos de Hermerson, irmão mais velho de Rebeca, e assim a garota frequentou os primeiros treinos. Mas, com o tempo, ir a pé para o trabalho estava cansando ainda mais dona Rosa, que precisou voltar a ir de ônibus. Rebeca, então, parou de ir ao ginásio. A situação financeira da família começou a melhorar e eles compraram uma bicicleta para facilitar esse percurso. A técnica da equipe de ginástica de Guarulhos e árbitra internacional Mônica Barroso percebeu o talento daquela menina e começou a treiná-la em 2004. Depois de um ano e meio, vendo que a garota não só tinha talento, mas era muito persistente, enviou Rebeca para o grupo de alto rendimento.

Aqui começa uma trajetória de participação em competições estaduais, nacionais e internacionais. Francisco Porá, o Chico, tinha acabado de chegar em Guarulhos para começar um projeto cujo objetivo era formar ginastas para as Olimpíadas do Rio em 2016. Hoje ele lembra como foi conhecer a pequena Rebeca: "A Rebeca sempre marcou pela evolução rápida, mesmo dentro de uma turma selecionada, que você sabia que todas seriam ginastas; ela evoluía muito mais rápido. Enquanto as outras aprendiam um elemento em 4 meses, ela aprendia em um, com qualidade". A diferença de Rebeca não estava apenas nos treinos, mas também na sua forma de enxergar a realidade como um todo: "Enquanto eu estava lá nos dois empregos, meus irmãos estavam me ajudando, me levando pra escola, pro ginásio, e a gente tentava ajudar de todas as maneiras possíveis. Meus irmãos já pegaram latinhas, já venderam papelão, eu mesma também adorava fazer isso, e eu era feliz, sabe? Mas a oportunidade que eu tive com o esporte de melhorar a nossa vida fez toda a diferença; poder proporcionar uma saúde melhor para minha mãe, momentos incríveis para os meus irmãos, saber que se eles tiverem algum tipo de necessidade, eu vou poder ajudá-los".

Quando completou 10 anos de idade, Rebeca precisou sair de casa. Ela se mudou com a família do treinador para Curitiba, no Paraná, onde as condições de treino eram melhores. Um ano depois, em 2011, foram morar no Rio de Janeiro, onde em pouco tempo Rebeca assinou o contrato com o Flamengo para representar o time nas competições, recebendo remuneração por isso. Atualmente, seu salário gira em torno de R$ 20.000. Qualquer um pode pensar que uma criança sair de casa para morar longe da família com 10 anos de idade seja algo traumatizante, mas Rebeca já não estava morando com a mãe todos os dias, pois durante a semana vivia num apartamento com outras atletas e a coordenadora do ginásio; ela só via a família durante os fins de semana. Por terem uma relação muito próxima, o contato era constante por meio de telefonemas, em que ela contava tudo para a mãe. Rebeca também tinha Chico, seu treinador, como um pai: "A gente tem uma relação muito boa; se não fosse Chico, eu não seria nada, porque a gente tá junto há muito tempo. Ele que me apoiou desde sempre, me incentivou e não me deixou desistir por diversos momentos. Ele te entende, te exige quando precisa exigir, quando precisa tranquilizar, ele tranquiliza também; então isso faz toda a diferença para que eu conseguisse alcançar. Ele sabe exatamente o treino que é para mim naquele dia; ele sabe se eu chego no ginásio de uma forma, ele já vai olhar para mim e dizer: 'Hum…'".

Esse cuidado e respeito que Chico conserva até hoje pela atleta é algo raro na ginástica, como podemos ver no famoso caso de Helena Machado. "Então o principal problema, na verdade, quem enfrentou foi a dona Rosa. Foi muito mais difícil para minha mãe, tendo que ouvir as pessoas falando que ela estava me abandonando, que ela não queria mais saber de mim. Não sei o porquê. Apesar de distante da minha família, eu só tava treinando, treinando todos os dias, estudando, sabe? Apenas treinando. Bom, naquele momento ela estava simplesmente deixando de ser a Daianinha de Guarulhos para se tornar a nossa Rebeca Andrade, agora que fazia parte da Seleção Brasileira juvenil". Rebeca não tinha mais a preocupação de conseguir pagar um médico, um fisioterapeuta, porque o próprio COB tinha essa equipe multidisciplinar. Também foi nessa época, com apenas 13 anos, que ela começou a ser acompanhada por uma psicóloga. Rebeca finalmente tinha toda a estrutura necessária para uma ginástica de alto rendimento; seu trabalho era apenas dar o seu melhor em cada aparelho, tirar boas notas na escola e lidar com as saudades de casa. Chico conta que nessa época a dificuldade maior não era ser um treinador, mas cumprir o que quase pode se chamar um papel de pai, observando a parte dos estudos, cuidando quando ela adoecia, sempre com a responsabilidade de que Rebeca se tornasse também uma boa pessoa.

Em 2015, sofreu a primeira de três lesões no joelho direito: foi um rompimento do ligamento cruzado anterior. Esse tipo de lesão é comum em esportes de alto nível e acontece geralmente quando o corpo do atleta gira, mas o pé continua fixo no chão. Quando essa primeira lesão aconteceu, Rebeca ligou para a mãe falando que queria abandonar o esporte. Dona Rosa não deixou, dizendo que a filha pelo menos tentasse de novo e que se não conseguisse, desistisse. Mas depois do primeiro treino já recuperada, Rebeca ligou para a mãe de novo, agradecendo e dizendo que não queria mais desistir. Foi assim que ela percebeu o amor que tinha pelo esporte e passou a dar não 100%, mas 110% de si mesma em cada movimento, em cada treino e em todas as competições. Mas ali, no momento da competição, o que será que se passa na cabeça de um atleta de elite, uma das melhores ginastas do mundo? Rebeca já disse em entrevista que concentra todo seu esforço unicamente no momento presente e que inclusive o fato de ter miopia a ajuda nesse processo, porque não consegue enxergar a reação das pessoas ao redor na hora de competir. Ela costuma conversar consigo mesma, reproduzindo as falas das pessoas que cuidam dela. Ela primeiro se observa e quando descobre que está nervosa, fala para si mesma que respire, lembre que já fez os movimentos um milhão de vezes, que não precisa se preocupar. Bem como fala sua psicóloga, Aline Oliveira, agora se está desatenta, costuma ser tão dura quanto seu treinador, falando para se concentrar, para escutar a música e ficar firme. Mas se percebe que está tranquila, ela se elogia, sorri, diz para ficar feliz, aproveitar o momento, porque ele só irá acontecer uma vez na vida, o que diminui a pressão por ter sempre excelentes resultados. Talvez seja o objetivo principal de Rebeca que não está em ganhar outra medalha, mas sim conseguir dar sempre o seu melhor, atingir o máximo da sua capacidade. Ela entendeu que o processo é a parte mais importante. O jeito de encarar o erro é outro ponto que podemos aprender com ela: "Eu acho que quando você tá no seu melhor aparelho, que você sabe que você tem chance, e acontece um erro, aí dá uma dorzinha no coração, mas você fala: 'Bom, faz a tua parte e termina lindamente, com sorriso no rosto'. Se você quiser chorar, você chora no hotel, sabe? Porque depois também já passou toda aquela adrenalina da competição. Agora, quando você erra, erra mesmo, de cair, dá uma raiva; a gente treina tanto, mas treina tanto, e fala assim: 'Não acredito que eu errei!' Mas aí você sobe e fala: 'Respira para não cair de novo, né? Respira, calma, termina a série tranquila'".

Claro que todo esse autocontrole foi conquistado durante muito tempo e às custas de muito esforço, não só dela, mas de todos que fazem parte da equipe. Quando entrou na seleção principal, aos 16 anos de idade, Rebeca enfrentou uma rotina de treinos muito parecida com a que segue até hoje: acorda às 7:20, começa seu treino no ginásio às 8 horas, iniciando com o preventivo, depois treinamento forte e em seguida a fisioterapia. Sua manhã termina em torno de 11 horas. À tarde, às 3:30, faz musculação, treino e fisioterapia. Isso segue durante os seis dias da semana. Por dia, a equipe de elite treina em torno de seis ou sete horas no total. O treinamento é realmente intenso, pois tirando o Natal, a equipe treina todos os dias e durante o ano todo só tem 10 dias de férias. O clima do ginásio também é uma preocupação, já que esse é um esporte historicamente competitivo. Nadia Comăneci lembra que na sua época, em 1980, era comum esconder o respeito e a admiração que se tinha por outra ginasta, porque até para os juízes isso poderia ser visto como uma falha. Hoje, a psicologia do esporte já entende que o ambiente precisa ser considerado, porque pode influenciar na performance, nas emoções e na capacidade cognitiva dos atletas. Quando encontra a melhor do mundo, Simone Biles, parece que entre as duas existe um clima muito amigável; isso é incentivado inclusive dentro da equipe brasileira: "Eu tento passar para toda a equipe, para todas as meninas, que a sua nota é importante; a terceira, quarta, quinta menina, ela é muito importante. E quando elas conseguem ver que: 'Poxa, eu não sou especialista de salto, mas eu posso contribuir com a minha trave, com o meu solo, com a minha paralela', elas treinam com muito mais afinco".

O segredo de Rebeca para atingir grandes resultados parece estar no alinhamento de expectativas, isso porque a carreira de uma ginasta de elite costuma ser muito curta; os treinos intensos, as lesões, além de toda a pressão psicológica, são fatores que pesam na hora do atleta decidir se aposentar. Rebeca Andrade sabe, mas tudo que aprendeu e ainda aprenderá como ginasta da Seleção Brasileira não será perdido. Se tudo sair conforme ela planeja, logo teremos uma psicóloga com mais de 20 anos de experiência na ginástica artística trabalhando com atletas de elite e público em geral. Ela também pretende fazer palestras e possui outros sonhos que prefere deixar em off por enquanto, mas a aposentadoria não acontecerá agora. Rebeca está apenas começando, completando um ciclo de muitos que ainda quer viver. Recentemente renovou seu contrato com o Flamengo até 2028, quando acontecem as Olimpíadas de Los Angeles, e o que vem por aí promete ser surpreendente. Parece que o segredo dela é a habilidade de estar no momento presente enquanto planeja o futuro sem perder de vista os seus valores.