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Menos visitantes e queda nas vendas marcam novo cenário nos shoppings | #NewsNoite

SBT News9:53

Transcription

Olha, o novo cenário de consumo está impactando os shoppings no Brasil, que registraram a primeira queda no número de visitantes desde a recuperação do setor pós pandemia. Vamos ver os números aqui no telão comigo.

Olha, houve uma retração de 6,2% no fluxo de visitas mensais entre 2019 e o final de 2023. Em números absolutos, isso representa uma perda de 5 milhões de frequentadores por mês em comparação com o período pré-pandemia. A queda no público afetou diretamente o volume de transações em lojas físicas, com um exemplo notável, sendo a queda de 25% na venda de celulares.

Quem explica melhor os motivos para essa queda no público e os avanços das vendas online é a professora de economia do Insper, Juliana Kesler, a quem eu agradeço pela presença aqui no SBT News. Muito boa noite, professora.

>> Olá, Leandro. Boa noite. É um prazer falar com você.

Prazer todo meu, professora. A gente que agradece a presença aqui no SBT News. Professora, o cenário atual preocupa é para preocupar a economia essa queda da população no shoppings?

>> Olha, Leandro, preocupa bastante, especialmente os logistas, né, que estão vendo aí, que esse tipo de modelo, né, de de comércio, ele tem ficado um pouco ao lado, né, quando a gente pensa aí as outras alternativas, né, o que a gente realmente vê são pessoas buscando alternativas, até porque elas sabem que alguns produtos em shoppings, em grandes centros comerciais, tendem a ser um pouco mais caros às vezes por conta dos custos, né, de logística, eh, de alocação de espaço, né, que são diferentes dos custos da compra online, né, o perfil do consumidor mudou, isso tem feito então com que as pessoas busquem, né, outras formas de compra, às vezes até tentando aí encaixar no seu bolso, no seu orçamento, a o consumo daquilo que elas precisam.

Eh, agora tem um sinal importante dentro desses dados que inclusive também, e acho que esse ponto sim pode nos levar a uma certa preocupação, que é o fato de que a gente tem aí eh uma economia onde as taxas de juros, né, a gente tava falando agora a pouco na reportagem passada, as taxas de juros são elevadas, o endividamento tá alto, tá cada vez mais caro, né, o o custo de vida, né, e o poder de compra em específico anda aí cada vez menor. Isso sim, é, sem dúvida, nos preocupa, né, faz com que a gente tenha aí eventualmente uma economia que desacelera, né, um consumo que pode estar perdendo fôlego. Sem dúvida isso pode preocupar a gente bastante, pode aí sinalizar uma situação aí eh pouco esperada pros próximos meses, né, uma economia talvez aí um tanto mais desacelerada e desaquecida.

Agora, professora, o que que explica também esse cenário, já que [limpando a garganta] a geração de emprego está em alta?

>> Então, Leandro, a gente realmente tem aí uma empregabilidade alta. O que acontece é que no geral as pessoas elas têm renda ainda baixa, né? A gente tá num país de renda média baixa. Esse é um ponto importante. E para além disso, a gente também tem visto aí o poder de compra caindo, né? os preços eles estão aumentando num volume aí num numa frequência, né, ou numa proporção um tanto mais controlada, mas a gente ainda vê produtos, né, bens e serviços que são essenciais aumentando aí num volume considerável, né? Os últimos anos foram anos em que preços de alimentos, de bebidas, grupo transporte, energia, todos esses fatores, eles acabaram sofrendo e levando a inflações, né, tendo inflações registradas mais elevadas do que aquela inflação que é medida ali pelo IPCA, que geralmente é o índice utilizado muitas vezes para fazer as correções monetárias aí nos salários. Então, o que a gente vê, na verdade, ainda que a empregabilidade esteja alta, a gente ainda tem pessoas que têm renda relativamente baixa para um custo de vida elevado e um poder de compra que tem caído aí, porque os salários no geral acabam muitas vezes não acompanhando o preço daquilo, né, o custo daquilo que essas pessoas no geral consolamentam. Isso vai gerando esse descompasso e aí naturalmente isso deprime aí, reduz a demanda e acaba gerando esses desaquecimentos da economia.

>> Professora Juliana, a taxa de a taxa alta de juros também contribui para esse cenário?

>> Sem dúvida. A taxa de juros alta, ela impõe um custo maior pro crédito. E a partir do momento que a gente tem um custo maior no crédito, muitas pessoas vão acabar eh ainda que elas consigam ter crédito, elas podem, na verdade, acabar eh evitando, né, ou eh postergando determinadas compras, porque entendem que podem estar pagando muito mais, né, num numa compra aí eh sendo financiada por um empréstimo, enfim, por qualquer tipo de alocação de crédito. Então isso sim é um fator que também inibe a demanda, né? Eh, esse fator, esse elemento, né, taxa de juros, ele já é um canal bem conhecido, inclusive e nosso, porque a gente tem visto aí ao longo aí desses bons últimos meses aí a gente tem mais de um ano, né, de uma trajetória de taxa de juros elevada, que é um instrumento que o Banco Central utiliza para conter aí as pressões inflacionárias. Então, sem dúvida, esse também é um elemento que tá segurando bastante a que pode estar segurando essa essa demanda, sem dúvida, e que pode tá se refletindo nesses números que a gente vê hoje de circulação e e de aquisição, né, de pessoas, pessoas comprando bens e serviços, por exemplo, em shoppings.

>> Professora, lojas físicas devem acabar daqui a um tempo?

>> Acho difícil, Leandro. Eu acho que a gente, na verdade, tá no momento de muita, de uma grande transição, melhor dizendo, eh, da forma como as pessoas consomem. Acho que a as lojas físicas se esgotarem é difícil. O consumidor ele ainda gosta de ir numa loja, de olhar o produto, de conhecer aquilo que ele vai comprar, especialmente para produtos de alto valor agregado, né? Já é muito difícil, por exemplo, hoje a gente conseguir determinados produtos em lojas, né? Então, eh, provavelmente muitos de nós aqui já passamos pela situação de irmos numa loja tentar comprar eh muitas vezes um computador, uma televisão ou alguma coisa desse tipo e não ter esse produto à disposição para venda, ter um produto só à disposição eh para conhecer mesmo, né? Um um produto ali que fica disponível para que você conheça as funcionalidades, mas muitas vezes você tem que fazer a compra de outras formas, né? Eu acho que esse modelo, especialmente para bens de maior valor agregado, ele deve se intensificar. Agora, consumos ali menores, aí a gente tá falando calçados, roupas, que são produtos importantes para que as pessoas, né, que é importante, né, para que a pessoa vá lá, aprove, eh, entenda se gosta, se não gosta, se é adequado, se não é adequada. Eu acho que para esses produtos, muito provavelmente, a gente deve continuar tendo um mercado presencial ainda muito forte.

É, a senhora falou um ponto agora importante. A loja física, pelo menos eu pelo menos gosto de ver o material, de comprar pela internet. Alguns produtos são até que vale, mas outros para mim não funciona, né? Fazer compra pro supermercado, alguns também funcionam, mas comprar fruta, por exemplo, eh, eu sempre cometo um erro ali na hora de comprar alguma coisa. Essa semana mesmo comprei errado o tipo de banana, né? Enfim, você tem que ver realmente para poder saber qual o tipo, qual produto. Eh, e roupa é outro, é super importante, né, que as pessoas gostam de ver. Geralmente você compra, eh, pelo menos também não tem sorte, a roupa sempre vem no tamanho errado, né? Então, da forma presencial acho que que ainda ainda é melhor.

>> Pois é, o perfil do consumidor ele ainda se alinha muito a isso, né? As pessoas ainda gostam, né, de ir conhecer o produto, né? Muitas vezes, e acho que esse é um ponto importante, porque as pessoas acabam levando em consideração, eh, para saber se vão comprar o produto presencial ali na loja física ou se vão comprar pela internet. No geral é o preço, né? Então as pessoas elas ponderam que se o preço na loja física tá muito maior, especialmente para produtos de alto valor agregado, ele tá muito maior do que o preço ali na na loja online, né, naquelas naqueles nos tantos, né, marketplaces que a gente tem aí. Certamente essas pessoas vão acabar buscando a comodidade do preço. Quando a gente percebe que o preço é muito parecido, né, muita gente ainda prefere levar o produto ali na hora presencialmente. Agora, existem produtos, como você bem mencionou, que são muito difíceis, né, de você eh comprar online, especialmente se você nunca comprou, né, o caso de uma marca diferente de sapatos, de uma marca de roupa que você ainda não conhece. Então, a gente ainda tem esse perfil. Acho que é eh é difícil a gente dizer e afirmar que essas lojas físicas vão sumir, mas eu acho que elas tendem aí a ficar cada vez mais, talvez concentradas em ramos específicos e talvez daqui um tempo a gente só vai conseguir comprar alguns produtos eh online, como hoje em dia já acontece inclusive, né? Alguns tipos de produto a gente só vai encontrar online.

>> OK? Conversamos com Juliana Kesley, professora de economia do Insper. Professora, obrigado, viu, pela entrevista. Um bom feriado, uma boa semana.