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[Música]
Então vamos iniciar aqui com a parte da introdução à toxicologia. A gente vai falar dos conceitos básicos. A gente vai ver que em muitos aspectos, a toxicologia, ela é semelhante à Farmacologia em alguns conceitos. Então, muito do que a gente sabe sobre farmacologia, a gente vai poder aplicar aqui também na toxicologia.
Como sempre, eu deixo aqui o meu Instagram, que é onde eu mais atuo, né, como divulgação científica. E aqui o link onde tem vários dos meus trabalhos. Depois, eu vou inclusive indicar alguns materiais, tá, tanto para quem faz parte do meu curso, quanto para quem não faz.
Então, vamos lá. Para a gente começar a falar de toxicologia, eu quero conversar com vocês sobre alguns conceitos básicos nessa área de toxicologia, né? Não vou trabalhar aqui com vocês, como esse é um curso um pouco mais objetivo, eh, eu não vou trabalhar com vocês questões históricas, né? E também não vou ficar trabalhando muito questões que se distanciam do nosso objetivo final, que depois é entender o impacto do consumo de algumas substâncias químicas.
Então, por exemplo, eu não vou trabalhar vertentes da toxicologia mais analítica com vocês, eh, ou os aspectos da toxicologia forense, por exemplo, que entram nessa parte muito analítica. Vou, vou trabalhar mais dos aspectos, eh, de mecanismos toxicológicos e de impacto clínico, eh, e social dessas substâncias, tá? Então, por isso, as aulas básicas, os conteúdos básicos, vão ser direcionados para dar só aquela, aquela sedimentada básica pra gente poder trabalhar os outros conteúdos. Então, não vou me aprofundar demais em questões muito, eh, analíticas ou muito moleculares, certo?
Então, como que a gente pode definir toxicologia para a gente começar a falar sobre esse assunto, né? A gente pode definir toxicologia como a ciência que estuda os efeitos nocivos das substâncias químicas que interagem com o nosso organismo, aqui ele corrigiu, né, o corretor corrigiu, do inglês *organism*, em uma determinada condição de exposição. Então, aqui a gente tem algumas palavrinhas importantes: efeitos nocivos, substâncias químicas, nosso organismo e uma condição de exposição. Isso vai ser muito importante, pessoal, porque é isso que vai dar o contexto pra gente entender que efeitos deletérios a gente pode esperar, né?
E, aprofundando um pouquinho no conceito de efeito nocivo, o efeito nocivo é um transtorno de capacidade funcional do nosso organismo, né? Então, trouxe alguma alteração que faz com que a função esteja prejudicada, algo que altera esse equilíbrio que nós temos, né? Essa homeostasia, que é um equilíbrio não dinâmico, né, que nós temos no organismo para manter as coisas funcionando da maneira que deveriam. Isso pode acontecer de maneira reversível ou irreversível, a gente vai discutir isso futuramente, né? E pode também aumentar a suscetibilidade a efeitos indesejáveis. Então, eh, essa seria uma definição básica de toxicologia. A gente pode ter várias outras definições aí, dependendo de cada autor.
Aqui, como eu sempre trabalho, né, quem me acompanha sabe que eu sempre gosto de fazer essas definições. Quando a gente trabalha com a farmacologia, eu também faço essas mesmas distinções. E aqui eu trouxe alguns componentes a mais pra gente discutir mais agora com o olhar toxicológico, um pouquinho menos do que o olhar, eh, farmacológico desses termos básicos, né?
Então, aqui quando a gente tá estudando farmacologia, a gente se depara com os termos remédio, com o termo fármaco, com o termo medicamento. E depois, quando a gente vai caminhando mais pra toxicologia, a gente se depara mais com o termo droga, o termo agente tóxico, o termo xenobiótico, o termo veneno e, inclusive, um termo meio até estranho no português que é o toxicante, tá?
Eh, bom, acho que o termo droga aqui é um termo neutro, né, que vai meio que dividir esses dois lados, né? Eh, quando a gente encara o termo remédio, o termo medicamento e o termo fármaco, esses termos aqui são termos em geral quando a gente se refere a algo terapêutico, a algo que tá tentando trazer algum benefício pro nosso organismo. Só que a gente tá falando aqui de questões um pouco mais coloquiais do dia a dia. Remédio, uma coisa bem popular, né? Quando a gente fala de uma coisa que vai trazer algum benefício para nós, ah, eu tomei um remédio, né? Eh, e aqui um termo mais específico daquela substância química que vai fazer o efeito que eu espero, o efeito benéfico, efeito terapêutico, que é o fármaco, né? Que é o princípio ativo, basicamente, do medicamento, né? E medicamento seria esse termo mais técnico pra gente se referir àquele produto finalizado que a gente compra na farmácia, que contém um ou mais fármacos dentro dele, né? Então, o medicamento é lá o frasquinho que você tem lá de um xarope, que tem um monte de coisa ali dentro, tem o veículo, tem o conservante, tem o aromatizante, tem estabilizador, tem várias coisas ali, e também tem o fármaco, que é quem vai fazer o efeito, que é o princípio ativo, tá? Remédio vai ser um termo muito coloquial, a gente vai evitar usar aqui, né?
E quando a gente começa a ser um pouquinho menos específico sobre essa questão do efeito terapêutico, a gente caminha pro termo droga, né? O termo droga também, a gente já, a gente já subentende-se que é uma substância química, mas quando eu falo droga, eu não estou especificando se o uso vai ser para um uso terapêutico ou se vai ser para outros usos, né? Então, droga é uma substância química capaz de alterar o meu organismo. Normalmente, a gente tá pensando em visando um efeito terapêutico quando esse uso é voluntário, né, pensando então num fármaco. Mas às vezes esse uso é voluntário, mas por uma questão recreativa, né, ou por outras situações, uma questão mística, num ritual, sei lá. Então, a gente vai ter aqui o termo droga como sendo um termo mais neutro.
Quando essa substância química ela provoca alterações deletérias no nosso organismo, efeitos nocivos, né, a gente pode considerar que essa substância química está agindo, né, de uma maneira tóxica. Então, ela é um agente tóxico. Esse agente tóxico, ele pode ter uma origem animal e aí, em geral, a gente vai chamar isso de veneno. Então, veneno é o agente tóxico de origem animal. Claro que no dia a dia e até mesmo nos livros, alguns livros de farmacologia, por exemplo, eles vão dizer que agente tóxico e veneno é a mesma coisa, né? Então, sofreu intoxicação, foi envenenado, seria sinônimo. Mas se a gente quiser ser mais rigoroso, veneno é algo que é de origem animal. E dependendo da forma com que esse veneno é inoculado na presa, por exemplo, uma cobra que inocula o veneno através, né, de um, de um instrumento que são os seus dentes, né, isso a gente pode chamar então de peçonha, né, que é esse veneno que foi inoculado por um dispositivo, né, como por exemplo, a cobra tem, o escorpião, etc. E a gente chama isso então de animais peçonhentos. Eh, mas não deixa de ser, entre aspas, um animal venenoso, né? O pessoal da, da biologia vai, vai brigar comigo se eu, se eu fizer, eh, de maneira muito sinônima isso, mas basicamente são muito semelhantes, né?
E o termo toxicante, pessoal, na verdade, é uma tradução pro português, né, que veio do termo inglês *toxicant*, que na verdade deveria ser agente tóxico, né? Mas alguns livros vão trazer como toxicante. Então, aqui são sinônimos, agente tóxico e toxicante, a gente pode considerar como sendo a mesma coisa, tá?
E por fim, eu deixei esse termo meio esquisito aqui, né, chamado xenobiótico. Vou usar algumas vezes. Os livros de toxicologia trazem muito esse termo xenobiótico, que é uma qualquer coisa. *Xeno* é estrangeiro, né? Xenofobia, né? Eu tenho fobia, eu tenho preconceito contra estrangeiros. Então, xenobiótico é aquela substância que vem de fora, exógena do meu organismo, que entra no meu corpo, né? E pode potencialmente trazer algum efeito, provocar algum efeito. Não sei qual. Então, como não sei se vai me trazer um benefício, um malefício, se não vai fazer nada, eu vou chamar de xenobiótico, né? Então, é um termo bastante amplo, é parecido com droga, se a gente pensar, mas é um termo muito utilizado dentro do contexto da toxicologia, quando a gente não tá fazendo um juízo de valor, né, se é algo tóxico, se é algo que vai trazer algum benefício. Então, xenobiótico, vocês vão ouvir falar bastante sobre isso.
Aprofundando um pouquinho mais dentro do contexto da toxicologia agora, né, eh, e se distanciando um pouquinho da, da farmacologia, a gente pode se deparar com esses três termos que são relativamente parecidos, né, mas são diferentes: agente tóxico, toxicidade e intoxicação.
O agente tóxico é a entidade química, é a substância química capaz de causar danos a um sistema biológico. E olha que interessante, às vezes um medicamento, né, e na verdade o princípio ativo desse medicamento, então um fármaco, ele é usado para trazer benefício, mas muitas vezes ele provoca efeitos adversos e às vezes esses efeitos adversos são muito intensos. Às vezes, no caso de uma superdosagem, eu vou ter uma intoxicação por um medicamento. Então, um medicamento, ele pode, né, um fármaco, na verdade, ele pode ser uma entidade química capaz de causar danos a um sistema biológico. Então, o fármaco usado de maneira inadequada, ele pode ser um agente tóxico, tá? Então, esses termos, eles são um pouco dinâmicos, né?
Eh, e o que seria toxicidade? Seria a capacidade de uma substância química produzir danos a organismos vivos em condições padronizadas de uso. Então, toxicidade é a capacidade intrínseca de uma substância em causar dano. Tem substâncias que são mais tóxicas que outras, né? Por quê? Porque numa mesma dose, então, se eu, se eu padronizar a condição de uso, se eu pegar 100g dessa substância, 100mg dessa substância e 100mg dessa substância e consumir, se uma me provocar mais dano que a outra, essa substância que provoca mais dano, ela é mais tóxica que essa outra. Então, a toxicidade diz respeito à capacidade intrínseca da substância em provocar danos.
E o que que seria intoxicação? Bom, a intoxicação seria o resultado dessa toxicidade, né? Seria a manifestação dos efeitos tóxicos num organismo, né, no nosso, a gente tá pensando no organismo humano, evidenciado por sinais e sintomas. Então, o paciente começa a apresentar uma série de, de sinais, de sintomas, de alterações laboratoriais que eu consigo, eh, muitas vezes observar através de testes, né, que vão caracterizar um quadro clínico de intoxicação. E é claro que essas intoxicações, dependendo da substância, têm as mais diversas manifestações clínicas, né? E a gente vai falar um pouco dessas, dessas possibilidades para algumas das drogas futuramente, né, nas aulas futuras, a respeito disso.
Mas mais alguns conceitos importantes que eu acho que a gente precisa ter, conceitos básicos, são essas quatro diferenciações aqui, né? Então, começando com essa primeira aqui: exposição aguda versus exposição crônica.
Então, a gente tem que saber diferenciar quando a gente tá diante de uma situação no qual eu tive uma exposição breve a uma substância. Então, me expus a ela uma vez ou pouquíssimas vezes, né? Então, pontualmente, ou se essa exposição é contínua, tá acontecendo o tempo todo, frequente, mantendo cronicamente essa exposição. É claro que as consequências pro nosso organismo mudam de acordo com a nossa exposição. A gente vai falar muito sobre isso. Então, eh, uma coisa é eu falar, ah, essa substância aqui, ela provoca efeitos tóxicos na exposição aguda. Ah, essa substância aqui não traz dano, né, numa exposição aguda controlada, mas se eu me expuser a ela por muito, muito tempo, continuamente, eu vou ter algum efeito tóxico. Então, a gente tem que saber diferenciar as consequências de uma exposição aguda e de uma exposição crônica, né?
É um exemplo bem simples, né? Vamos pegar uma droga que provoca dependência, uma droga depressora do sistema nervoso que provoca dependência. Numa exposição aguda, o que eu espero é uma, um rebaixamento da atividade do sistema nervoso e com isso consequências agudas disso: sedação, eh, sonolência, coma, né? Ou até a parada cardiorrespiratória, fruto de uma intoxicação aguda. Já numa intoxicação crônica, em doses mais baixas, o que eu espero, na verdade, é uma tolerância do meu organismo, é o risco de dependência, né? Eh, adaptações que vão acontecendo. Então, são diferentes consequências.
Também aqui, uma outra distinção importante seria a toxicidade sistêmica versus a toxicidade local, né? Então, local e sistêmico diz respeito se o dano, ele é, eh, local, como o próprio nome diz, né? Ele é limitado a uma região específica, a um órgão específico, ou se ele é um dano sistêmico, né? Tá distribuído pro corpo todo. Em geral, isso tem a ver com a capacidade dessa substância de se distribuir sistemicamente, de acordo com a via de exposição, né? E também, muitas vezes, a capacidade de uma substância se acumular em um determinado local também, né? Mas, por exemplo, se você derrubar, ou passar uma substância na sua pele, por exemplo, pode ser que você tenha um dano, uma toxicidade local na sua pele, mas não foi o suficiente para ocorrer uma absorção e que tenha via cutânea, né? E que consiga cair na corrente sanguínea e circular e provocar uma toxicidade sistêmica. Às vezes, até absorveu, mas não provocou toxicidade, né? Eh, então, isso é uma toxicidade mais, eh, ampla ou mais restrita, tá?
O outro termo pra gente diferenciar seria a toxicidade reversível versus a toxicidade irreversível. Então, esse dano que foi causado por uma substância química, quando eu retiro a exposição, quando eu paro de me expor a essa substância, meu organismo é capaz de se regenerar, né? É capaz de recuperar as suas funções 100% como era antes dessa exposição, ou ocorreu um dano que não pode mais ser revertido, né? Ou esse dano, eu vou conseguir, então, parar de me expor a essa substância, eu vou limitar o dano, mas o dano que já ocorreu não vai ser revertido, ou parcialmente revertido, parte vai ser irreversível. Então, isso pode acontecer também, né? Então, uma toxicidade reversível versus irreversível, tá?
E esse último aqui, nem é uma, uma distinção que se traz muito em livros assim, eu que tô trazendo mais para vocês aqui, que eu acho importante. Muitas vezes, quando a gente pensa em toxicologia, em toxicidade, a gente tá, vem muito com uma cabeça de senso comum, de de televisão, de série, eh, de CSI, de Grey's Anatomy, de House, né? Essas, essas séries aí, que eles vão sempre carregar para um lado que existe antídoto, né? A gente ouve muito essa, essa ideia de, ah, Fulano está intoxicado, vamos buscar um antídoto para conseguir reverter isso, né? Às vezes existem filmes baseados nisso, né? A jornada do herói inteira pro cara ir buscar o antídoto não sei aonde, para conseguir fabricar aquilo que vai reverter o efeito daquele agente tóxico, né? Então, de fato, existem antídotos, eh, cientificamente demonstrados aí, né? Antídotos para substâncias tóxicas, por exemplo, para benzodiazepínicos, uma intoxicação aguda por benzodiazepínicos, é possível usar o flumazenil, que vai reverter alguns efeitos. Você vai ter para opioides, você tem naloxona, que é capaz de reverter os efeitos. A gente consegue limitar o dano da toxicidade do paracetamol, por exemplo, com N-acetilcisteína. Então, existem antídotos de fato. Mas são raras as situações nas quais a gente tem antídoto. Para a maioria das intoxicações, a gente não tem antídoto. A gente não tem uma substância que reverta aquele efeito. A gente tem que fazer um suporte inespecífico, tem que tentar limitar o dano de outras formas, né, dando um suporte que o paciente necessita, dependendo do tipo de intoxicação. Então, se ele tá com uma dificuldade em respirar, então vai ser um suporte para vias aéreas. Se ele tá com uma reação, eh, como se fosse uma reação anafilática, daí a gente vai usar, eh, substâncias como adrenalina, por exemplo, que vão, eh, melhorar as vias aéreas, que vão causar vasoconstrição onde precisa, etc., para ele conseguir reverter esse quadro. Então, não é exatamente um antídoto específico, mas a gente consegue, de maneiras inespecíficas, manter o paciente, eh, vivo, né, ou, ou conseguir reverter alguns efeitos de maneira, [Música] inespecífica.