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Sistema de saúde no Brasil | Coluna #43

Drauzio Varella6:19

Transcription

Olá, amigos do YouTube. Hoje nós vamos falar um pouquinho sobre o sistema de saúde brasileiro. Nosso sistema se divide em duas áreas. Nós temos o SUS, que dá cobertura, teoricamente, para todos os brasileiros. Na prática, nós encontramos apenas 150 milhões de pessoas que dependem exclusivamente do SUS. Portanto, 2/3 da nossa população, ou 3/4 da nossa população, depende só do SUS, e nós temos 50 milhões de pessoas que têm direito à saúde suplementar. A saúde suplementar é a que compreende os planos de saúde.

O SUS luta com dificuldades muito grandes; isso é conhecido de todos nós. Porque nós temos um sistema de saúde que, teoricamente, oferece saúde gratuita para toda a população, mesmo para aqueles que têm planos de saúde. Você opta por um plano, mas não perde o direito ao SUS. Em alguns países perde; no Chile, por exemplo, você tem que optar: você quer ficar na saúde pública ou você quer ficar na saúde suplementar? Escolheu uma, você perdeu o direito à outra. Mas aqui não; aqui o direito é universal. O SUS luta com todas essas dificuldades, e as dificuldades são de duas ordens: o subfinanciamento, quer dizer, o que o governo aplica em saúde é muito pouco para tratar de todos os brasileiros; e, em segundo lugar, o sistema é mau gerenciado. A máquina pública é uma máquina burocrática, emperrada, difícil de fazer andar, e com isso os recursos, que já são pequenos, ainda são mal administrados. Além disso, há interferência política e a corrupção que se espalha por toda a máquina estatal brasileira.

Os planos de saúde funcionam de que maneira? Você compra o plano; eles fazem um cálculo de todos aqueles que estão no plano e veem quanto tem que ser a mensalidade para cobrir aquelas despesas. Os planos de saúde estão numa situação complicada, por quê? Porque o usuário acha que a mensalidade que ele paga é cara. O usuário acha que o médico que o atende no plano de saúde é um médico que mal olha na cara dele. Os médicos acham que os usuários dos planos de saúde eh vão naquele médico porque está ali na lista, mas não tem qualquer ligação com aquela pessoa, e eles têm problemas com os planos de saúde porque acham que são mal pagos e que o único jeito deles sobreviverem é atender um grande número de pacientes, com perda da qualidade de atendimento. É lógico, o plano de saúde fica contra os médicos porque pedem exames demais e contra os usuários que pleiteiam tratamentos que não estão previstos nos contratos. E quando o plano nega, eles vão à justiça e entram com uma liminar, e o plano é obrigado a pagar. Então nós temos uma situação que são todos contra todos.

Por outro lado, a medicina é um único ramo da atividade em que a incorporação de tecnologia encarece; normalmente, a incorporação de tecnologia barateia o atendimento, barateia o serviço. Na medicina não. Eu lembro que o primeiro computador que eu, o primeiro laptop, gastei um dinheirão para comprar; custava cinco vezes mais do que custa hoje. A tecnologia barateou. Na medicina, a incorporação de tecnologia encarece o produto final. Aparece um exame novo, aparece um tratamento novo, um novo medicamento, um novo aparelho; tudo isso aumenta os custos. Nós temos um sistema de saúde que é centrado na doença. Você não existe para o SUS e não existe para os planos de saúde; só vai existir quando você ficar doente. Nessa hora você entra num hospital, e aí o plano de saúde ou o SUS tem que arcar com todas as despesas, mesmo que elas sejam exageradas e muitas vezes inúteis. Esse tipo de situação não tem condição de sobrevivência; os planos vão quebrar, e o SUS vai quebrar também, mais do que quebrado, mais do que já está quebrado. Por quê? Porque a população está envelhecendo; a faixa populacional que mais cresce é aquela acima dos 60 anos de idade, justamente aquela que vai ter problemas crônicos de saúde: problemas cardiológicos, vasculares, derrames cerebrais, diabetes. Nós temos uma população que engorda sem parar; 52% dos brasileiros estão acima do peso, e a obesidade é um pacote; junto com ela vem pressão alta, diabetes, problemas reumatológicos, ortopédicos; é o joelho que sofre, tem que colocar prótese; são tratamentos caríssimos.

Nós só temos uma alternativa; essa alternativa o que é? É focar o sistema de saúde na prevenção; é evitar que as pessoas envelheçam em mau estado de saúde, porque aí o tratamento delas vai sair muito caro, e não há sistema de saúde no mundo capaz de arcar com todas essas despesas. Ou a gente encara esse problema de uma população sedentária, que não faz exercício de jeito nenhum, que come mais do que devia e que envelhece; ou nós fazemos, convencemos as pessoas de que elas precisam fazer exercício, de que elas não podem comer tudo que lhes é oferecido, que elas têm que se movimentar; ou então não vai haver dinheiro no país para arcar com os problemas de saúde dos brasileiros. Vou fazer um resumo aqui. Eu fiz recentemente, nós participamos de um encontro em Chicago, a semana passada, sobre vários temas brasileiros; eu fiz essa palestra sobre saúde, que na verdade é uma reflexão sobre o que eu penso da saúde no Brasil.