📱

Get Our Mobile App

Take your business learning on the go!

Download on the App StoreGet it on Google Play

Como reconhecer produtos falsos no Brasil? | com Renata Cerqueira e Rodolpho Ramazzini | Dois Pontos

Estadão52:47

Transcription

Falsificação, adulteração, contrabando, pirataria de produtos. Problemas que afetam o bolso, a saúde e a segurança de milhões de brasileiros, de bebidas a combustíveis, de alimentos a cosméticos, de cigarros a medicamentos. Diversos setores da economia são atingidos.

De acordo com a Associação Brasileira de Combate à Falsificação, ABCF, as falsificações, o contrabando e a pirataria geram um prejuízo, pelo menos geraram no ano passado, um prejuízo de aproximadamente R$ 471 bilhões de reais. Isso com perdas de arrecadação tributária e de faturamento das indústrias legalmente estabelecidas, mas o prejuízo vai muito além do econômico. Produtos adulterados podem representar riscos sérios à saúde, como mostra a grave crise de adulteração de bebidas com metanol. O tema é complexo, exige reflexão e ação do governo, de empresas e de consumidores.

Eu sou Rosean Kennedy e começamos agora mais uma edição do Dois Pontos. Nesta semana recebemos Renata Cerqueira, integrante da Comissão Técnica de Alimentos do Conselho Regional de Química em São Paulo e professora da Faculdade de Engenharia de Sorocaba. Muito bem-vinda.

>> Muito obrigada pessoal pelo convite. Agradeço muito.

>> Também conosco aqui no estúdio nós temos o Rodolfo Ramazini, que é diretor da Associação Brasileira de Combate à Falsificação. Muito bem-vindo, Rodolfo.

>> É um prazer estar com vocês aqui.

>> E claro para acompanhar essa conversa, conduzir essa entrevista, esse bate-papo comigo aqui no estúdio, sempre um repórter que cobre esse noticiário específico no dia a dia. E aí a gente tem o prazer de receber uma vez mais no Dois Pontos Gonçalo Júnior que é repórter da editoria de Metrópole do Estadão. Muito bem-vindo.

>> Obrigada, Rosário. Um prazer estar aqui. Agradeço a presença dos convidados também.

>> Vamos lá. A primeira questão que eu quero saber de vocês é assim: Quais são os produtos de fato que são mais alvo mesmo desses problemas todos? Pirataria e contrabando e, né, toda a adulteração? E por qual motivo?

Perfeito. Eu vou começar com alimentos. Aí depois eu passo a palavra pro Rodolfo para que ele fale um pouco de bebidas. Então em alimentos não é uma prática que começou há pouco tempo, então eu sempre falo que é uma prática milenar. Então a gente tem essa questão da falsificação ou adulteração. Acontece há muito tempo. Tem várias formas de você eh falsificar ou adulterar um alimento. Então você pode fazer isso por substituição, por diluição. O que que eu quero dizer? colocar produtos que t maior valor agregado no menor valor, você pode colocar troca de rótulos. Infelizmente tem muitas formas, por isso que precisa trabalhar muito forte na questão de mitigação quando a gente fala de alimento. Então, tem alguns que são mais comuns, por exemplo, azeite. A gente sempre ouve muito falar de azeite, pescados, então toda vez a gente fala muito também de pescados, então existe café também, tem alguns tipos de alimentos que são mais, infelizmente, comumente adulterados. Isso falando de alimentos. Aí eu passo para você para comentar um pouco sobre bebidas.

Infelizmente, de todos os setores econômicos, o mais prejudicado hoje pela falsificação é o setor de bebidas. As perdas no último ano foram de R$ 88 bilhões de reais. Há 3 anos já é o setor mais impactado pela ilegalidade, pela atuação do crime organizado. E isso acontece por diversos fatores, como outros setores da economia prejudicados pelo mercado legal. O setor de bebida é um dos mais impactados por é um setor que tem uma alta carga tributária sobre o produto legal, que por si só é um convite para o crime organizado tentar operar nesse setor, né? Porque o produto falsificado ele é vendido a preço viu, sem pagamento de tributos, causa uma consequência desleal avassaladora e tem um apelo pro consumidor final das classes CDE. Isso ocorre não só no setor de bebidas, mas em outros setores altamente tributados, como tabaco, combustível, dentre outros. Mas em nenhum deles o prejuízo da saúde do consumidor é tão severo como é o caso das bebidas alcoólicas que estão ceifando vidas aí, o que para nós nada mais é do que a face mais sombria do crime organizado atuando no setor, que é quando por lucro se seifam vidas. Isso é inaceitável.

>> Então, eh, eu fico pensando mais no lado do do consumidor, como é que ele tem, quais os mecanismos, quais as ferramentas que ele teria para identificar alimentos e bebidas adulterados?

Hoje em dia, infelizmente, nós não temos um mecanismo de marcação física ao controle para que isso seja facilitado. Você tem, sim alguns registros que constam nos rótulos dos produtos, como o registro do MAPA, o CF, dentre outros, que possibilitam uma certa segurança ao consumidor de entender que aquele é um produto com origem. Mas, especificamente falando de bebidas, a gente tinha sim um controle de produção no Brasil até dezembro de 2016. Esse controle foi descontinuado e foi daquele momento em diante que o setor de bebidas ilegal no Brasil pegou um foguete. Ele subiu absurdamente em termos de volume. Ao longo dos últimos 3 anos também a gente verificou uma entrada mais forte do crime organizado nessas operações. Ou seja, com a capilaridade que eles têm capacidade de distribuição e capacidade financeira, tornou o nosso desafio ainda mais difícil para mitigar e combater esses produtos ilegais que levam à saúde e a segurança dos consumidores.

O consumidor, ele deve estar atento a alguns sinais prioritários para se defender desses produtos ilegais, que são, em primeiro lugar, adquirir produtos em locais da sua extrema confiança e exigir nota fiscal. Em segundo lugar, se o produto tiver muito barato, abaixo do valor que você tá acostumado a comprar, desconfie, porque num país como Brasil, com a carga tributária que nós temos, isso é praticamente impossível. Eh, produto barato significa, via de regra, um produto roubado ou um produto falsificado. Em terceiro lugar, se o consumidor ele adquire um produto, pode ser um alimento, uma bebida, qualquer outro produto que ele tá habituado a comprar e verifica uma diferença de lacre, rotulagem, coloração, embalagem num primeiro momento e num segundo momento de odor ou de sabor, pare imediatamente de consumir esse produto. entra em contato com o SAC da fabricante ou diretamente com a ABCF nos nossos canais de denúncia que nós vamos verificar esse fato e se a denúncia proceder levar esse caso às autoridades. Tomando esses cuidados, o consumidor se resguarda muito fortemente de consumir um produto ilegal.

>> Eu vou fazer até um um algo que a gente acho que eu nunca fiz em todos os programas aqui, mas já de início de programa você falou: "Entra em contato com esse serviço", não sei quê e citou especificamente da associação. Já menciona pra gente qual?

>> A ABCF tem diversos canais de denúncia. Eh, por e-mail tenho denuncia@abcf.org.br e temos também disque denúncia da entidade que é no 11 3106-5149. Todas as denúncias recebidas por nossos canais são primeiramente verificadas pelos nossos diretores e quando procedem são encaminhadas à Anvisa, ao MAPA, às polícias, à Receita, enfim, a quem de direito para que sejam tomadas as devidas providências.

>> Tá? Vou até pedir pra produção já colocar também na descrição do vídeo esses dados, essas informações, porque ajuda sem contar os canais oficiais, né? Acho que no MJ tem também alguma coisa?

>> Sim. Na Senacon no MJ, no próprio MAPA. Tem a equipe de vigilância agropecuária deles que faz um trabalho brilhante em conjunto conosco aí pelo Brasil. Você tem vários órgãos que você pode procurar para fazer essas denúncias, Procons, enfim, você pode fazer denúncia no Inmetro, dependendo do tipo de produto também. Ou seja, canais de denúncia existem vários. A questão é levar isso adiante depois para poder coibir essas fontes de produção e importação de produtos ilegais.

>> Eu quero trazer um ponto específico de alimentos. a gente tem o MAPA que é o Ministério da Agricultura e Pecuária. Ele faz o seguinte, então ele é um órgão regulador que para que você tenha uma empresa, você precisa se cadastrar e você tem um rótulo, que é o rótulo que a gente fala do CF, mostrando que o produto é seguro. Então uma das formas do consumidor se garantir é olhar se tem o rótulo do CF, do Ministério para produtos de origem animal e vegetal. E para ele existe, eu acho que depois a gente pode mostrar para que os os nossos ouvintes vejam. Então esse esse é um rótulo específico que o Ministério da Agricultura traz em bebidas, também tem em produtos, como eu comentei, café, azeite. Então a gente precisa, como consumidor, estar atento para esse rótulo. Então essa é uma informação importante enquanto consumidor para se proteger. Não é uma única forma, porque a gente sabe que tem empresas que usam embalagens recicladas, porém é uma das formas de mitigar empresas clandestinas. Acho que esse é um ponto importante de deixar pros nossos ouvintes.

>> Deixa eu, antes de passar pro Gonçalo aqui de novo, você quando falou no início, Renata, sobre os alimentos, os alimentos, sabe o que me chamou atenção? Eu até anotei aqui para não esquecer de perguntar. Você falou assim que entre os itens falsificados tem pescados.

>> Sim.

>> Eu tô desde a hora que você falou, eu tô processando. Como é que se falsifica um peixe? Sabe assim, eu falo, parece que é uma brincadeira, mas não é, não é porque realmente eu não faço a menor ideia.

Olha o que acontece muito, esse é um ponto importante, por exemplo, produtos de valor agregado, bacalhau. Vou dar um exemplo que todo ano a gente sabe que tem várias questões. Por quê? Porque ele é caro, salmão também. Então o que que acontece quando eu falo de falsificar? é pegar um tipo de um produto, um pescado de menor valor agregado e falar que é um bacalhau. Então, quando a gente fala disso, é enganar o consumidor, porque nós poderíamos ter um produto que seria só salgado, mas ele não estaria com essa questão de identidade como bacalhau. Então, quando eu falo de pescado, eu falo desse propósito, é que é que a gente brinca de comprar gato por lebre. Ou seja, eu quero, eu pago, eu invisto num produto, só que eu não tenho ele. Então, quando eu falo disso, eu tô falando especificamente desse caso de comprar um produto que está enganoso. Então, esse é um ponto principal de adulteração.

>> Porque de azeite a gente já ouviu muito recentemente, inclusive algumas operações e alguns inclusive causam problemas de saúde.

Com certeza, né? Tem azeite com óleo lampante no mercado sendo apreendido. Você tem no caso específico do bacalhau que a Renata bem disse aqui, polaca do Alasca salgada sendo vendida como bacalhau. Você tem aí truta alimentada com ração com corante laranja, sendo vendida como salmão por muitos restaurantes aí de comida japonesa. Você tem diversos outros casos, como por exemplo atum em lata, que não é atum. e outros problemas. Isso do gato por lebre é uma coisa antiga, como a Renata bem disse. Agora, a gente sempre espera, apesar de ser um produto falsificado, um gato por lebre, que aquela produção tenha tido um mínimo cuidado de higiene, né? O problema é que normalmente os locais que manipulam esses produtos que são colocados no mercado, além do problema de vender gato por lebre, é a falta total de higiene, de parâmetros técnicos na manipulação desses produtos. Então, quando eles chegam pro consumidor final, muitas vezes eles causam um problema gastrointestinal ou outro tipo de problema mais severo por causa também da má manipulação e da falta de higiene na confecção e na embalagem desses produtos, né, Renata?

Esse é um ponto importante que ele colocou, porque nós temos dois, duas preocupações. Essa questão da bactéria, que pode causar um dano, como ele comentou, de que a gente chama de doenças transmitidas pelos alimentos, que é uma disenteria que pode levar uma pessoa que tem o que a gente chama de imunossupressão a um óbito, mas é menos, é incomum isso. No caso do metanol, o que que aconteceu? Porque a gente não tá preparado, o nosso organismo. Então o que que eles fizeram? eles realmente substituíram etanol por metanol e isso causa o dano para a saúde. Então essa preocupação porque o o adulterador ele não está preocupado com a questão de saúde pública. Então esse é um ponto importante que a gente tem que estar sempre olhando.

>> Eh, quais são, não sei se é possível identificar quais são os pontos onde onde a fiscalização tem sido mais falha. É possível olhar, não sei se naturalmente cada produto tem uma cadeia diferente, cada setor tem uma cadeia diferente, né? Existem pontos mais nevrálgicos, assim, mais sensíveis, que a fiscalização tá falhando.

Nós vivemos num país de dimensões continentais, onde, infelizmente, a fiscalização é completamente ineficaz. Em que sentido? 16.000 km de fronteira terrestre com países vizinhos e só 28 postos de fiscalização. Se nós pegarmos nossos portos de Belém do Pará até Rio Grande, no Rio Grande do Sul, nós não temos 3.000 agentes fiscais para fazer desembaraço de contêiner. Só no porto de Roterdão, a Holanda tem 3.200 agentes. Então, infelizmente a fiscalização no Brasil, ela acaba sendo feita nessas pontes de entrada, ou por amostragem, ou quando existe uma suspeita ou uma denúncia. Então, nós temos diversos gargalos que trazem a gente para ter os problemas do tamanho que nós temos no Brasil. Esses são alguns deles. Outro é a falta de rastreabilidade em alguns setores da economia, como ocorre, por exemplo, no setor de bebidas. Você hoje não tem uma marcação que garanta que aquele produto que saiu da fábrica e chega no consumidor final é o mesmo, que aquilo tem procedência. Isso é extremamente preocupante. Você não consegue garantir que o produto que tá chegando, apesar dele vir acompanhado de uma nota fiscal, é aquele mesmo que saiu da fábrica. Você não sabe se aquele produto foi trocado no meio do caminho. Por isso que a ABCF briga tanto e fala tanto que a gente precisa retomar de alguma maneira o controle de produção e rastreabilidade no mercado de bebidas para garantir da fábrica ao ponto de venda ou da importação ao ponto de venda a procedência e a qualidade do produto original. Nas discussões semana passada na Câmara daqui de de na Câmara Federal e no Senado a respeito de majorar as penas para quem falsifica bebidas. Eh, algumas pessoas da indústria disseram assim: "Hã, eh, não adianta marcar o produto original, porque o problema é no produto falsificado, mas é aí que está exatamente isso que a gente tá dizendo. Se você marca todos os produtos originais e permite que o consumidor os identifique, isso vai dificultar a atuação do crime organizado na falsificação do produto, porque o produto falso não vai ter essa mesma marcação. Nós precisamos garantir para as pessoas que estão saindo, indo para bares e restaurantes, que elas tenham segurança para consumir o que tá na ponta. Senão o setor vai continuar tendo perdas bilionárias, as pessoas vão continuar com medo e inseguras para consumir produtos e isso não pode acontecer. Então nós temos que estudar maneiras junto com o governo a nível federal, a nível estadual de mitigar essa distribuição de produtos ilegais. E uma das maneiras de fazer isso é ter esse controle de rastreabilidade de produção.

>> Isso na alimentação também seria possível?

Hoje nós já temos, como eu estava comentando, já existe isso, uma das ferramentas, mas eu concordo com o Rodolfo com essa questão de ter várias medidas de controle. Então, as empresas elas têm alguns programas que a gente chama de controle de fraude, porém isso precisa ter lá no porto, precisa ter no campo, precisa ter na indústria, precisa ter nos supermercados, porque, infelizmente, quando você vai estudar a fundo, a gente também tem adulterações em supermercado. Quem já não escutou essa questão de prazo de validade, de ser isso também é um tipo de adulteração. Então, quando ele fala de várias ferramentas, ou seja, várias medidas para garantir que o nosso consumidor, ele realmente não está sendo penalizado por isso. Então esse é um ponto importante que a gente tem que ter em consideração. Por mais que a gente tenha aumentado as medidas de fiscalização, de inteligência, de repressão em conjunto com as autoridades em todos os níveis ao longo dos últimos anos para combater a entrada desses alimentos e bebidas ilegais no mercado brasileiro, a gente nunca fez tanta denúncia ABCF para as autoridades a respeito de bebidas sós como ao longo dos últimos 2 anos. Nunca peticionamos tantas notícias crime, nunca acompanhamos tantas operações, mas infelizmente esse mercado continua crescendo além dos nossos esforços. Isso significa que só essas medidas de repressão e inteligência não estão sendo suficientes para mitigar o problema. Eu tô há anos alertando que iria acontecer um problema como esse do metanol, porque os bandidos não têm escrúpulo. Eles misturaram esse metanol com álcool etílico e é um produto que você não consegue diferenciá-lo do álcool etílico por odor, nem por sabor. Então, se esse produto está misturado num caminhão tanque ou numa num cilindro de de num cilindro plástico de armazenamento e depois vai ser usado para fazer uma vodka falsificada, você não vai saber que aquilo é um problema até você consumir parar no hospital ou morrer. É gravíssimo isso que está acontecendo. E só fazer investigação, inteligência lá em fortemente não está resolvendo o problema. Então a gente roga às autoridades que tomem medidas para restabelecer essa questão de rastreabilidade com qualquer sistema que esteja disponível, qualquer ideia que o governo tenha, o que não dá para não ter controle de produção. Isso é um tiro no pé pro governo em termos de arrecadação e principalmente coloca todos os consumidores brasileiros sob risco de ter um problema de saúde grave, como o que vem acontecendo nessas últimas semanas que vem revoltando o país todo.

>> É, no caso das bebidas, especificamente, essa discussão sobre a rastreabilidade é algo que foi parar no judiciário. Eh, envolve um debate que contrapõe ali decisões referentes a Tribunal de Contas, Receita Federal, setor. Então isso virou um embrolho enorme. E um dos argumentos do grupo, pelo menos que é contrário à a readopção do modelo que existia até 2016, eh, como o senhor ressaltou, eh, um dos argumentos é de que ah, aquele sistema era obsoleto. E aí me chamou muita atenção, porque em todo momento o senhor não diz exatamente a retomada aquele, mas que tem algum. Se a gente comparar com o que existe hoje de rastreabilidade pelo mundo, que modelos a gente pode pensar em trazer pro Brasil? O que é que tem dado certo? Eh, sei lá, o o Gonçalo até eu tava vendo material de produção que Gonçalo preparou aqui, ele cita ali e QR code, blockchain, enfim, traz esse panorama sobre o que é feito no mundo e que poderia ser trazido para cá também.

Eu posso dar um exemplo que a República Dominicana estava tendo perdas de vidas ali em mais de centena por ano com Rum falsificado com etanol que vinha do Haiti. Quando isso aconteceu e mais de 300 pessoas morriam por ano no ano de 2021, o governo daquele país, para mitigar o problema, foi atrás exatamente da tecnologia que o Brasil tem disponível e trouxe essa tecnologia, obviamente modernizada, instalou naquele país com as tintas de segurança mais modernas, as ferramentas mais modernas e esse sistema começou a funcionar em janeiro de 2022. De lá para cá, ninguém mais morreu na República Dominicana com bebidas adulteradas. No Brasil, enquanto o sistema funcionou, nós também não tivemos perdas de vida com metanol f adulterando bebidas. Mas é o que você bem disse, eu não tô defendendo a retomada da ferramenta anterior e sim de uma ferramenta modernizada, qualquer que seja ela, a que esteja em estado de arte, pronta para funcionar, que seja colocada no Brasil. Porque um país com as nossas dimensões, nosso tamanho de mercado consumidor, não pode ficar no sistema atual que a autodeclaração impera, onde muita gente só nega, fica fácil você adulterar a bebida, obter sumo para falsificar. E isso é o que vem acontecendo. Então a gente entende que se a gente não aliar tecnologia nas ações de inteligência e law enforcement, nós não vamos sair do lugar. E ainda tem esse problema que nós estamos vivendo no momento, que na nossa opinião está sendo subnotificado. Tem mais gente sofrendo problemas que está sendo internada em hospitais e atendida com sintomas referentes a essa contaminação, mas que não está entrando nessas contas oficiais. Infelizmente a gente acha que ao longo do próximo mês, dois meses, nós vamos continuar tendo casos de envenenamento de gente parando em hospital, porque essas bebidas estão sendo vendidas em vários estados da federação. Os casos não param de ser notificados. Nós temos eh o governo de São Paulo dizendo que a fonte aqui em São Paulo era um local só, mas pela quantidade de casos notificados, a gente entende que tem outras que ainda precisam ser debeladas. Você teve fontes em Pernambuco, fontes no Sul, fontes no Centro-Oeste. Ou seja, a disseminação desse problema no território nacional nos mostra que as fontes são diversas, razão pela qual, infelizmente, a gente acha que esse problema ainda vai perdurar durante o tempo.

>> Trazendo exemplos na parte de alimentos, a gente já tem boas práticas para leite, por exemplo, porque também é um tipo de alimento que também está passível de muita fraude. Então, o blockchain já está sendo usado. Tem algumas grandes empresas que já colocaram isso em uso, então traz aí uma boa prática, mas infelizmente ou felizmente precisa de investimento. Então acho que esse é um ponto importante que a gente tem que olhar que a gente precisa investir para que a gente consiga ter essa segurança pros nossos consumidores.

[Música]

>> A gente teve casos também com mortes no caso do leite, especificamente anos atrás, eu acho que uns dois anos mais ou menos, né? era o que exatamente aquele caso?

>> É que o leite ele é passível de muitas fraudes. Então a gente pode ter com água, que é a mais simples, teoricamente inócua, a gente pode ter com formaldeído para quando você tem questões microbiológicas. Então ele pode ter n situações com ácido, com algum tipo de ácido com no caso da China que também levou à morte que com melamina porque ela aumenta o nível de nitrogênio de proteína. Então assim, também ele é muito passível de também adulterações. Então é um ponto importante que a gente precisa estar sempre atento.

>> Agora estão ficando até café no Brasil. Era a a antigamente a gente encontrava única e exclusivamente impurezas no café, um café mais barato, com mais impurezas, né? Mas agora nós estamos debelando aí fontes produtoras de café falsificado. O ramo de suplementos alimentares não para também de ter adulterações.

>> No café, qual é o tipo de fraude?

>> Eles adulteram café, eles colocam borra misturada com serragem. Aí tem pedaço de inseto, tem contaminação microbiológica, tem outras outras coisas enfiadas no meio da formulação também para ganhar volume.

>> Exato. O que acontece é o seguinte, então o o café ele tem uma quantidade de impureza, ele pode ter até um ter um nível. O que vai o que está acontecendo é que eles estão adicionando de maneira incorreta em empresas que não estão idôneas um número muito maior de impurezas. Quando a gente fala em impureza, seria próprios eh pedaços, por exemplo, que vem do campo e tá adicionando numa quantidade maior, ou seja, ele não é café. Então, que você compra são coisas que vem da da agricultura que não estão com aquilo que você está comprando. Esse é um ponto importante.

>> Esse eu como uma consumidora, assídua, permanente, constante do café, isso muito me preocupa. Eh, como vamos pensar de uma forma geral, porque no caso do café, linhas gerais, eu imaginava que eu cheguei num supermercado, o pacote de café tá ali com todos os rótulos. Eh, e isso também.

>> Tudo direitinho ali.

>> E aí, então, o que que acontece? Eh, esse é um ponto importante, o que a gente precisa ter, porque no caso do café aconteceu vários pontos. Primeiro que a gente teve menos café, então a gente teve uma questão de chuva e aí empresas que a gente sabe que são não são idôneas vão aproveitar disso, porque para café quando você torra, ele acaba ficando então numa coloração que você não consegue mais saber o que não é café. Então, o grande ponto nós consumidores é confiar que os órgãos regulatórios estão sendo, estão fiscalizando. O que que eu posso fazer se a a mesma educação que nós tivemos anteriormente, se tá muito barato e o que que aconteceu? O ponto que tava com rótulo muito parecido e é mistura de café, não sei se vocês viram, tipo café. Então a gente precisa ter.

>> Tipo café. Eu não vi não. Eu já vi tipo bacalhau, tipo igual creme de leite falso agora também, né?

>> Exatamente.

>> Sim. Então eu eu fiz um curso recente que a gente foi depois eh tava lá mistura tipo café e aí a gente foi ver, gente, não tinha absolutamente nada e aí depois mas assim existia uma questão eh nesse caso específica, ele colocou, né? Ele foi muito exato. Então a gente comprou até para fazer essa questão dizendo o que que tá. O que a gente não pode é ter o café no rótulo e ele ser de uma forma enganosa. Então a gente tem que ter olhar essas questões produto de uma qualidade diferente do que é uma adulteração.

>> E não necessariamente porque é tipo alguma coisa vai gerar algum risco, por exemplo, com a saúde, desde que fique que é necessário seguir todos os parâmetros, se tiver tudo controlado. O que ocorre muitas vezes é que produtos chegam ao mercado. Em mercados médios e pequenos, principalmente em regiões de renda um pouco mais baixa. Produtos desses são disseminados à venda nesses mercadinhos. E aí tem o selo da BIC, mas aquele selo é falso. Aquele produto tem um selo CF, mas é falso. Ou seja, a embalagem agrega selos de certificação que não são de verdade. E aí a gente quando identifica esses produtos no mercado, avisa as autoridades para que sejam recolhidos de imediato. Mas infelizmente isso vem crescendo por causa disso que a gente estava dizendo. Capacidade de fiscalização do estado versus o tamanho do Brasil, a quantidade de municípios e tudo mais, ela nunca vai ser suficiente. Não há o número de agentes necessários, nem ferramentas necessárias para que essa fiscalização seja feita a 100% do Brasil. Nós não moramos na Suíça. O Brasil é um país grande de extensão territorial, grande capilaridade de cidades, capacidade de distribuição das quadrilhas, enfim. Então nós temos que investir cada vez mais nos processos de certificação, nos processos de rastreabilidade para que a gente possa garantir o que está chegando pro consumidor. Se a gente não fizer isso, tudo que a gente fizer vai mitigar um pouco o tamanho desse problema, mas nós não vamos conseguir salvar a população, garantir 100% a procedência e a qualidade dos produtos que a gente consome num país como o nosso, onde falta ainda muita coisa em relação a à segurança pública, em relação a a poder fazer um controle mais efetivo sobre tudo que está no mercado brasileiro, a gente tem que investir em tecnologia e agregar isso. no trabalho que já vem sendo feito. Se nós não fizermos isso, nós não vamos conseguir mitigar esse problema a um nível, entre aspas, tolerável e que dê uma segurança pros consumidores.

>> E o que que traz mais risco pro consumidor? Não sei se é possível fazer essa diferenciação. O produto adulterado ou o produto falsificado?

O gato por lebre, ele traz sempre um risco de saúde pela má manipulação, por falta de parâmetro no no na manuseio daquele produto, né, na produção do produto ilegal, mas ele não tem na sua composição nada que mate o ser humano, via de regra. Já no caso dessas destilarias clandestinas, você não pode garantir absolutamente nada do que está dentro da garrafa. Vou te dar um exemplo. Você, o falsário há muitos anos faz o whisky falsificado com o álcool etílico é eteriodo e corante caramelo. Agora, quem garante que aquele álcool etílico é álcool etílico puro, que aquilo não é álcool anidro de posto ou que aquilo não é um álcool contaminado com metanol que foi batido junto para ganhar volume? Hoje em dia, infelizmente, nós não podemos garantir isso. Então, essas destilarias clandestinas precisam ser fechadas. Não há outra maneira da gente mitigar esse problema pro consumidor final. É um produto altamente nocivo, como é também nocivo o caso, por exemplo, que ela citou do leite, quando é misturado com ele. Teve um caso de um leite com melamina no Rio Grande do Sul e matou gente. E o o próprio caso da contaminação com etanol último que o Brasil viveu foi em 1995, quando algumas cachaçarias na Bahia produziram cachaça com etanol, 35 pessoas morreram. Foi inclusive o meu pai que advogado especialista nisso à época que ajudou a polícia a pegar essas quadrilhas e acabar com esse problema. Aí de lá para cá, tô falando aqui de 30 anos. Em 30 anos nós não havíamos tido mais nenhum problema desse nível no Brasil, como nós estamos vivendo no momento que é uma calamidade pública. Agora, para que a gente volte a ter esse tipo de problema, fica muito claro que isso está ocorrendo. Por quê? Porque não tem controle. Porque você tem uma fiscalização que não é tão eficiente como deveria ser. As autoridades em cada nível fazem o seu papel, fazem. Todos os agentes que tentam fazer esse controle conosco ou sozinhos são abnegados, fazem o seu trabalho de maneira exemplar, mas eles são poucos e eles não têm muitas vezes os equipamentos que eles necessitam para trabalhar, não tem. Falta um pouco de vontade política de investir mais nisso para que a gente possa fazer um controle mais efetivo do que está no mercado. Isso nos preocupa porque no que nos cabe enquanto sociedade civil organizada, nós nunca fizemos tanto, nunca investimos tanto nisso, nunca a indústria custou tanto as ações. A mesma forma eu posso falar da equipe de vigilância do MAPA que nunca trabalhou tanto. as equipes de das delegacias especializadas que trabalham conosco, idem, mas 30 agentes para um estado como São Paulo é nada. Você ter 20 agentes uma delegacia do consumidor no Paraná, por exemplo, também não é nada frente ao tamanho do estado e a quantidade de desafios. Por isso a gente insiste que você tem que pegar e aliar para tudo isso que está sendo feito ferramentas a disposição do estado para que a gente possa coibir isso. Não adianta só fazer inteligência e law enforcement. A gente não adianta também durante as investigações só fazer o follow the money e seguir o dinheiro do crime organizado. Nós temos que instituir no Brasil o follow the product, que é exatamente o que o MAPA tenta fazer, o que o CF faz, o que a BIC faz e o que o Cicob fazia nas bebidas. Nós precisamos garantir esse produto da fonte ao consumidor final. Enquanto nós não fizermos isso, tudo que nós estamos fazendo vai sim enfrentar isso, mas nós não vamos conseguir diminuir o tamanho do problema e o desafio que nós temos pela frente.

>> Quando o senhor diz, eh, é preciso fazer esse seguir a bebida, seguir o produto, né? Vamos falar o produto de uma forma geral, mas eu vou puxar aqui a a bebida para tentar entender o seguinte. quando fala seguir o produto, seguir essa bebida, eh, dá pra gente ter uma ideia hoje até, sei lá, assim, em termos percentuais de quem está revendendo esse produto, quer dizer, que está levando, porque tem um que produz >> aí, né, adulterado, vai ter alguém que vai levar isso ao consumidor final ou esse consumidor final já está comprando diretamente de quem adulterou. Essa cadeia, como é que ela está operando hoje? E no caso, se há esse revendedor, obrigatoriamente esses revendedores sabem que estão vendendo produto adulterado ou eles também podem estar sendo enganados?

Na maioria dos casos, os donos dos estabelecimentos que revendem esse produto sabem que estão vendendo um produto falso, porque eles compram sem nota, sem procedência e a preço viu para aumentar sua margem de lucro na venda ao consumidor final.

>> Aí o indicador é o preço, né? quando ele compra muito mais barato.

Exatamente. E e a falta de origem também, porque a pessoa que compra isso para revender no seu mercado ou na sua distribuidora ou no seu bar e não tem uma nota fiscal de origem desse produto e pagou 30% do preço do produto original, ele sabe exatamente o que ele está fazendo, né? H, você tem aí desde a entrada do crime organizado nesse setor para valer, como já havia acontecido no setor de cigarros, combustível anteriormente, você tem aí um agravante nas periferias que são as montagens dessas adegas, né? por parte do crime organizado que monta essas adegas que são a ponta para revender esse produto ao consumidor final e ainda lavar dinheiro do crime organizado. Quando você fala dessa distribuição em uma escala maior para bares, mercados, restaurantes, aí você está envolvendo distribuidoras que também estão comprando esse produto. Elas têm uma nota fiscal do produto original que elas compram. Aí elas põem lá, por exemplo, 40%, 30% de produto bom ali dentro. Mas tem ali 60% de produto ruim. Se vier uma fiscalização, elas têm uma nota de origem do produto bom que justifica aquele estoque, mas ao mesmo tempo elas estão vendendo um produto ilegal. Isso, infelizmente, para a gente vem acompanhando isso nas fiscalizações efetuadas. Você tem muita gente que tenta ganhar dinheiro à margem da segurança e da saúde das pessoas. E via de regra, quem vende esse produto ilegal sabe sim que está vendendo. Eu vou dar um exemplo para vocês aqui que cabe pros alimentos, bebidas, mas para outros produtos. Até o advento da pandemia da Covid-19, cerca de 10% do volume total de produtos ilegais que chegava aos consumidores finais chegava através das plataformas de e-commerce e mídias sociais. com as mudanças de hábito dos consumidores naquele momento, foi crescendo muito a o a participação dessas plataformas de e-commerce nesse sentido e elas alegam que não são responsáveis pelos produtos vendidos por terceiros, certo? Hoje 34% do volume total de produtos ilegais que chegam aos consumidores chega através das plataformas de e-commerce e mídias sociais. É muita coisa, é mais de 1/3. Ao mesmo tempo que você tem plataformas que têm um certo compliance, tentam combater as fraudes e colaborar com as autoridades, como aqui, por exemplo, eu posso citar o Mercado Livre que tem uma área de combate à fraude, trabalha conosco, trabalha com a Cenacon, trabalha com MAPA, trabalha com outros órgãos, você tem outras plataformas que não têm nenhum compliance, que vendem qualquer coisa a qualquer preço. Isso é mais um meio dessas bebidas ilegais e desses produtos chegarem ao consumidor final. Isso facilita o escoamento desses produtos para esses consumidores, muitas vezes de maneira direta e agrava o problema que nós estamos vivendo agora mais ainda. Então, nós temos que entender que hoje não é só combater essas distribuidoras, essas pontas de venda e essas adegas do crime organizado. Nós temos que atuar também junto às plataformas. o governo tem que de alguma maneira criar algum mecanismo de rastreabilidade do que é vendido por elas diretamente aos consumidores. Por isso que a gente insiste tanto, Gonçalo, na gravação física do produto, porque senão, como que nós vamos garantir que aquele produto que está saindo daquele e-commerce, chega no consumidor final, é um produto original? Não tem como. Vou dar um outro exemplo para vocês. A bebida importada, ela tem um selo de IPI que é colocado nela quando ela entra no país, né? a Receita eh fornece para que a bebida seja vendida. A Receita Federal não atualiza os mecanismos de segurança do selo de IPI de bebidas no Brasil desde 2016. Eu tô falando aqui de 9 anos sem nenhum tipo de atualização de segurança. Por isso que nas adegas e nas destilarias clandestinas que estão sendo pegas essas últimas semanas, tantas delas você está encontrando selos falsos sendo colocados em garrafa, você não pode flexibilizar os mecanismos de segurança e fiscalização que você tem para mitigar o mercado legal. Muito pelo contrário, o governo devia estar modernizando isso todo dia para que a gente possa ter mecanismos confiáveis de segurança para garantir o que está chegando no consumidor. Você não pode ficar 9 anos sem atualizar um selo de IPI. Então, falta um pouco de vontade política, falta um pouco de entendimento por algumas partes do setor público e privado para a gente chegar num denominador que garanta essa segurança. Eu acho que esse caso agora que nós estamos vivendo e esse impacto de saúde pública, essa calamidade vão servir para que hajam conversas a respeito, seja no Congresso, no Senado ou mesmo no Ministério da Agricultura, para que nós possamos atingir um equilíbrio nesse sentido para melhorar o que a gente tem de garantia da procedência e qualidade dos produtos.

>> Eu gostaria de colocar um ponto que foi muito interessante da sua pergunta. Quando a gente fala de adulteração e falsificação, acho que é importante trazer um pouco da educação, que é o seguinte. Então, o que que é fraude? Fraude é tudo aquilo que tem uma motivação econômica. E dentro da fraude eu posso ter adulteração, posso ter falsificação. Então são formas diferentes da gente ter um tipo de fraude. Então, acho que é importante só a gente trazer isso porque assim, como eu comentei, como é um tema que já vem há muito tempo, tem vários tipos de fraude, tem diluição, tem substituição, tem rótulo diferente, tem quando a gente também coloca eh outras informações para que a gente saiba então o que que é fraude, o que que é um produto falsificado e o que que é uma adulteração. Então, adulteração é tudo aquilo que foi com a questão de motivação financeira. E é importante ressaltar para a população que nos escuta e nos vê que ainda bem que o grosso do mercado ilegal de bebidas é adulteração gato por lebre, que não é o que proveniente dessa fábrica clandestina, dessa destilaria clandestina que seifa vidas. Ainda bem, mas essa questão das destilarias clandestinas vem crescendo e é uma coisa que nós temos que tomar cuidado. Por enquanto, o grosso das bebidas ilegais no mercado brasileiro é o que você bem explicou, gato por lebre, né? a troca de rótulo e tampa, no caso de cerveja, é vender uma vodca de baixa qualidade na garrafa de uma vodca de alta qualidade e preço maior. Ainda bem que esse problema é um problema menor, entre aspas, do que esse problema que a gente vem vivendo. Agora, se a gente não tomar medidas corretas, isso tende a piorar. E é isso que está nos preocupando no momento, porque a saúde e a segurança da população tem que estar em primeiro lugar.

Renata, eh, você mencionou que esse é um problema assim já histórico, já veio há muito tempo e é uma questão complexa, mas eu queria eh ouvir a sua opinião a respeito de quais medidas seriam assim eh prioritárias, o que deveria ser feito primeiro, de forma mais urgente para minimizar um pouco esse problema da da adulteração e da falsificação?

Um ponto principal que o o Rodolfo trouxe bastante, esse é um caso de polícia, então isso acho que é importante. Então nós enquanto consumidores, a gente precisa realmente eh informar. Então, se a gente vê algo diferente, a gente precisa começar a a trabalhar nisso. Eu sei que várias pessoas agora, como a gente está com essa calamidade pública, já estão desenvolvendo métodos rápidos para a gente conseguir detectar isso. Lógico que como consumidor a gente não vai fazer esse investimento. Então, assim, toda vez que acontece algo muito sério como isso, a gente começa a se preparar. Então, ou seja, tem agora uma questão de tecnologia que precisa ser feita, tem uma questão regulatória. Quando eu falo regulatória, é essa questão dos órgãos públicos também começar a entender, colocar mais fiscalização. Eu acho que é uma das formas. Então, eu vejo que é um problema complexo, não é multifacetado, mas a gente precisa primeiro enquanto consumidor viu algo que avisa, então realmente denuncie porque é um caso de polícia. Então, ou seja, essas pessoas vão ser realmente culpadas e vão ter todo um processo. E tem esse essa questão da tecnologia que a gente precisa também ter muito eh o que que a gente pode a através disso usar essas tecnologias na indústria, em todos os setores, para a gente minimizar. Eu

Vejo que então são várias ações complexas em relação a isso.

Vocês diriam que diante de todo esse momento de tensão, isso vai gerar de fato uma mudança, por exemplo, no hábito de consumo, eh, dos brasileiros?

Já está acontecendo, né? Mas, mas acha que isso de forma perene? Porque eu acho que de imediato tem um susto, né? Tem um medo.

Olha, eu vejo que a gente precisa também educar, porque, ou seja, como você comentou, né? A gente tem vários amigos que, olha, não vou mais consumir deste lado, não vou mais consumir nenhum tipo de bebida. Eu vejo que assim, a gente já viu isso em outros, para outros tipos de alimentos, por exemplo, leite. Eu já vi casos, ah, não vou mais consumir determinado produto porque pode ter. Então, assim, não vejo que isso vai ser a longo prazo. O que eu vejo é que a gente vai estar muito mais educado, a gente vai trazer mais informações para que a gente, então, esteja mais atento. Então, o que eu acho que a gente tem que aproveitar é nos educar, começar a entender quais são os pontos que a gente vai fazer, mas não vejo que isso vai acontecer, porque quando eu produzo de maneira segura, a gente sim pode usar, pode consumir bebida, mas o que a gente não pode é quando tá realmente falsificado, adulterado, como nós estamos vendo. Então, eu vejo dessa forma.

O consumidor brasileiro, ele toda vez que tem um problema grave como esse de agora, com grande repercussão junto à opinião pública, isso acaba nos ajudando a a educar o consumidor, a conscientizar o consumidor. Eu tô insistindo para todo mundo que fala comigo que a pessoa não precisa ficar trancada dentro de casa com medo de sair para beber ou ou frequentar algum lugar. Desde que ela vá num lugar onde ela confia, sempre consumiu, conhece a procedência das coisas do dono, sabe que aquele local é sério, ela não pode ficar trancada dentro de casa com medo de sair, de tomar uma caipirinha, alguma coisa. Ela tem que ir em locais a sua extrema confiança, que ela sabe que os produtos têm procedência, que ela tá acostumada a frequentar há anos que nunca teve um problema, né? Porque senão nós vamos ver esse setor todo de bares, hotéis e restaurantes quebrar.

Ah, tem um projeto de lei aqui em São Paulo do deputado Olim, ah, que tá querendo, estão estudando a possibilidade de que essa questão das garrafas, por exemplo, fique a critério dos, fique a responsabilidade pro dono do bar, reutilizar as garrafas para que elas não sejam reaproveitadas pelo pelo crime organizado. Eu nessa discussão estou dizendo, já existe um processo muito bom de logística reversa feito pela AB Vdro, que tem pontos de coleta espalhados por grandes cidades brasileiras. Tem um processo de logística reversa da própria Abrab também para pegar essas garrafas e reciclá-las. O que tem que ser feito é ampliar esses programas e e manter isso a cargo da indústria, até porque quem vai reutilizar essas garrafas depois é a própria indústria, né? Não adianta você repassar essa conta, essa responsabilidade pro cara do barzinho, pro cara da padaria, que isso vai criar um problema logístico ainda maior, na minha opinião. Então, a gente tem que pensar em alternativas para conscientizar a população, os donos de mercado, de bares e todos, mas para trabalhar no que já existe e funciona, como é o caso desses programas de logística reversa do setor das fábricas para poder não permitir que essa garrafa chegue também nas quadrilhas de falsificadores.

Agora, toda e qualquer medida que seja tomada nesse momento vai ter um impacto maior, porque nós estamos vivendo uma crise de saúde pública relacionada às bebidas ilegais. Isso tanto é verdade que as últimas duas semanas houveram duas comissões discutindo o assunto, tanto na Câmara quanto no Senado Federal para majorar a a as penas de quem falsifica a bebida e estudando também a questão do controle de produção de bebidas. Isso é importante. O Brasil precisa discutir isso para que nós tenhamos medidas efetivas para mitigar essa situação.

É curioso porque assim, né, é curioso e lamentável porque vocês deixaram aqui de forma muito clara, não é nada que começou ontem, existe aí falta a fiscalização, não tem gente suficiente, enfim. Aí deixa ver o vem toda uma discussão em termos de congresso. Ai vamos aumentar a lei disso, a penalidade para prisão disso ou daquilo. Mas é só depois que morreu gente. Quantos anos se sabe? Décadas que se sabe.

Eu ia falar isso. Precisou morrer alguém para que tomassem atenção para esse assunto que a gente já vem brigando há tanto tempo e alertando para esse perigo disso acontecer. Infelizmente o Brasil funciona assim. Só quando você tem perda de vidas ou um caso de calamidade é que as coisas ganham prioridade para que elas sejam discutidas. Isso precisa ser discutido de maneira emergencial, porque nós não estamos falando aqui de um produto ou de um problema que tá impactando 5% da população. Estamos falando de algo que impacta todos nós, porque é muito difícil alguém que não consuma um vinho, uma cerveja ou algum tipo de bebida alcoólica. A maioria da população brasileira as consome, tá com medo e precisa de soluções para que o setor não quebre, seja quem fabrica, seja quem revende. E o governo também precisa controlar isso melhor para poder tributar isso de maneira adequada e poder garantir a saúde e a segurança de quem tá consumindo produto na ponta final.

Eu acho que um ponto também importante é não ter uma generalização, porque hoje a gente não tá consumindo nenhum tipo de bebida. Então a gente escutou alguns tipos de bebidas porque tem o percentual de álcool maior que é o 40%. A gente tá falando de vodca, tá falando de cachaça, mas tem, por exemplo, a cerveja e o e o vinho, eles não foram objeto porque eles têm uma quantidade de etanol menor. Então, acho que é importante também então nós, enquanto profissionais da área, explicar que também não é uma generalização, porque a gente, enquanto isso, tem escutado pessoas, não, não vou mais tomar cerveja, não vou mais tomar vinho, não vou tomar. Não é isso. Acho que a gente também tem que ter essa conscientização de que tem alguns tipos, mas tomando de locais que são sérios, éticos, que não tem problema. Acho que a gente também não pode também de ser zero ou 100. A gente tem que tomar esse cuidado.

E é perfeito esclarecer para toda a população que até o presente momento as denúncias referentes à intoxicação por metanol no estado de São Paulo têm a ver somente com bebidas destiladas, com gin, vodca e whisky. Lá no Nordeste com gin, vodca, whisky, cachaça. Até o presente momento, não há e nem houve nenhum caso nesse meio tempo dessa crise de calamidade que nós estamos vivendo, envolvendo bebidas fermentadas, ou seja, nada de whisky, eh, perdão, nada de cerveja, nada de vinho, nada de espumante. Por enquanto nós não temos nenhum caso e nenhuma suspeita referente a esses produtos de contaminação por metanol. No passado a gente já teve um caso com cerveja. Eu eu vocês vão falando, eu vou em Minas Gerais, Minas que...

Formol na produção da cerveja. Muita gente.

Foi.

Agora, o que a gente diz, se você não tem controle, qualquer coisa pode acontecer. Até numa fábrica legal, essa fábrica pode sofrer uma sabotagem, como é o que eu acho que aconteceu no caso da BER.

Acho que teve decisão já judicial nesse sentido, né? Foi uma sabotagem, acho.

Isso. Então assim, a gente não pode garantir que não vai haver um problema novo. A gente tem que criar ferramentas para tentar coibir que isso aconteça. Ponto.

Exato. O que eu acho que é importante é a gente sempre olhar, existem medidas, tem várias medidas de controle estabelecidas para garantir. Então o que a gente tem que fazer é colocar tecnologia, trabalhar junto, muito próximo do governo, dos órgãos regulatórios para fiscalizar. Isso que é importante, porque senão a gente não vai sair de casa, porque assim, a gente tem que garantir que nós temos um controle e que sim, está sendo seguido. A segurança precisa ser mantida. Eu acho que esse é um ponto importante também da gente conscientizar os nossos telespectadores.

Eh, só queria repassar algumas orientações que vocês deram aqui ao longo da conversa pro consumidor, assim, ali na hora da prateleira, o que que ele poderia olhar no produto, olhar o nível da garrafa, o nível do líquido, olhar o selo, três ou quatro pontos assim mais importantes.

Os principais são primeiro é o preço, né? Nós disemos, se tiver muito baixo, desconfie, porque no país com a carga tributária do Brasil, mágica não existe. Produto com preço baixo ou é falso ou é roubado. Segundo, olhou para a garrafa, tá diferente, tá com o nível mais baixo do líquido na garrafa, o selo tá, o selo de pe tá mal colado, o lacre tá mal colocado, o rótulo está torto, tem alguma característica ali que você não tá habituado a ver naquele produto que você sempre consome? Não compra esse produto, denuncie pro SAC da indústria ou nos canais da ABCF. Você fazendo isso, você se resguarda de ter um problema com a sua saúde, sua segurança. Se o consumidor tomar esses pequenos cuidados, ele já consegue garantir grande parte da sua incolumidade física. Agora, se ele não prestar atenção nesses detalhes, ele, infelizmente, nesse momento, tá sujeito a adquirir uma dessas bebidas ilegais.

Acho que só ressaltar a questão do rótulo, né, de bebidas, realmente olhar a questão se está lá com rótulo do Ministério da Agricultura, acho que é uma forma de coibir essa questão de clandestinidade. Acho que é um dos pontos adicionais ao que o Rodolfo comentou. Eu vou reforçar, aproveitar aqui também que o Rodolfo tinha passado alguns canais, a gente vai deixar na descrição do vídeo. Tem também um atendimento pelo WhatsApp que é o DDD 11. O número é 99171 4526. 99171 4526. DDD 11. Ou para quem faz aí, eu vou vou insistindo. Quem quem tem o hábito de dizer o primeiro nove separado nove, né? 9 9171 4526 97 4526 que é o disc denúncia da ABCF. Ele passou aqui também rede social que é o @abcf_sociação, no caso sem cedilha, sem acento.

Eu queria agradecer pelo espaço. A ABCF é a entidade mais antiga de luta contra o mercado ilegal no Brasil, atuante desde 1992. E nós temos aí um histórico de trabalho em conjunto com as autoridades para tentar proteger a nossa população de consumir produtos que vão lesar a sua saúde, a sua segurança. Colaboramos com as autoridades em todos os níveis e vamos continuar fazendo esse trabalho. É importante que órgãos sérios como Estadão deem esse espaço para esclarecimento da população sobre esse momento terrível que nós estamos vivendo. Isso nada mais é do que a face mais sombria do crime organizado, que é quando seifam vidas a troco da ganância de alguns e inação de outros. Isso não pode continuar. Esperamos que a população se conscientize disso e não adquira produtos ilegais, porque quando você adquire qualquer produto ilegal, você tá pondo dinheiro na mão do mesmo bandido que traz violência pros nossos grandes centros urbanos. Você tá dando dinheiro pro crime organizado cada vez mais usar comprar droga, arma e trazer violência para dentro das nossas cidades. Proíba e e tome cuidado com os produtos ilegais. O barato sai muito caro nesse caso e nós temos que estar cada vez mais conscientes da nossa cidadania de não deixar isso chegar nas nossas cidades e trazer perigo pra saúde e pra segurança das nossas famílias. Agradeço muito pelo espaço. Muito obrigado.

Rodolfo Amazini, diretor da Associação Brasileira de Combate à Falsificação. Renata Cerqueira, membro da Comissão Técnica de Alimentos do Conselho Regional de Química de São Paulo e professora da Faculdade de Engenharia de Sorocaba. Muito obrigada a vocês dois.

Agradeço também o no repórter de Metrópolis, o Gonçalo. E claro, agradeço a você que nos acompanha até aqui toda quarta-feira, sempre um episódio novo. Dois pontos. Como você sabe, no Dois Pontos trazemos sempre dois convidados para discutir a fundo algum assunto. Não precisam ser pessoas com pontos de vista antagônicos, podem ser complementares. O importante é discutir a fundo cada um dos assuntos, trazer orientações, como vocês viram aqui, e ajudar você também a adotar os seus posicionamentos, cobrar das autoridades e das demais pessoas que precisam ser cobradas sobre cada um do tema e adotar também as próprias posturas, principalmente quando a gente fala de um tema tão importante, né, tão perigoso como é isso que a gente tá vivendo neste momento. Muito obrigado uma vez mais. Até semana que vem.