Transcription
[música] [música] Chama aqui, chama que eu vou. Chama que eu vou, [música] chama que eu vou. Não quero a glória do mundo, [música] quero uma terra melhor. О. Bom dia. Vamos começar, a gente não atrasar muito. Ontem a gente já teve um certo atraso, então a gente hoje dá início aqui a nossa segunda bateria de palestras aqui na no auditório um, e a primeira é minha com a Ana e o Jin, que já sumiu, já não tá aqui, né? Então, vou passar a bola pra Ana começar, né? Sobre o nosso Guimarães Rosa e a boiada. Ana, todo o seu.
>> Pera aí. Então, para baixo, para adiante. A cima, volta.
>> Ah, é o contrário.
>> É o do meio.
>> Tá. Bom dia para vocês. É muito bom estar aqui, eh, eh, nesse encontro de pessoas que são observadores de aves e que adoram aves, eh, nesse lugar tão lindo, né, que é o Jardim Botânico. E para falar, pra gente conversar sobre o Guimarães Rosa, que também, eh, era um amante de pássaros. E a obra dele tá aí pra gente ver isso, né, que são as descrições de de pássaros. Estão presentes em quase todas as histórias dele. Eh, mas eu vou falar aqui, eh, sobre uma coisa muito específica, que é uma viagem que o Guimarães Rosa fez, eh, antes de escrever os dois grandes livros dele, que são o Corpo de Baile e o Grande Sertão Veredas, que é uma viagem que ele fez pro sertão de Minas. E eu acho que essa viagem, assim, é fundamental para ele. Eh, em 1952, os livros são de 1956. E essa viagem ele fez com um grupo de vaqueiros. Deixa eu ir passando aqui.
Aí tá o Guimarães Rosa, né? É o viajante, né? Na verdade, eu vou apresentar para vocês aqui essa faceta do Guimarães Rosa, que é o Guimarães Rosa viajante, né? Então, ele foi para lá para Minas para viajar com esse grupo de vaqueiros. E muita gente conhece, o chefe dos vaqueiros era o Manuelzão, né? Ele ficou famoso até. Mas tinha um outro vaqueiro que era igualmente importante, talvez mais importante pro Guimarães Rosa, que era o vaqueiro Zito, que depois foi imortalizado no livro Tutameia como vaqueiro poeta, que ensinou para ele os remédios da beleza, né? E e o Manuelzão também foi imortalizado no Corpo de Baile, no na história, uma história de amor, né, Festa de Manuelzão. Eh, então, essa viagem, eles, o Guimarães Rosa vai para Cordisburgo, onde ele visita os pais, né? O o Guimarães Rosa nasceu no sertão de Minas, onde ele viveu até cerca de 10 anos de idade. E o pai dele tinha uma venda em frente ao curral de embarque de gado. Chegavam as boiadas do Alto Sertão e o pai tinha uma venda. E o Guimarães Rosa, desde pequena, ele ouvia as histórias dos vaqueiros que chegavam do Alto Sertão, ele ficava ali. Então, ele cresceu acostumado com aquilo e circulando pelas fazendas da região, né? Imagina na época, no início do século, eh, XX, eh, Cordisburgo era uma região bem sertão, né? E depois, enfim, ele seguiu para Belo Horizonte, acabou virando médico, teve uma carreira diplomática, ganhou o mundo. Mas então, nessa viagem, ele vai, né, ele já ele tinha morado já em Paris como cônsul, voltou ao Brasil e aí assim que ele chega em 52, ele vai para Cordisburgo, depois segue de jipe até a beira do rio São Francisco para uma fazenda de um primo dele chamada Fazenda Sirga, né, que é perto da região de Três Marias. E dessa fazenda, eles percorrem um trajeto de cerca de 240 km, conduzindo cerca de 200 bois até um lugar. Eles passam por 10 fazendas, é uma viagem de 10 dias até um lugar perto de Araçari, que é depois de Cordisburgo, onde eles deixam a boiada.
Então, a gente conhece bem essa viagem, porque o Guimarães Rosa, ele trazia o tempo todo, isso era uma marca registrada dele. E eu vou fazer aqui essa brincadeira, que ele trazia umas cadernetas, ele viajava com uma caderneta pendurada no pescoço. Eu sei que era assim porque eu conheci o Vaqueiro Zito e ele me mostrou como é que era. Eu ainda tive a oportunidade de conversar com ele. Então, ele pendurava a caderneta e o lápis, ele amarrava no botão da camisa e aí tudo que ele via e ouvia, ele anotava no calor da hora. Então, a letra da caderneta, eu copiei a caderneta, a letra às vezes é assim meio, eh, >> trouxa, e tem, tem, e é, é manchada, tem sujeira, tem pedaço de folha, tem isso. Tá lá no no arquivo dele lá em São Paulo, né? Então, na caderneta, ele anotava as coisas assim, instantâneas que ele via ou coisas que depois ele, ele de conversa com o vaqueiro, né? Ou eram impressões, ou era, eh, respostas que os vaqueiros davam para ele de perguntas que ele fazia, né? Então, tinha essa coisa das cadernetas e lá no Arquivo de São Paulo tem essas cadernetas inteiras e, eh, a gente pode ler porque elas foram publicadas, que é o livro Aboiada. Deixa eu passar para vocês que eu tô me esquecendo do PowerPoint.
Aí, ó, Manuelzão, o Rosa, as paisagens são incríveis, né? Eles andando pelos campos gerais, né? Eles saem da beira do rio São Francisco, que na região eles chamam de baixo. E aí sobem pras chapadas. E entre as chapadas, os vales das chapadas, é o lugar onde ficam as veredas, que são esses lugares totalmente lindos e aprazíveis onde nasce a palmeira Buriti, que é uma coisa linda, né? As descrições do Guimarães Rosa dos Buritis com suas folhas em leques, como se fossem só verdes ou estrelas. É um negócio fabuloso assim. A gente lê a obra do Guimarães Rosa, dá vontade de sair correndo pro sertão para ficar diante de uma vereda ouvindo os pássaros cantando. Ó os vaqueiros de novo, eles andando. Aqui é uma região de Campinas, né? Nas cadernetas, a gente vai aprendendo as descrições que os vaqueiros fazem das paisagens por onde eles passam. O céu é aquela coisa maravilhosa do sertão, que dá essa sensação de que o céu é maior do que a terra. E esse é o trajeto da viagem, tá vendo? Sai lá da do ali é o rio São Francisco, sai e vai passando por vários pousos ou fazendas. E é nessa região, o rio São Francisco passa à esquerda ali, né, já no área. E aí dá para vocês verem bem que o, por exemplo, lá, o verdinho, é o Parque Grande Sertão Veredas. O Guimarães Rosa não conhece a região, não conheceu a região do PAC, não era uma região que ele que ele andava, ele andava nessa região aqui, nesse sertão aqui de baixo. Mas o PAC ele preserva as paisagens do Guimarães Rosa, mas não é para dizer que o Guimarães Rosa andava no Parque Grande Sertão Vereda. Eh, isso é uma vereda, é uma vereda de fato que o Guimarães Rosa passou, que tá registrada nas cadernetas, é a Vereda de São José, que fica perto de André Quexé. É muito bonito. Essas fazendas são fazendas aonde ele passou, agora estão em ruínas, né? Essa é a Fazenda Toldda. Essa aqui é a Vereda do Catatal. E essa é a caderneta original. Tá vendo a letrinha dele? A caderneta manchadinha. E esse é o livro que vocês podem ler, eu recomendo muito, é maravilhoso, que tá, eh, que dá para ver o Guimarães Rosa datilografou, né, as cadernetas e depois ele ficava lendo e relendo, porque a gente vê as marcas de leituras e releituras dessas cadernetas que ele pintava com com lápis, ele tinha esses lápis e de duas pontas azuis e vermelho, ele ficava pintando, escrevia nome de personagem da obra, que depois ele usava isso. Então, por exemplo, na construção do personagem Chefe Ezequiel da história, eh, Buriti, do livro Noites do Sertão, o Chefe Ezequiel, ele, ele usa muita coisa das cadernetas, ou o menino Miguel, ou as descrições da natureza no Grande Sertão Veredas. É bom, a primeira coisa que a gente fica sabendo quando lê essas essas cadernetas é que essa viagem foi uma viagem de aprendizagem, né? A gente fica conhecendo o Rosa aprendiz, né? E quem são os mestres dele? Os mestres são os vaqueiros, né? Ele viaja pro sertão, né? No projeto de escrita do Guimarães Rosa, que ele elege o mundo do sertão como universo de suas histórias. Esse mundo é um mundo da oralidade, né? É um é um mundo dos vaqueiros contadores de histórias que cantam versos, cantam quadras, né? E é um mundo não conformado pela escrita como o nosso e como o do Guimarães Rosa, né? É esse mundo da oralidade. E o Guimarães Rosa elege esse mundo para ser o seu próprio universo, o universo das suas histórias. Então, quando ele viaja pro pro sertão para conviver com esses vaqueiros, ele quer entender o modo de pensar dos vaqueiros. Ele quer saber o que o que quais são os objetos do pensamento desses vaqueiros. Ele quer, na verdade, pensar como os vaqueiros. E para isso, ele tem que conviver com os vaqueiros. Então, ele fala que essa viagem não foi uma viagem de observação, foi uma viagem de observância, né, que ele tá ali dentro daquele universo. Então, quando a gente lê as cadernetas, a primeira dificuldade que surge é você distinguir as vozes ali presentes, porque não tem indicação assim, agora sou eu que estou falando, agora são os vaqueiros que estão falando, né? A gente não sabe assim, são notas, né? Então, é uma dificuldade. Como é que eu vou dizer isso aqui foi o vaqueiro que falou e isso aqui foi o Guimarães Rosa? Mas aí entramos nessa parte. Quanto tempo que eu tenho? Tá que a voz do Guimarães Rosa nas cadernetas. Como é que a gente percebe isso? São esses quatro itens, né? Ele falar na primeira pessoa, ele registrar o instante presente, ele colocar dúvidas ou indagações, ou a escrita literária dele. Então, por exemplo, ele falando na primeira pessoa, isso é óbvio que é ele que tá escrevendo. Ele fala: "Voa o casal de Maria tola. Pensei que fossem a". É ele que tá falando. Ou então aí ele descreve, né? Ou então ele fala: "Vejo todo o céu, né? Quando ele usa esses verbos na primeira pessoa, não há nuvens em parte alguma. Um piná se aproxima em voo baixo e vagaroso, gritando: 'Piné, piné'. Pousa num mourão dentro do sol fulgurante, né?" Então, isso é uma das. A outra é a coisa do instante presente. Ele tá descrevendo uma cena que ele tá vendo naquele momento e em geral, ele registra até a hora e os minutos. Então, cantam periquitos e a fogo apagou e os pássaros pretos. Ou então, dois quenquéns gritam e voam aqui perto da moenda. Ou ele faz indagações: "Canta um pássaro, será um inhambu?" Ou então, "Quem quem é o quero-quero? Só andam aos casais." E por fim, a escrita literária, que é a marca registrada do escritor, que a gente vai ver nas cadernetas o uso de neologismos e estrangeirismos ou de imagens, imagens literárias, né? Então, por exemplo, ele tá descrevendo a Maria Branca, afasta ela uma asa para cosabicar a axila. É uma palavra que ele inventa, né, que a gente imediatamente entende, mas é uma marca registrada dele, né? Ou então, "nhé, nhé", grita, uma pega, pássaro pintado, gritica. Ou um galo do campo swips, né, que ele mergulha de árvore alta para árvore baixa. Ele usa o termo em inglês. É óbvio que é o Guimarães Rosa que tá falando. Depois, ele vai até criar uma palavra que vai ser a palavra de voo, que seria uma tradução do SWPS. E tem uma descrição linda que ele fala das caturritas, que elas descem do céu como se fosse uma cachoeira caindo num devo perfeito, né? Então, ele vai fazer isso. E as imagens são lindos, são como se fossem haicais, são instantâneos, são o que ele dizia que eram, eh, as interpelações poéticas das coisas, a captação de instantâneos. Então, ele registra uma frase que poderia ser a legenda de uma foto, né, ou uma microfilmagem, assim, sempre tem muita, é, é muito visual e às vezes é sonora também, né? Então, "fogo apagou cantando alto e os pássaros pretos, lúdicos, jograis", são muito sintéticas assim e obviamente a gente logo identifica que é ele que tá falando, né?
Então, com isso, dá para a gente saber que nas cadernetas, se a gente encontra o registro de 70 aves, nem todas foram efetivamente observadas, né? Então, dessas 70, sabendo disso, quem fala, a metade foi efetivamente observada pelo Guimarães Rosa e a outra metade foi simplesmente, simplesmente não, mas foi, eh, descrita pelos vaqueiros, mencionada, eh, a partir de perguntas que o Guimarães Rosa fazia em conversas, por exemplo, ao pé do fogo ou à noite em outros lugares, tá? Eh, e essas aves que o Guimarães Rosa observa são aves assim que ele efetivamente observa, são aves que a gente conhece mais, né? Então, assim, ou ele fala em termos genéricos, "passam periquitos, passam pombas verdadeiras, passam papagaios loiros no voo". Ele vai nas fazendas e fica descrevendo os pássaros, que quem já foi em alguma fazenda mineira são os pássaros que a gente ouve o tempo todo. É a fogo apagou cantando o tempo inteiro. Eh, eh, é as pombas verdadeiras, são os pássaros pretos cantando ao amanhecer. Eh, tem sempre papagaio, a gente ouve seriema, eh, enfim, é, são esses pássaros assim.
Depois, quando a gente vai entrar agora nos vaqueiros, então, eh, bom, aqui resumindo o Guimarães Rosa, né? E agora vamos tentar entender como é que a gente sabe que é a voz dos vaqueiros nas cadernetas, né? Que isso é bem interessante assim, é uma parte que eu gosto muito. Bom, primeiro, é muito simples, quando tem o nome dos vaqueiros, tá escrito Zito, dois pontos, a gente sabe que é o Zito falando, ou quando ele usa aspas e travessão, né? Então, seria, por exemplo, ele copiando frases ditas pelos vaqueiros, né? Porque "todo passarinho que canta procura um sombrio." Ou então, "quase nenhum pássaro canta agora na seca." Pera aí. >> Pera aí. Eh, deixa eu me atrapalhei aqui. >> Voltei. >> Tá. Eh, "quase nenhum pássaro canta agora na seca." Ele tá viajando em maio, é o período da seca no sertão. Ou então, o o vaqueiro fala: "Já passaram mais de 20 verdadeiras." Essa frase tá igualzinha no Grande Sertão Veredas, na Fazenda Santa Catarina. É uma frase que a Otacília diz pro Riobaldo. Eh, ou então o Zito, né? O Zito explica: "É mesmo um Pinhé, está pousado numa sucupira, não para de gritar", né? Então, quando tem isso, a gente sabe que são os vaqueiros, é óbvio, isso não tem problema.
Ou então, quando aparecem listas nas cadernetas, então, por exemplo, uma lista de gaviões. É óbvio que o Guimarães Rosa não tá observando. Ai, eu não consigo parar. É óbvio que ele não tá observando os gaviões, né? Ele não, ele não tá vendo tudo isso, né? Ele tá, dá para imaginar que ele fez uma pergunta pros vaqueiros: "Quais são os gaviões que tem aqui?" E os vaqueiros ficaram respondendo. Tem gavião de penacho, tem gavião andurinha, tem gavião pardo, gavião pé de serra, gavião pedrezinho. E aí eles descrevem, tá vendo? E tem até aspas também, né? Eh, essas perguntas implícitas, a pergunta não aparece, né? Mas assim, tem outros títulos que dá para a gente perceber que foram perguntas quando ele lista, por exemplo, sinais de chuva, ou os pássaros nos gerais, ou pássaros que cantam de noite, ou pássaros que cantam de manhã cedo. Então, dá para ver que o Guimarães Rosa, o Guimarães Rosa aprendiz, né, ele tá registrando esse, isso. E quem, obviamente, já leu a obra dele, sabe que tudo isso vai ser muito importante nas histórias que ele vai escrever, porque os sons e os pássaros na obra do Guimarães Rosa, eles estão associados às paisagens, né, de uma forma tão forte que é quase que existe, existe uma indistinção entre pássaro e paisagem, né? Se você fala na fogo apagou, você vai imediatamente imaginar a Fazenda Santa Catarina, por exemplo. E aí entram as sinestesias, né? Ele fala: "A fogo apagou tem cheiro de flor de açapeixe." Então, você imediatamente se sente naquele ambiente da fazenda. Estou na Fazenda Santa Catarina, estou ouvindo a flor, a a fogo apagou cantar e estou sentindo o cheiro de açapeixe. E tudo isso é uma coisa só, não é separado. Eh, vou voltar aqui que eu já. Ele seguiu, ele não tá me obedecendo. [risadas] Eh, já tô indo, tá? Ah, só um pouquinho.
Então, eu tava nas listas, né? Bom, além da, então, com as listas, a gente sabe que são os vaqueiros que estão falando. E a outra coisa também é são as categorias nativas de tempo e espaço, que elas exibem um conhecimento ao longo do tempo e em diferentes ambientes que extrapola o momento da observação e a duração da viagem. Eles dão informações, a gente lê nas cadernetas informações sobre outras épocas do ano ou sobre várias horas do dia, que obviamente o Guimarães Rosa não tá observando isso. Isso é uma descrição dos vaqueiros. Então, por exemplo, "ao longo do dia, de manhã cedo, canta é a saracura nas veredas. Os pássaros que cantam de noite, a inhambuzinha. O galo canta meia-noite certa, outros perdem a madrugada." Enfim, eles vão usar termos próprios locais para descrever as horas do dia, ou longo do ano na seca, ou aparece na época da lavração de terras, ou eles usam também a categoria, eh, eh, na chuva, na entrada das águas, quando tá vesprando chuva. Então, a gente vai ver nas cadernetas essas categorias de tempo e espaço, que são cadernetas locais do sertão, que dá para ver que são os vaqueiros que estão falando e os diferentes espaços, brejo, na beira, como os vaqueiros se localizam no espaço e obviamente os pássaros estão associados a esses espaços, né? Eles vão descrever dessa forma. Eh, e por último, assim como eu falei da das da escrita literária do Guimarães Rosa, no caso dos vaqueiros, vão ser as marcas da oralidade, dessa dessa dessa desse mundo da oralidade, que são a escuta aguçada, né? Então, existe uma coisa com a escuta, o uso de analogias ou de comparações e as aves como sujeitos. Então, em relação à escuta, as descrições dos vaqueiros são muito sonoras, cheias de onomatopeias, pera aí, cheias de onomatopeias. "Três an brancos, anus brancos arrupiados o sol nos ramos da bolsa de pastor. Esses cantam muito, tiram o leite. É como leite no balde. Chorró, chorró, chorró. O anul preto tem um piado feio, esquisito." Tá aí. Dá para ver também que já tem analogia, né? E ai, tá, eu vou desistir. É, então aí, eh, então as marcas da oralidade, né, que dá para reconhecer nas cadernetas. Então, tem isso da da das do som, né? Então, são descrições absolutamente sonoras, são descrições com comparações, eles estão sempre comparando um pássaro com o outro quando eles vão descrever. Então, esse é maior ou menor, canta, eh, eh, diferente desse, daqueles, comparam o tipo do canto. Ou então, em relação à cor, eles vão sempre comparando. Esse pensamento analógico é uma característica da narrativa oral e isso tá presente nas cadernetas. E por fim, que eu acho incrível, é que as aves são sujeitos, então elas têm gostos e preferências. Quando eles falam das aves, eles falam: "A coruja, eh, batuqueira, que é a baruqueira, a buraqueira, ela gosta de ficar no na no buraco da toca, não é que ela fique no buraco, ela gosta. O outro gosta de cantar na entrada das águas, o outro gosta de tal coisa." Então, são os comportamentos que o que as aves são sujeitos, tá?
Então, com isso, eu vou passar agora pro João, que ele vai passar para a parte da identificação dessas aves que a gente, eh, essas 70 aves que a gente [aplausos] me avisa. Bom, pessoal, eu vou dar uma corrida. De qualquer maneira, essa parte das aves, já que a gente tá no ambiente literário, é uma espécie de apêndice, né? Então, onde é que tá o passador?
>> Ah, a gente fez, obviamente, quando a Ana e o J me convidaram pra gente fazer essa palestra, né? Foi absolutamente, não tinha como resistir à sedução, inclusive porque além de observador de aves, eu também sou professor de literatura, então, né, não há muito para onde fugir. E aí a ideia foi rapidamente a gente tentar encontrar, né, na medida do possível, quais eram as aves que apareciam ali durante a a o livro da boiada, né? A gente levantou as 70 espécies que estão aí. A gente não vai passar por essa lista, vou dar uma corrida nesse aspecto. E fomos vendo que algumas eram bem facilmente identificadas, não só por nós, mas também por trabalhos outros. A gente levantou uma bibliografia, né, de outras pessoas que fizeram um certo, né, um percorreram a obra do Guimarães e foram identificando essas aves. Então, a gente tem o Luiz Fernando lá em São Paulo, tem alguns artigos acadêmicos. Então, essas 45 das 70, a gente tem uma razoável garantia de que são elas mesmo. A gente tem quatro que a gente não consegue de jeito nenhum, né, que são indecidíveis, a gente fica tentando. Tem algumas hipóteses, algumas que são bem prováveis, mas ainda assim sujeitas a a alguma modificação. Inclusive, ontem eu repassando a palestra, teve pelo menos duas que eu parei e falei: "Ih, podia ser outra coisa". E algumas que não tem direito, que são genéricas. Então, por exemplo, andurinha, né? Você não vai saber qual andurinha é. A gente até puxou a lista da região toda, fomos um birdt, fomos um ikiaves, mas aí aparece um número relativamente grande que não dá para ter certeza exatamente quais seriam, n, qual seria a andurinha, qual seria o periquito, né? Mas enfim, boa parte do do prazer da coisa não foi nem identificar, foi o próprio processo, usando aí, né, uma outra referência literária que assim, na minha cabeça, quando a gente procurou essas aves um pouco prana, né, tem uma frase que é atribuída ao Prusa, mas na verdade a gente não encontra no livro dele, que é "truva vanchi, encontra antes de procurar", né? Que foi um pouco essa intuição que a gente usou na hora de tentar achar as aves. E ao mesmo tempo, também consultei algumas pessoas, consultei o Pacheco, o Straub lá no Sul, que algumas coisas realmente a gente jogou a toalha na hora de tentar identificar. E foi divertido porque as opiniões variaram ao infinito. A gente vai ver alguns exemplos aí. Vou dar uma acelerada porque essas são as listas, né, mais detalhadas para ver alguns exemplos, né?
A primeira é a Maria Branca. Ah, tem aí os textos. Depois, com calma, a gente bota isso, né, para ser mais acessível. A gente tinha duas opções, né, possíveis aí. Uma delas é a noivinha branca, que foi minha primeira, eh, suspeita. >> Minha primeira suspeita, mas também apareceu uma possibilidade de ser a primavera. Olhando o texto, a gente percebe que não dá para decidir entre uma e outra. Eu continuo apostando na noivinha branca. Aliás, parte da diversão também foi buscar no meu acervo as fotos para poder fazer ilustração, não mais pensando na beleza da foto, outra coisa, mas como elas dialogariam com os textos do Rosa. >> Não vou, vou pular o som, tá?
Essa foi outra que foi interessante. Lá em São Paulo, a gente apresentou uma primeira versão dessa palestra, né, do Mas não foi exatamente João fazendeiro, é o próximo, né? Essa tem três candidatos, né? Né? Tem o tico-tico do campo, o tipio e o caminheiro, né? Quando você olha a descrição, um monte de coisa bate, outra não bate. Às vezes, a onomatopeia, você não consegue exatamente saber qual seria a ave que cantaria daquela maneira, mas não importa muito. A grande diversão foi exatamente ficar fazendo esse diálogo de e vi entre as espécies e os textos do Rosa. Tá? O Durvaia, que acho que foi, né? Que é o que faz um ninho nas laranjeiras ou não é? Não lembro exatamente, é o anterior que tem. Pois é, que o Luciano lá em São Paulo identificou um quarto candidato que é muito possível que é o Petrm, tá? Seria o, na verdade, não seria nenhum dos três anteriores, seria um quarto candidato. Mesma coisa o Durovai. Durovai, a gente não conseguiu chegar de jeito nenhum ao que seria a possibilidade mais provável. Então, ficaram três candidatos, né? O quem? Quem da lagoa, tem quase certeza que é essa marreca, aquela descrição. Mas assim, quando a gente, quando eu mandei o texto, por exemplo, Pacheco, Pacheco diz uma coisa completamente diferente, o Straub disse outra completamente diferente. Então, né, diante de duas autoridades, eu levantei a bandeira branca, tá? E alguma marreca é o pato selvagem, tá vendo? Por exemplo, não lembro qual dos dois falou na curicaca, né? Enfim, acho que o Strack falou do pato de Cristo. Então, a gente ficou nessa dúvida, mas enfim, como o quenquem aparece essa marreca cabo aparece em campo geral, eu que resolvi bater um bater o martelo e botar foto da marrequinha. Os prováveis, tá?
Galo do campo. Muito provavelmente esse é um nome que é dado na região ao nosso sabiá-campo, tá? Obviamente, quando a gente lê "galo do campo", pensa logo num cardeal, tá? Mas aí você lê a descrição e vai na região e vê que esse nome é dado lá ao sabiá-campo, tá? Esse é um nome que ele tem na região. Então, a gente tem que fugir também dessas armadilhas. Ah, outro que é muito provável que é o birro, que a gente conhece por esse nome, mas teriam outros candidatos possíveis, mas a onomatopeia quase que garante que é realmente o pica-pau. Yambu, eu acredito, como fala iambuzinha, que seja o inhambu chororó, mas é também uma palavra perigosa, né? Porque em Ambu, a gente sabe que tem alguns, mas pela quantidade de registros que tem do Chororó na região e os outros têm muito menos, então a gente meio que acha que deve ser o inhambu chororó, que é o que é citado no no texto. Mutum, muito provavelmente é o mutum de penacho, tá? Mas ele só fala em mutum. Pássaro preto é um problema que as descrições são infinitas, né? E algumas batem com, né, com a graúna. Não parecem realmente a questão do canto, da coisa matinal, mas às vezes a descrição bate com o nosso, ups, pera aí, deixa eu. Bate com o nosso chopim, né, com o virabosta. Então, às vezes é um, às vezes é outro. É tudo pássaro preto, é tudo pássaro preto. Outro provável, né? Esse eu diria que já a gente poderia até mudar de lista, né? Aquela descrição, ele fala, né, das pernas compridinhas no rabo. Então, é muito provável que seja realmente a a viuvinha. Enfim, é uma grande diversão essa coisa, a gente ficar meio que mapeando esse processo do Guimarães Rosa observante, tá?
Papagaio louro para mim também muito provavelmente é o papagaio galego. Pela região, né, pela descrição, né? O papagaio galego cabe bem. Na no texto aí do Rosa. A pica-pau, ele fala que é um picpau de cabeça vermelha e o picpau de banda branca é o mais comum na região. E assim, a gente chama de banda branca, mas eu tenho impressão que 90%, né, que vê pela primeira vez, nunca vai dar esse nome, né? O nome que vai ser dado vai ser automaticamente "eu vi um bicho de cabeça vermelha", "eu vi um pica-pau de cabeça vermelho". Então, né, o nosso nome, digamos assim, vernáculo, ele atrapalha no processo de identificação. E algumas identificadas, tá? O água-de-lenço é o Narcejão. A gente não tem muita dúvida com relação a isso, né? A mãe da lua é a mãe da lua, né? Essas são fáceis. Gavião de pé de serra, águia serrana. Também muito difícil que não seja pela descrição. A descrição é bem detalhada. A gente olha, não tem muito outro candidato possível, né? O Jacurutu, com certeza, né? Faz o ru, né? Que ele fala lá da coruja grande de orelha, né? Pouco provável que seja outro tipo de coruja. Curiango. É o curiango. Monjolinho, que é um nome lindo, né? Fantástico. É a Narcejo, né? Acho muito Monjolinho, muito mais bacana do que Narcejo, né? Monjolinho é ótimo. Coruja buraqueira, sem menor dúvida a respeito disso, tá? A cigarra, por exemplo, foi uma das que ontem eu falei: "Cara, lendo o texto, já não tenho mais tanta certeza assim, que ele tava falando". Até com o Luciano, fala de um canto bonito e pela descrição, falei: "Será que não era um coleirinho?" Teria que olhar novamente a lista e aí eu acho que eu trocaria ela para uma outra categoria que não seria mais das identificáveis, seria das, né, prováveis, talvez. Mas assim, a cigarra do campo dá mais ou menos, bate mais ou menos com a descrição do Rosa. Ah, tesoureiro, muito provavelmente a tesourinha, tá? O nome tesoureiro aí também engana um pouco, mas é por causa da cauda. Então, é, né? A gente tem aí quase que a certeza absoluta que é a tesourinha. Eu acho que fecha, né, tesourinha? É último. Gente, obrigado pelo. Desculpe a correria, mas não, como organizador, eu tenho que acelerar. Valeu. Não sei se a gente tem tempo para uma pergunta. [aplausos] Uma pergunta pra Ana. Uma pergunta. Tem uma pergunta.
>> Diga, Guto.
>> Ah, eu uma vez sobre um encontro do Rosa com o Manuel de Barros, quando ele vai visitar de Barros, estava descrito num prefácio da primeira edição obscura do de Barros lá no Montas do Sul. E lá eles citam e eu depois nunca mais ouvi outras referências a essa essa viagem. Você sabe, você cita, você consegue posicionar ela se é num etapa de observância, teria ido.
>> Então, eh, a gente tem o registro, isso tem lá no IEB, de uma viagem que o Guimarães Rosa fez pro Pantanal, mas não foi, não foi na época do do Manuel, né, que ele fez, eh, em 47, que ele até conversou com vários caçadores de onça e tal. É, é uma outra história em que dessa viagem teria saído o meu tio Aretê. Essa conversa com o Manuel de Barros, eu sempre acho que é uma conversa que o Manuel de Barros, eh, assim, inventou, criou, entendeu? Uma conversa hipotética com o o Guimarães Rosa, dada a grande afinidade que eles têm, né, em termos de de como se relacionar com esse mundo da natureza, né, e esse olhar assim, eh, que daria para chamar de o olhar da criança, né, que vê tudo como como novidade, tudo como novo, né, e presta atenção em todas as quisquilhas da natureza, né, todo tutameias, ossos de borboleta ou sei lá o que ele diria. O que você haveria de ver galopando uma garupa de, né, assim, eh, essas coisinhas que o Manuel de Barros é totalmente isso, né? E e é um lado é muito forte da estética do Guimarães Rosa, mas registro dessa viagem não se tem. Mas ele foi pesquisar no Pantanal.
>> Foi?
>> Foi, mas em outra época. Foi, é, é uma é uma viagem bem importante na vida dele, assim, essa viagem do Pantanal que deu o ele publicou chama com o vaqueiro Mariano, que ele vai na fazenda firme, na em Ecolândia, no Pantanal e fica acompanhando esse vaqueiro de novo. É um mergulho dele no mundo dos vaqueiros, nesse mundo da oralidade. E tem esse relato que é belíssimo. Ele descrevendo o Pantanal inundado. É uma coisa assim.
>> Onde que tem essa discussão? Qual?
>> Ele tá no livro Ave Palavra.
>> Qual?
>> Ave Palavra. Palavra. Mas assim, Guimarães Rosa, eu vi, ele tinha esse projeto, tá na biblioteca do Mindley lá em São Paulo. Via a capa desenhada à mão, ele tinha um projeto de publicar um livro chamado "Com os Vaqueiros", que reunia esse texto com o vaqueiro Mariano e reunia um outro texto chamado "Pé Duro, Chapéu de Couro", que foi de uma outra viagem que ele fez rumo ao mundo dos Vaqueiros, só que dessa vez no sertão da Bahia também em 1952, que ele ele escreve, mas aí é uma conversa com Euclides da Cunha sobre o mundo dos vaqueiros. Ele praticamente relê toda aquela parte que o que o Euclides descreve o que que é o vaqueiro. Ele lá faz como se ele fosse um pesquisador em campo, entendeu? Então, ele queria publicar esses dois juntos, mas não sei porque que nunca publicaram. Enfim. [aplausos]
>> Queria saber quem foi o fotógrafo da expedição da boiada. Acho que foi uma matéria de revista, né? Foi o quê? Manchete.
>> É, não, essa dos dois últimos, eh, dias da viagem, dois repórteres da revista O Cruzeiro foram lá fazer essa matéria que saiu e era, agora me deu um branco, tem o nome dele.
>> Tem o nome ali, é um fotógrafo conhecido da da Eugênio Silva. Eh, ele tem, ele tem várias, depois ele tem uma série de fotos que ele tirou de uma festa na Serra das Araras, que é um um dia que todo mundo vai casar no dia 12 de junho, que é um ensaio fotográfico maravilhoso também. Ele publicou na revista Cruzeiro da mesma época, assim, é muito legal.
>> Obrigado, gente. Vou chamar a Rafaela, então, para nossa próxima palestra. [aplausos] >> que per [risadas] passar.
>> Eh, bom dia. Eu sou Rafaela BIS. Eu sou professora do Colégio Pedro II. Eh, obrigada. [risadas] Sou doutoranda na UNIRIO no grupo de estudo em educação ambiental desde o sul e parceira do APROA da ERGE do Ricardo Santori e também muito importante membra da rede Ornito Mulheres. Vou apresentar para vocês as aves da Mata Atlântica do Rio antes do Rio, passarinhando no Rio de Janeiro, Tupinambá. E é uma honra poder falar dos Tupinambás aqui no território carioca. Eh, para quem não sabe, existia uma aldeia chamada Carioca, que fica onde hoje é o é o bairro do Catete. Então, eu começo perguntando se alguém já leu o Rio antes do Rio. Mais alguém? É, eu comecei a ler esse livro e fiquei encantada com a contravisualidade, né, que o Rafael Freitas cria, eh, reconstituindo esse imaginário do território do Rio de Janeiro, da Guanabara, Tupinambá, e das suas aldeias ancestrais, né? Ele usou fontes históricas de 1547 até 1583, principalmente duas listas das tábuas, né, dos aldeamentos, eh, aqui do Rio de Janeiro, antes da fundação da cidade, ou seja, antes da colonização europeia, que essas listas foram fornecidas pelos franceses, que eram aliados dos Tupinambás, e, principalmente, as listas do Jean Delerry, que era um calvinista que passou alguns meses entre os Tupinambás. Eh, ele usou também os documentos das cartas, né, das primeiras cartas de seis Marias da ocupação colonial, ou seja, aquela documentação portuguesa que, eh, apagava os nomes da maior parte dos nomes das aldeias e do do das palavras, né, dos Tupinambás e criava a versão europeia. E também usou informações da peça de catequese deixada pelos jesuítas. Então, a gente tá falando desse território aqui que é em torno do que hoje a gente chama de Baía de Guanabara, mas também ele vai reconstituir, eh, histórias das aldeias da de Niterói, da Baixada Fluminense e da Zona Oeste do Rio de Janeiro. Então, né, nesse livro, a gente tem essa narrativa sobre esse período que a Baía de Guanabara era habitada pelos Tupinambás, mas também pelos Maracajás, pelos Tupiniquins e outros grupos indígenas que estavam sempre disputando o território. Eles estavam sempre batalhando entre eles pelos territórios e pelos melhores pontos, eh, seja pela água, por um rio onde tinha abundância de peixe. E também vai narrar, né, esse contato com os primeiros europeus, a relação entre os Tupinambás e os franceses, a disputa entre os portugueses e os franceses, a guerra contra os povos originários e as batalhas que sancionaram a fundação do Rio de Janeiro em 1565. Então, eh, eu comecei a ler esse livro e fui passarinhando e isso me gerou um pertencimento muito grande ao meu território, que é hoje em dia, né, um território completamente diferente do que é criado nesse imaginário aqui recriado, né? Então, fica muito evidente a relação entre os povos originários e a flora, fauna. Eh, eu vou fazer um recorte, obviamente, sobre as aves, mas vale a pena a leitura, porque tem mamíferos, peixes, plantas, enfim, né? Eh, e todos esses seres influenciavam nos nomes desses aldeamentos, né? Porque, né, são as toponímias, as formas como eram chamadas, porque tinha abundância de uma abelha, porque tinha uma ave que era comum e assim vai. Então, eu fiz o levantamento das aves que foram citadas nos dois primeiros capítulos do livro, porque são os capítulos que vão falando sobre a cultura Tupinambá, as relações. Eh, nos outros capítulos seguintes vão falar mais sobre as batalhas da colonização, enfim. Então, por isso eu foquei nesses dois primeiros que que destacam essa relação cultural dos Tupinambás, dessa vida com a flora e com a fauna. Então, aqui tá a lista das 14 espécies, né? Arara-canindé, papagaio-verdadeiro, a ema, o macu, jacutinga, jacupemba e jacuguaçu, o saci, pavó, a harpia, o guará, tucano-sul e a inhuma. Daí eu fui consultar a ornitologia brasileira para saber o que o SIC falava sobre o século X. E o C vai dizer que informações valiosas sobre as aves do rio a gente deve ao missionário calvinista Jandeleri, porque ele foi dando com primor os nomes indígenas das aves, né, que ele foi encontrando nesse período em que ele ficou entre os Tupinambás. Eh, e conseguia até distinguir, por exemplo, espécies diferentes de jacu. Eh, então é certo também, se afirma, né, que os indígenas faziam permutas com outros indígenas que habitavam territórios mais distantes, eh, e faziam permutas de aves, por exemplo, o Jacuaçu e o Mutum, e a EMA também, que era muito importante nos rituais. Eles usavam penas de emas nos rituais, isso é descrito. Eh, mas provavelmente são espécies que eram feitas essas permutas. Elas não eram aqui do território da Baía de Guanabara, né?
Aí eu escolhi quatro espécies muito emblemáticas na minha, durante a leitura. Eh, essas espécies me chamaram muita atenção. Poderia trazer outras, mas o tempo é curto, então vou focar nessas quatro. A primeira é o Guará. Até hoje, a gente tem um bairro aqui, né, que não esconde essa ancestralidade Tupinambá, que é Guaratiba, que significa o ajuntamento ou sítio dos Guarais. Eh, Guaratiba atualmente fica entre Sepetiba e bairros da Zona Oeste como Campo Grande. E o Guará, né, habita regiões alagadiças, como os mangues, que ainda hoje resistem aqui no nosso território. Eh, o vermelho das penas provém da alimentação, que é a base de caranguejo. Então, esse pigmento vai tingindo as plumas. Ele pode medir 60 cm, tem o bico fino, longo e levemente curvado para baixo. Então, aqui eu marquei no mapa aonde tá o nosso bairro, né, Guaratiba. E a gente pode ver ali no print do mapa do Ikves, que infelizmente não temos ocorrência de guará atualmente no estado do Rio de Janeiro, né? Mas das penas do guará, os Tupinambás faziam adornos e principalmente os famosos mantos Tupinambás. Eh, esse manto era um componente sagrado, fazia parte dos rituais dos Tupinambás e eles o chamavam de guaráu. O uso das penas do guará na confecção do manto revela nessa importância cultural que a ave tinha pros Tupinambás. E faz sentido ali ter havido uma aldeia com esse nome. Eh, deixa eu não botei aqui, né? Eh, aqui em cima a gente tem foto da Glissé Tupinambá. Ela faz o pós-fácil desse livro, contando sobre a relação com manto. Hoje em dia, ela conseguiu reconstituir mantos através do sonho. Os sonhos ensinaram para ela como fazer. Tvalha leitura também. Aqui nessa imagem, ela tá visitando um manto na Dinamarca. Eh, muitos mantos foram sequestrados daqui na época da colonização e estão hoje em dia em museus da Europa, né? Ali a gente tem a imagem da Marília, Ornita Mulher também. Eh, e é importante dizer que os Tupinambás não matavam os guarais para fazerem os mantos, né? Precisava de muita pena, mas eles esperavam a troca de mudas da espécie. Pera aí que eu voltei.
Bom, essa é a segunda espécie muito emblemática. Quando eu li sobre a abundância da harpia aqui, eu fiquei em choque praticamente. Então, Guairaçu Naé seria uma das tábuas mais importantes.
aqui do Rio de Janeiro. Guairá, nome da aves em geral, depois Guaçu, sufixo de grande. Una, né? Uma referência à cor preta e a um pronome pessoal que designava ele. Então, por diversas fontes, sabe-se que os Tupinambás admiravam e chamavam de Guaraguaçu uma ave de rapina poderosa, cujas garras eles usavam para as cerimônias de bons presságios dos meninos recém-nascidos.
Como eu disse, eles nasciam e eram criados para serem guerreiros. Então, quando nascia um menino Tupinambá, ele recebia garras de harpia como um bom sinal de que ele seria um bom guerreiro. Eh, é difícil, né, a gente imaginar a abundância de harpia no centro da cidade do Rio de Janeiro, né? Imagina você tá ali saindo no metrô da Carioca e tá vendo uma harpia passando.
Eh, mas a gente precisa lembrar, né? Nem preciso falar que não ocorre aqui. Aqui é a marcação, né? O Rafael ele vai trazendo mapas desses aldeamentos. Então você consegue comparar mais ou menos aonde seria. Mas a gente precisa lembrar, né, que, ó, uma imagem do Largo da Carioca, que acho que muita gente aqui já viu essas imagens, essa reconstituição, né, dessas imagens de 1608. E a gente tinha ali na Carioca floresta, lago e a ligação, inclusive, com o Rio Carioca, né? E isso tudo foi aterrado junto com a história dos nossos Tupinambás.
A terceira espécie é a jacutinga, né? E a Cutinga, a tábua desaparecida, eh, nomeada por causa de uma das aves mais abundantes. Quando eu li isso, também tive um, eh, da região, ave que chamava de Yaku, conhecida no português como Jacu, que é o nome genérico das aves galiformes da família dos Cracídios. E segundo Jandeleri, né, como disse o SIC, ele já fazia essas distinções de espécies. Eh, existiam, segundo ele, três espécies de acu silvestres abundantes das florestas do Mendanha, da Pedra Branca e da Tijuca. E elas migravam de altitude para as regiões mais baixas do vale, acompanhando a frutificação das árvores, como os palmiteiros, e faziam a dispersão das sementes.
Então, aqui no mapa, né, ele coloca aqui a Yakutinga, a jacutinga perto da Serra do Mendanha. E Yakutingas eram animais tratados com reverência. Eh, o termo tinga, um adjetivo para designar cor branca. Então, eram os iacus brancos, porque eles são caracterizados justamente, né, nessa, essa espécie tem as penas brancas da cabeça, da crista e na ponta das asas. A gente tem pouca ocorrência no estado do Rio de Janeiro.
A quarta espécie, última, eh, eu escolhi porque ela representa a cosmovisão Tupinambá. E felizmente, ela ainda acontece, inclusive aqui na nossa cidade, mas ela traz essa história de uma cosmovisão muito importante, né? Eh, tem o relato de que o Jerry presenciou, né, profundas relações, eh, que os Tupinambás tinham com os seres da natureza, mas eles tinham o amor, eles nutriam o amor por uma ave que muito se penalizariam se alguém lhes fizesse mal, e de quem a matasse, que é o Saci. Porque relata que quando o Saci cantava, os Tupinambás ficavam em silêncio, escutando o que o Saci estava dizendo, eh, porque ele era o mensageiro dos antepassados que haviam morrido fisicamente, mas que eles ainda acreditavam nesse além, né? Então, se comunicavam através da voz de Saci.
Alguém pode imitar o Saci, por favor? Ninguém. >> É, fala que o canto é triste, aí, sei, né? Cada um julga aí de uma forma. Eh, mas era essa voz dos espíritos, dos amigos e parentes que estavam enviando sinal de boa fortuna, de que eles poderiam ir para guerra. Então, como eu disse, né, guerreiros. E esses antepassados, através da voz do Saci, estavam animados. É muito comum a gente ouvir o Saci e é pouco, é mais difícil vê-lo, né? Então eles paravam tudo, né? Narra lá que o Jandelerry queria falar e eles não, não era importante a escuta, né?
Então, para concluir, né, eh, eu afirmo que conhecer essa abundância desses seres do território aqui do Rio de Janeiro é fundamental pra gente refletir sobre a flora e a fauna e, principalmente, né, para refletir sobre as populações originárias e tradicionais que ainda hoje estão resistindo desde a colonização e que mantêm a preservação como modo de vida, né? Então, resgatar essas memórias dos povos originários e tradicionais também, né, a partir das aves que habitam, que habitavam o território, é resgatar as identidades, esses modos que são sistematicamente silenciados e apagados. Então, é muito importante essa arqueologia dessa história, dessa narrativa, eh, pra gente compreender, né, que esses efeitos coloniais que hoje em dia tão aí, revestidos pela modernidade capitalista, eh, se a gente não compreender e não valorizar essa história, a gente pode não perceber e não se conectar com os seres e os lugares e os povos que ainda hoje são tão vivos quanto já foram esses do século X. Então, é isso. Obrigado, gente. [aplausos] Tempo, tempo para uma pergunta. Alguém quer?
Então, agora Juliana. Deixa eu ver. Preciso de um mestre de cerimônias aqui. Eu não sirvo para isso não. Juliana Morais. >> Chega. Você deixa que você me mandou a sua, a sua apresentação. Faz, faz as cortes para que mexer no, >> com você. Juliana Moraes, a menina dos passarinhos. >> Obrigada. >> Mindê. Obrigada. Aí eu >> eu vim preparada que se o som não tocar. Tá aqui. Tá aqui. Bom dia, gente. É, eu sou Juliana. Eu vim falar com vocês sobre porque o que os passarinhos estão cantando, o que é que os passarinhos estão fazendo e, afinal, passarinho, que som é esse? Então, vamos lá. Quem sou eu, primeiramente? Eu sou bióloga, sou formada pela UFB. Eu vi um pouquinho de longe, eu não sou daqui do Rio, eu sou de Salvador. Meu sotaque me entrega. Eu sou mestre em ecologia e atualmente eu tô fazendo doutorado em ecologia também. Tô trabalhando com aves migratórias e mudanças climáticas. Eu sou amante das aves desde que eu conheci Harry Potter e daí eu comecei a amar coruja e comecei a amar as aves. E eu sou ajuda dos passarinhos nas redes. Então eu falo sobre passarinho nas redes sociais também.
E o canto das aves, quando a gente fala sobre as aves, o canto já é um comportamento e uma característica muito marcante, emblemática e que chama atenção e que encanta por onde elas estão. Afinal, muita gente consegue ouvi-las, mas não consegue ver. Você pode até não ver o passarinho, mas tu tá ouvindo. Você tá não, você pode não prestar atenção que tem um bentiví ali, mas tem um bentiví cantando e você sabe que ele tá ali. Então o canto é uma característica muito marcante das aves e isso gera um encantamento nas pessoas, mesmo aquelas que não têm tanta aproximação quanto a gente que já é da área. Mas tem uma diferença entre canto e chamado. Vocês sabem qual é a diferença? Beleza. Alguém aqui já viu um canto? Vê? Ouvir todo mundo já ouviu, mas vê? Vamos ver um canto. A gente tem canto, chamado, são coisas diferentes. O canto, ele é mais complexo, mais longo. Já o chamado, ele é mais simples e mais curto. Aqui tem vocalização da saída douradinha. Como é que eu posso dar play nisso? >> Dá play, dá play no canto que eu toque lá. >> Ai, se eu quiser, eu toco aqui. >> Dá play no canto, por favor. Sem som. >> Tá sem. >> Tá sem som. Mas calma. >> Não, mas não tem problema. Eu fui preparado. Não tem problema. Aqui tem o canto. É um canto mais longo. E aqui é como a gente enxerga. Quando a gente vai estudar os cantos, a gente precisa vê-los pra gente conseguir entender, como se fosse uma assinatura. Então a gente tem cada, ai, aqui tem um apontador. Aqui a gente tem cada nota e cada nota é única. Ela pode se repetir ou ser diferente. Então é assim, a gente vê um canto. Isso é um espectrograma. Aqui é tempo por frequência. Já o chamado, ele é mais curto. Aqui a gente vê que tem muitas notas. Já o chamado, a gente vê uma notinha só. Então o chamado é bem mais curto. Aqui, calma. Uma nota, coisa simples. Em comparação ao canto, a gente percebe essa diferença de complexidade.
E como é que as aves cantam? As aves têm uma estrutura chamada siringe, que ela é espécie-específica. Então, cada espécie tem a sua siringe, que fica ali, é um músculo em formato de Y ao contrário, que fica na perto da traqueia. E ele faz esse movimento aqui. Então, ele controla a passagem de ar. E essa, esse controle da passagem de ar que faz com que o som saia, que elas vocalizem. E cada espécie, como eu falei, tem a sua siringe. Então, ela é espécie-específica e cada espécie tem uma quantidade de sons que ela consegue imitar. Então, ela é limitada pela sua siringe. Então, tem ave que consegue ter um repertório, tem ave que consegue ter outro. A gente consegue ter aves que imitam, mas pode não ser tão igual. Então, tem, tem muitas variações e isso é muito interessante da gente ver como é rico o mundo das aves.
E todas as aves vocalizam? Todas as aves vocalizam? Vocês acham que sim ou que não? >> Sim. >> Sim ou não? >> Eita! Aqui não teve consenso não. Levanta a mão. Levanta a mão. Sim. Não. >> Não. >> Ninguém quer levantar a mão não, gente. Não vocaliza não. Urubu, as emas, os casuais também não vocalizam. Eles não têm siringe, eles bufam. É um negócio muito engraçado. Ele só sai o ar. Sai. Ai, que horror. Não posso mais imitar.
E a comunicação acústica tem suas vantagens e limitações, assim como tudo na vida, tem suas vantagens e suas limitações. Quando a gente fala sobre comunicação acústica, uma das suas vantagens é que ela é transmitida a longas distâncias. Mesmo a gente tendo uma limitação de quão longe ela pode alcançar, a gente consegue se comunicar a longas distâncias se a gente gritar. Se eu falar sem microfone, vocês conseguem me ouvir? Tudo bem? Então, a gente consegue se comunicar. A transmissão também é relativamente veloz, então quando eu falo, vocês escutam e a gente consegue se comunicar. A comunicação é estabelecida assim que sai. Então, é bem rápida. E a mensagem é transmitida também mesmo com ausência de luz. Então, se tiver tudo apagado, a pessoa não tiver me vendo e a gente conversar, vocês vão me ouvir e a comunicação se estabelece. A comunicação acústica também é usada, por exemplo, com os jacarés, os crocodilianos, que eles são marrões, vivem embaixo da água, tá cheio de lama, os bichos não conseguem se ver, eles têm uma comunicação acústica específica porque é muito mais fácil de se comunicar sem se ver. E isso é muito legal.
E os efeitos do ruído, quando a gente fala sobre a vocalização, principalmente nas cidades, é um efeito muito forte, pesado, que a gente precisa entender, porque as aves estão no ambiente urbano, elas precisam se adaptar a esse ambiente que está em constante mudança. É uma, são modificações antrópicas que estão crescendo cada vez mais e isso está afetando as aves, o dia a dia delas. E isso acontece através do mascaramento acústico, que o que é? As aves elas cantam no nível de frequência muito similar ao ruído que a gente tem nas cidades. Deixa, deixa aí. Como, como o som dos carros, o som do trânsito das pessoas, fica numa faixa de frequência muito similar. Então, o que acontece? Esse ruído acaba mascarando o canto das aves e as aves não conseguem se ouvir e elas precisam criar estratégias para que elas consigam se comunicar. Apesar do ruído, então o ruído não pode interferir tanto, então eles conseguem fazer modulações que a gente chama de plasticidade vocal. Então, elas selecionam aquelas notas que estão acima do nível do ruído para conseguir se comunicar. E a gente tem também alterações comportamentais e respostas fisiológicas. Em São Paulo, que a gente vê cada vez mais cedo os sabiás cantando. Tem sabiá cantando quase 4 da manhã. Então, é uma, esse ruído e conseguir se adequar a esse mundo tão constante em mudanças. Então, a gente vê que as aves estão respondendo, estão se adaptando, sim.
E quais aves aprendem a cantar? Afinal, eu tô aqui para falar sobre o aprendizado do canto. Quer que? Quais aves aprendem a cantar? Todo mundo aprende? Vocês acham? Agora eu vou perguntar e vocês levantam a mão. Toda ave aprende a cantar? Sim. Não. >> Não. >> Tem umas que não vocalizam, nem vocalizam isso aí. As que vocalizam, nem todas aprendem a cantar. Quem aprende a cantar? Os psitaciformes, os psitacídeos e cacatuídeos, eles aprendem a cantar. Então, eles aprendem a cantar na sua infância e até adulto, os papagaios, araras, periquitos. Os troquilídeos, os beija-flores não só cantam como aprendem a cantar. E os passeriformes. E os passeriformes, eles têm uma característica muito interessante, que é que o aprendizado do canto, ele divide esses passeriformes em dois grandes grupos, que são os óssines e os subóssines. Os óssines são aqueles que aprendem a cantar. Já os subóssines, eles não aprendem a cantar, eles têm um canto como algo inato. Tem umas variações pequenas, mas é o canto inato. O que significa? Que um subóssine, ele pode ser, quando filhote, você pode isolá-lo do convívio com os pais e ele vai aprender a cantar o canto típico da sua espécie. Então, quando a gente vê aqui o bentiví e o sabiá-da-praia, a gente, sabiá-da-praia, a gente vê dois cantos muito diferentes. O bentiví, a gente tem três notas. Bent-vi. Já o sabiá, não sei mais quantas notas tem, não tem muita nota. Vamos, vamos ouvir. Tô preparada? Deixa eu desbloquear. Só para voltar aqui, viu, gente? Três notas. Três notas. Todo mundo consegue perceber as três notas, certo? E o sabiá, bem mais complexo. E aí, vocês acham que quem é o e quem é o subóssine aqui? O bentiví é o quê? Ah, >> errei o botão. Errei o botão. [risadas] O bentiví é o quê? >> É subóssine, gente. Ai, e o [risadas] e o sabiá é um. Então, a gente consegue perceber a diferença também na complexidade desse canto. E subóssine tem um canto mais simples, já os óssines têm um canto muito mais complexo. E isso é muito interessante quando a gente vai aprender, vai estudar sobre a aprendizagem do canto, porque é um, um mundo novo.
Aprendizagem. A gente tem um negócio chamado janela de aprendizagem. Nós humanos também temos. A janela de aprendizagem é um período específico da vida em que aquele indivíduo vai ter uma, uma facilidade maior de aprender coisas. Com a gente é na primeira infância. Então, crianças aprendem muito mais fácil novos idiomas do que a gente adulto, depois já formado. E significa que depois de adulto o bicho para de aprender? Não, só que tem um pouquinho mais de dificuldade, assim como a gente. Então, essa janela de aprendizagem é essencial para que esses passarinhos aprendam o canto típico da sua espécie, porque eles vão estar ali ouvindo, experimentando, testando, exercitando a sua siringe e ouvindo todos os machos que estão ali no seu redor. Eles também precisam do feedback auditivo, que é além de ouvir o seu tutor, se ouvir para fazer os ajustes necessários no seu canto. Então, se ele tá ouvindo um negócio muito diferente do que ele tá cantando, ele começa a ajustar ali para ficar mais parecido. Além disso, isso é uma aprendizagem social. Ele requer o convívio social. Ele requer que o filhote esteja em convivência com outros indivíduos da sua espécie. E isso é muito interessante. Eu fiz um, uma pesquisa sobre isso. Eu trabalhei com aprendizado do canto desse passarinho aqui, que é o Manon, que é o Luschuriata. E aí eu tinha que gravar esses passarinhos com todo, muitas vezes eles tinham uma janela de aprendizagem dos 60 aos 90 dias. Então, eu gravava eles com 60, 70, 80, 90, 100, 110, 120 e 130 dias. Era muita gravação. E aí, o que que acontece? Esse daqui é o canto do Raul com 79 dias. É um canto complexo, longo, cheio de nota, mas que a gente consegue perceber uma característica que muita gente percebe em campo às vezes e fala: "Olha, ele tá arranhando, é um passarinho que já tá arranhando, é um passarinho que tá aprendendo, mas a siringe não tá tão exercitada ainda. É um canto arranhado que é assim." >> É lindo, né? É um canto que ainda tá arranhadinho. Ele tá começando a exercitar a sua siringe. E esse daqui é o canto de Raul com 120 dias. Então, é um canto que tá muito longo. Ele tá super explorando as suas notas e todos os comportamentos que ele aprendeu. E aqui o canto de Raul a 110 dias. É, ele pega tudo que ele aprendeu, ele joga, ele fala: "Eu vou cantar tudo que eu aprendi, tudo, tudo, tudo". E bota. Então, é um canto bem complexo e bem interessante que a gente conseguia perceber que ele estava cantando muito similar ao pai dele. Então, o pai dele tinha um canto muito, muito parecido e era muito legal ver que eles, os irmãos, estavam cantando muito parecido também.
E a aprendizagem, ela tem muita interferência do ambiente. Afinal, tô falando aqui para vocês o tempo todo. Raul ouviu o pai, ouvi o tio, ouvi o primo. Então, eles aprendem não só do macho adulto que tá ali responsável por ele, criando ele, mas ele também é influenciado pelo ambiente que o cerca. E ele também é influenciado pela paisagem acústica. Então, uma ave que cresce em Salvador, vai estar sujeita ali às aves que estão vivendo em Salvador, a comunidade acústica que tá ali, as aves que cantam ali em Salvador. Se a mesma espécie estiver vivendo aqui no Rio, ela tá sujeita a uma paisagem acústica diferente, porque tem aves diferentes cantando aqui. E isso leva as aves a terem uma variação regional que nós humanos também temos. E leva também a gente ter uma coisa muito interessante nas aves, que é o sotaque. As aves também têm sotaque, que são essas variações regionais causadas pela aprendizagem do canto, de acordo com as paisagens acústicas que influenciam o aprendizado. Então, é muito legal. A gente fez esse experimento com os Manons e antes da gente começar com o Raul e o grupo dele, a gente tinha os Manons lá de Salvador e aí a gente gravou, fez o teste piloto, a gente gravou, viu se a fêmea respondia, o macho, tudo certo, perfeito, limpamos, fizemos a gravação, um playback perfeito para o nosso teste. Chegou as fêmeas de São Paulo, botamos o nosso playback de Salvador e as fêmeas não respondiam. Aí a gente, meu Deus, deu tudo errado, deu tudo errado. E aí a gente teve que gravar de novo macho adulto de São Paulo e ela respondeu. Falei: "É, ela só não gostava de baiano". Então, faz parte, nem todo mundo tem bom gosto.
Agora vamos praticar. É rapidinho. Você pode só me dar uma dica. É que eu esqueci a ordem. >> É a coisa mais engraçada, porque o meu computador ele conectou o meu aparelho. >> Oh, meu Deus. Dizer é assim. >> Ó. Você vai me dizer qual é a a ordem do bicho. Você só não precisa me dizer o bicho, não. >> Não precisa passar, não. Você consegue ver o próximo slide? É porque eu esqueci a ordem que eu botei. O teste. >> Não, não, não, não. [risadas] Meu Deus. O olho. Ah, >> ninguém viu. Ninguém viu. Isso que eu falar. Eu vou te falar. >> Não é para mostrar, não é para a galera descobrir quem é. Ninguém lembra. [risadas] >> Ó, gente, >> não. >> É só o som. >> É, o som tá antes. O som tá antes. >> Vamos tá antes. Não abre assim. Nós estamos >> É só o som. >> É só o som. >> Gente. Bota aí. É, não acho melhor você ir lá. Vai lá. >> Você dá play, você dá play nesse, depois você passa, entendeu? >> E [risadas] >> Ai, gente. >> Gente, é muito bom, hein? Pois é, vocês acertaram, galera. Vocês são muito bons. Que incríveis. Vamos lá. O próximo sabe mais beijar falou o quê? Beijar falou o quê? Arrasou, fronte violeta. Arrasou. Muito bom. O próximo. >> Não, não. Alguém dá mais? Não é para aqui do rico. >> É o catuurrita que tão bonitinho. Aí eu peguei ele. É sotaque baiano. >> Não é daqui. É da. É, é, é carioca. É carioca. Só peguei bicho daqui e gravação daqui. O último. O último ele já acertou. Vamos ficar aqui. É o coleirinho. É o coleirinho. E é isso, gente. Muito obrigada. Todo mundo vai saber quem é o Ferro Velho agora. O Ferro Velho. Ninguém mais esqueceu o Ferro Velho. >> E agora? Cerimônia. O mestre de cerimônias. >> Fazer uma pergunta. Dá tempo. >> Dá tempo. >> Rapidinho. É uma curiosidade porque o papagaio fala. O papagaio é uma ave social que ela tá, eles aprendem durante a vida toda. Eles têm aquela janela de aprendizagem de aprender quando são filhotes, mas eles aprendem a vida toda. E eles são muito sociais, então eles, eles são estimulados a gerar sons para interagir com o seu próprio grupo. Então, eles têm grupos bem grandes que eles interagem. Quando eles saem do convívio dos có-específicos, dos outros papagaios e são levados a conviver com a gente, o grupo social deles vira a gente. Então, eles começam a tentar interagir com o grupo social deles e quando eles falam, que eles não falam, eles imitam o que eles estão escutando e aí gera uma resposta da gente que vai interagir, vai rir, vai chegar mais perto, isso gera um estímulo positivo para ele. Então, ele começa a repetir aquele som, não porque ele tá falando, porque ele não entende a sintaxe das coisas, mas ele tá repetindo um som que ele escuta e gera uma resposta do grupo social dele. >> E é só papagaio que faz? >> Papagaio, arara, tem corvídeos que faz também, tem passarinho, tem um passarinho lera que imita tudo, tem o estorninho, é muito bicho. >> Nada. Você achou do uso do playback no seu? >> Ah, uma pergunta bem capciosa. É, depende muito do que você tá querendo fazer, a intensidade que você usa, o período que você usa, o que que você quer. Você vai botar um playback de um predador, por quê? Você vai botar um playback de um predador perto de um ninho? Você vai botar um playback de um macho durante o período reprodutivo? Você vai estressar esse bicho a que ponto? Então, são muitas perguntas a se fazer pro uso de playback. Eu acho que tem alguma norma do do código de ética dos observadores. Tem que você falou. >> É isso, né? Mais além disso. É isso. Eu acho que a gente precisa de muita responsabilidade até para ensinar as pessoas que o playback pode ser usado. >> É só seguir o código de >> Exatamente. Tem que seguir bem a risca porque é muito, >> é porque é muito perigoso se a gente passa do limite. E é isso, gente. Muito obrigada. >> Obrigado, Juliana. [aplausos] Vamos. Obrigado. Eu tentei fazer o sotaque baiano. Não, não consigo. O meu é mineiro com fluminense, com. É muito ruim. É só um passarinho vira-lata. Eh, agora nós vamos dar continuidade à programação. Falamos de Guimarães aqui, ficou todo mundo extasiado com Guimarães. Vamos continuar no mundo aí dos, dos todos poderosos, aqueles que a gente reverencia. E agora a gente tem a mesa do PS Paulo Sérgio Moreira da Fonseca com Daniel Jobim. Eu queria chamar, por favor, PS Daniel. >> Queria apresentar vocês Daniel Job vai ficar com a gente na mesa também. >> Tá bom. Então, tô, tô intimado aqui. [risadas] >> Vamos falar do avô. >> Vamos, vamos suspirar primeiro, um breve, uma breve biografia. O Tom nasceu no dia 25 de janeiro de 1927 e faleceu no dia 8 de dezembro de 1994 em Nova York. Nasceu aqui no na Tijuca e a mãe dele chama brasileiro de Almeida, fundadora do Colégio Brasileiro de Almeida, já não existe mais lá em Ipanema. E o pai chama-se Jorge Oliveira Jobim, nascido no Rio Grande do Sul. O pai dele é diplomata, advogado. O, o pai dele morre muito cedo, 1935, o Tom tinha 7, 8 anos. E a grande figura materna, o pai era meio ausente, era diplomata, viajava, etc. A grande figura paterna, masculina da da vida do Tom, chama-se Azur, brasileiro de Almeida, positivista, trocou o nome por por esse sobrenome brasileiro de Almeida, que era militar, engenheiro e formado em direito também. A grande figura. A voz de Nossa Emília Aurora, conhecida como Dona Mimir, era uma figura fabulosa também. Ou seja, o Tom nasceu num entorno dele de familiar muito espetacular. O avô dele foi a primeira pessoa que ensinou ele a coisa de mato, a ver piar, a conhecer o canto das aves, a excursionar com ele no Rio de Janeiro, no tempo que ainda nos anos 30 tinham muitas florestas aqui ainda meio intactas. Tanto que se menciona o remo de Siqueira a existência de mauco nas matas do do pé do Corcovado.
O, o pai do Tom, o Jorge Jobim, falece em 35, que eu falei. E a mãe casa-se com a figura fabulosa Celso Frota Pessoa, segundo o marido da Dona Nilsa, que na realidade, ele adora o Tom e sua irmã Helena e ajuda muito ele na, na sua escolha pela música. Que ele tentou, pensou, pensou desistir várias vezes por conta de que tinha sido casado com a, a avó do, do Daniel, Dona Teresinha Hermânia, Teresa Hermânia. E a vida era difícil. O Paulinho, o filho dele, que tem idade, nasceu logo em seguida do, do casamento. Ele era, já tocava na noite, músico, copiava, transcrevia músicas para outros, para músicos que não sabiam ler música. Muito bem. E o Tom também teve uma família que tinha muitas propriedades, que tinha primos do marido, tinham fazendas em vários lugares. Então, ele frequentou fazendas em Leopoldina, em Minas Gerais, em Leme, no em São Paulo, no fundo da baía de da Bahia de de Angra, Mambucaba. E ele gostava muito de conversar com os mateiros e com os pescadores, tal. Então, ele tem essa cultura dele toda, beber uma fonte semelhante a de Guimarães Rosa. E aliás, essa palestra de Guimarães Rosa foi perfeita para antecipar que eu vou falar aqui daqui a pouco sobre o Tom também. Foi um, foi um dos grandes heróis dele. O Tom com 8 anos de idade já gostava de passarinho, tanto que fez uma redação chamada "Autobiografia de um Gavião", que a mãe, que a professora achou que, na realidade, não tinha sido ele que tinha feito, porque ele achou que era muito precoce. Eu tô um cara que era bom aluno e dedicado, etc. Então, com 8 anos de idade, fez uma biografia. Como eu falei, o avô dele foi a figura fabulosa. Outra figura fabulosa na vida dele foi um, um amigo mais velho, chamado Tico, que tinha um nome difícil aqui. Eu, Eutídio Soledade, um amigo mais velho do, do Tom que ensinou ele, se ensinou ele a a piar direito. Piava tudo também. Tom piou muito mauco em ambus, que são as caças de de pena, né? E ele, segundo a biografia dele, esse, na verdade, esse aprendizado todo como caçador foi que serviu ele para ser um grande ambientalista na, no final da sua vida. Muito bem.
O, Daniel, fala um pouquinho do teu avô também. Ok. >> Meu avô, ele gostava mais de passarinho do que de música. Só gostava de conversar de passarinho. Música era chato para ele ficar falando no bar de sobre música. Imagina, não dava. Aí quando o PS chegava, ele parava tudo para ficar conversando, porque não tinha muitas pessoas para conversar, só nós aqui gostamos, né? O pessoal não sabe do que a gente fala. Aí ele um dia falou para mim também: "Que bom que você gosta de passarinho, que eu posso conversar com alguém, porque eu não consigo falar com ninguém sobre". E eu ganhei o respeito um dia que eu descobri que eu chamava um gavião do sítio sempre de gavião pombo, gavião pombo que existe, claro, gavião pombo. E eu via no livro que não era muito, algumas coisas diferentes, só uns detalhes assim. Eu que gavião é esse? Que gavião é esse? Tentei subir a montanha e ficava olhando e ele também ficava diferente que é o albatroz, né? Ele às vezes é escuro, às vezes ele é claro. E você, o gavião >> rabo, rabo branco. >> Rabo branco, al bicicalatus. É. Aí ele chamava de gavião pombo, o bicaldatus. Aí eu falei: "Ó, vô, tem aqui um negócio, eu acho que esse gavião é o botel bicaldatus, aqui tem no Texas, tem no Texas, é ótimo, tal". E ele adorava essa família porque Nova York tem o do rabo vermelho, né? E ele adorava aquele gavião. Os dois vão muito bem, né? E o Alb Caldes para. Pessoal tem que tirar foto ou filmar. Não, peneirar que ele é balançar, mas ele para do morro, fica parado. >> É, e ele é grande, né? Quando você tá coincidentemente no alto do morro que ele para, você vê ele assim, porque ele parece que fica olhando minho, cobras, não sei, minhoca, não sei que ele para, né? Depois da chuva, dizem que no que falava que depois da chuva ele ficava, fazia esse coisa de parar, que é incrível, porque o peneiro fica assim, né? >> É, fica peneirando. >> Não, ele não. >> Não. Tá certo. Tá certo. Ele, ele ficou impressionante. >> Só mexendo a ponta do remo. >> A pontinha. É. >> E assim, você vê os álbuns dele, um se chama Urubu, o outro é Passarinho, tem Sabiá, tem muitas canções com Passarinho que ele menciona até pássaros americanos também. A música "Passarinho" em inglês fala no "Mourning Dove", né? Que é uma rolinha de como se fosse uma volante, né? Que ela é meio rosinha. >> E ela fica perto da piscina. Olha, Jereba, Saracura. Saracura, aquele que adorava o passeio ali da do caminho dos riachos mais alto ali, aquele riachinho que passa caminho da floresta. É que aí ele tinha, ele ficava vendo as saracuras. >> Ah, o boto não é passarinho. Boto. [risadas] Natureza, natureza. Três geral, não é passarinho? >> Ó, o Pato Preto, bem lembrado. O Pato Preto é uma canção que ele fez que conta do Pato Preto de Água Branca, que já fez morada no Brejão. Isso é sinal que a chuva vem, que vai ter safra no sertão, uma coisa assim. Os inhambus, desde pequeno ele me ensinava a piar, porque ele chamava, digamos, escutava do outro lado do rio, né? Então, ele ficava do alto da piscina assim. Aí piava o macho quando via que tinha uma fêmea aproximando. Depois ele piava uma fêmea, aproximava os casais, depois ele saía. [risadas] Então, eu aprendi isso desde cedo. Só que era do outro lado do rio que ele estava ouvindo o passarinho, né? Muito longe. E hoje em dia a casa dele tem tanto passarinho que ele ia adorar. Porque eu me lembro que porque naquela época tinha um pouco menos que hoje, não sei se é impressão minha, mas as espécies estão aparecendo, né? E nossa, um dia apareceu um bando de Jacu Iguaçu lá, ele fez um escândalo. Ah, o Jacu, Jacu! Hoje em dia o Jacu tá o dia inteiro ali, né? A gente foi lá para ver o Jacu, coitado. Hoje em dia ele adoraria porque apareceu um monte de gavião que ele adorava. O, a Águia Cinzenta, né? Ele ia ficar doido com a Águia Cinzenta. O pega-macaco. Eu acho que viam lá. >> Isso direto lá. >> Tinha. É, enfim. Fico lembrando de casa. Não só passarinho, mas a natureza como um todo está presente na obra dele o tempo todo. >> É, começa com a música, o tema, o que é um tema, né? São um grupo de notas que o passarinho canta vários temas. Isso você na música você pode ir desconstruir aquele tema e você constrói a sua composição. Então, é a matéria-prima para ficar ouvindo passarinho é maravilhoso porque você escuta umas melodias e como já começa a imaginar, enfim, às vezes entra, eu me lembro no sítio, eh, na casa do meu avô, dormindo assim de noite, o Urutau ficava cantando à noite e começou e entrou no meu sonho. Aí eu estava num sonho, eu estava em São Paulo, num lugar, eu ia numa varanda e ficava: "Pô, tal tá cantando aqui em São Paulo?" [risadas] Aí, aí quando eu acordei, estava lá ele cantando sem parar. Muito engraçado. É bom deixar o imaginário. E o Guimarães Rosa foi uma grande aula aqui hoje, que impressionante que tudo. >> Foi das, das quatro, cinco grandes influências dele. Primeiro na música Ravel, Debussy, os impressionistas. >> E gostava muito de Rachmaninoff também. >> Também, também. E aqui no coisas no Brasil profundo tem a figura do Villa-Lobos, que era tanto influência musical quanto influência na >> que tinha os passarinhos já na orquestra. >> Né? E Guimarães Rosa. Guimarães Rosa, ele, ele, o Tom gostava muito de palavras, né? Palavras. >> E dicionários. >> Dicionários. Ele adorava descobrir palavras novas. Então, aquelas denominações regionais das aves, de outras coisas do mundo natural que ele, que o Guimarães apresentou. >> Jereba. >> O Jereba. E falando de Jereba, Luciano vai falar um pouquinho pra gente sobre o Jereba. [risadas] >> Foi que catapultando. Eu sou fã do PS, sou fã do Daniel e sou fã absurdo do Tom. Eh, o meu sítio em Cunha, onde eu moro, no topo da montanha lá, meu sítio chama Dindi. Eh, o nome das pessoas é é Dindi, você errou, era de madrinha. Falei, não, é Dindi da música. Eu tenho que explicar, eu amo explicar isso, porque Dindi é uma declaração de amor para a Mata Atlântica, que é uma declaração de amor para a mata que tinha, eh, do sítio do Dirindi, né, que que era a mata do do sítio de vocês lá em Poço Fundo. E quando você E aí a epígrafe da minha dissertação de mestrado, que é "As Aves da Mata Atlântica", é Dindi. E aí, no pessoal da USP, toda literata da USP, quando eu botei, você tá maluco, botou uma música de amor do Tom Jobim na dissertação de aves da mata. Eu falei, não, não é uma música do, uma declaração de amor para a Mata Atlântica. E o Tom Jobim tinha essa, essa coisa. O Tom tinha esse negócio de conseguir poetizar coisa que a gente nem imaginava. Para mim, uma das minhas aves preferidas, não por causa dele, eu gosto muito também de urubu, os urubus e o Jereba, que é urubu de cabeça vermelha, tem muitos nomes. E tem um álbum dele que é o "Urubu". E na contracapa ali tem um, uma poesia pros urubus que é uma coisa de gênio, uma coisa de Guimarães, é uma coisa de, eh, de Tom, de Manuel de Barros. E aí tem o, o PS trouxe aqui uma parte, ele é grande, é bem lindo, eu sempre uso em palestra, mas eu vou ler um trechinho que acho que é o meu favorito, que é que é aí mostra, não é uma pessoa que gostava de passarinho, é uma pessoa que admirava os passarinhos. Porque o cara que escreve uma coisa dessa sobre o grupo de cabeça vermelha, ele já viu os zilhões de urubu de cabeça vermelha. Dia velho, asas aquecidas, o jereba mergulha na piscina, pé de serra, fim de baixada, onde começa a ladeira e os contrafortes azulam na distância. O jereba sobe na chaminé do dia. Urubu peba, as rêmiges das asas plúmbeas, prata velha fosca, dedos de mão apalpando o vento, adivinhando as tendências. Urubu mestre. As grandes asas expandidas cavalgam as bolhas de ar quente emergentes da ravina. Tolo papagaio, tola pipa, boiando no ar, não querente, não desejo navegante, a deriva, a bubuia, pois sim, preguiçoso, atento, dormindo na perna do vento. Esse sabe o que há de vir. Aquário do céu. Eu tô aqui. Ele, ele tinha essa. Quem nunca leu, gente, pega. Eu acho que tem uma história, vocês podem falar muito mais que eu, mas é o, é um, eu não vou lembrar o nome, mas é um fotógrafo famoso das capas da MPB e o, e ele queria empurrar pro Tom urubu preto, né? O Tom não queria de jeito nenhum, né? >> Não foi difícil. Ele, meu avô queria o Jereba. Jo, aí eles foram, a história engraçada que foi pra Barra da Tijuca, pro Recreio, procurar o Jereba, né? Com fotógrafo, com aquela lente enorme, né? Aí pararam num posto de gasolina, meu avô perguntou: "Ô, você tem visto um urubu diferente por aqui?" >> [risadas] >> Não acabaram em Vargem Grande, naquela ladeira que sobe para atravessar e dali eles ficaram que tem as termais. Então, eles, eles viam o Jereba, vinham e realmente conseguiram, né? Porque a capa é um Jereba, né? Não sei. [risadas] Depois de um livro que ele fez, aí tinha uns urubus normais, como se aí não conseguiram o Jereba, puseram. Ele reclamou bastante. Isso não é o que eu queria. >> Não é o que eu queria. [risadas] >> Deixa ler um pouquinho aqui de uma crônica que eu fiz sobre meu encontro com Tom e sobre o Tom. Muita coisa já ventilamos aqui agora nesse evento, mas eu estava com eu conheci meu conheci o Tom pessoalmente com meus 30 e poucos anos. Eu estava com An, minha esposa e minha filha Teresa na plataforma naquele horário que não é nem almoço nem jantar. E eu tô estava sozinho numa mesa, quieto lá, tal. Eu levantei, eu falei: "Cara, eu, eu levantei, fui lá, cheguei ao lado dele, falei: "Então, eu quero conversar com você". E eu com aquele aquela cara de enfado do cara que não, que tá na dele e não quer ser interrompido. Aí eu falei: "Mas eu não quero falar de música, não quero falar de passarinho". Ele falou: "Senta aí, senta aí". Aí ficamos conversando, conversando, esqueci que eu estava com minha mulher e com a minha filha. Falei: "Então, eu tenho que ir lá, tenho que fechar o almoço, tal, aquele negócio". Mas foi resultado. Eh, eu aos sábados encontrar com ele na Cobal aqui do Leblon, tinha uma, um bairro, um darataca que se juntava uma inteligência carioca ali e tal. Ele era o, o maestro soberano. E eu chegava no por trás dele, sempre chegava de longe, vinha gritar: "Senta aí", chegava por trás dele e fala sussurrava no ouvido dele: "Tom, a mão, a mãe da lua mandou um abraço para você". Pronto, começava, cara. Aquela alegria, né? O Tom toca, mandou lembranças, tal. Era a chave para um grande sorriso e a senha para iniciarmos uma conversa sobre os animais da floresta brasileira. Os bichos que lhe enviavam saudações variavam, mas ele gostava especialmente de conversar sobre o Iraçu, ao gavião real, a harpia. Pia, o maior de todos os gaviões, como ele dizia, a mais poderosa ave de rapina conhecida que, como ele sempre mencionava disso. Eu já conheci o Tom de vista, quer dizer, porque eu sou nascido mesmo, como eu falei, mesmo quatro dias de diferença entre eu e Paulinho Jobim, que gostaria muito que estivesse aqui presente conosco aqui nesse evento, como teve na PUC, no Avistar da PUC há uns anos atrás. O Tom trouxe, tinha, eu era surfista e o Tom tinha trazido uma prancha do Roby, uma marca de prancha boa surf americana e eu me lembro do Tom dentro d'água, eu tom na, no Arador descendo pela escada com Paulinho, uma prancha e eu falo aqui, naquele tempo uma prancha nova fazia mais sucesso que qualquer compositor e Ipanema era sua felicidade. Aqui uma digressão minha, a familiaridade de Tom acerca da vida dos animais e demais aspectos de sua biologia não só denotava alguém que conhecia e amava profundamente o objeto de conhecimento, como alguém que tinha uma abordagem não só objetiva, mas também poética, do ato de admirar a perfeição na multiplicidade, refletindo na noção de ordem, rigor mesmo que circunscreveu musical o tempo todo. Raciocinando por absurdo e bota absurdo nisso, não considerando.
O Tom Jobinho, genial e compositor único que foi, o Tom Jobim naturalista era tão genial quanto. É óbvio que a realidade é uma só, é um som tom, onde natureza e música eram um único corpo, mas o fato é que Tom era um naturalista de mão cheia, que conhecia o mato a fundo. Isso não é pouco.
Contávamos uma outra história e mais histórias de uma multiplicidade de bichos de pena e de pelo. Papo que seria interrompido pelo ciúme dos outros amigos presentes que boiavam na conversa. Isso eu vim vi da cidade almoçar com ele na plataforma e estavam lá os amigos dele que vou João Obaldo, Pedro Paulo, o Alberico, tal. Eh, e eu começava a conversar, ele chegava lá, começava a conversar comigo de bicho e acabava a conversa com os caras, e os caras ficavam chateados, com toda a razão, porque eles estavam querendo que eu dividisse o Tom com ele também, né? Mas o som quando falava passarinho era a palavra mágica, era senha, né? Eh, ele gostava, ele gostava, ele gostava de me chamar pelo sobrenome Moreira da Fonseca, da mesma forma que chamava meu primo do Duca da Moreira da Fonseca, que é casado com a Maúcha, um grande baterista de Samba Nova York, radical Nova York. Ele achava nosso nome em português eufônico. E aí essa coisa do amor dele pelas palavras, adoro as palavras. Pelo que eu sei, o conhecimento, registro o conhecimento de tão acerca do mato, assim entendido como o que hoje se chama de ecologia, embora o tema, o tema tenha sido registrado mais de 100 anos e ele mesmo diz: "Esse ecologista, eu sou ecologista avant la lettre, antes da palavra." Eh, eh, pelo que se registra conhecimento tão acerca do mato, pelo assim entendido como o que hoje são a ecologia, e ele mesmo se dizia ecologista de talento pelas suas vastas experiências na Serra do Mar e na baixada, Ilha Grande, em Leopoldina, em São Paulo. Ele ia, tinha um um parente do Cels que tinha um sítio, um hotel em Miguel Pereira. Ele de garoto para lá, Miguel Pereira, saía pro mato, acordava cedo, ia a cavalo e via o sol nascer no alto da da do morro.
Então é revelador para mim, a partir do momento que a questão ambiental foi se tornando cada vez mais preocupante, o Tom naturalista ser buscado sobre o Tom do gênio musical, dada toda a sua impressão que sua música sempre revelou do Brasil. Só virá lobo chama a perspectiva musical de um Brasil profundo que aludo. E como, como em nossos encontros com troca de impressões sobre os mais diversos aspectos do mato, dos bichos, lendas e vivências, continua a dar uma impressão do Tom que o Tom era um grande sábio que falava de seus conhecimentos através da poesia e me dizia mais do Brasil que qualquer um. Tom, a mãe da Lu, tá com saudade. [aplausos]
O PS trouxe essa gelom aqui, >> os fios, enquanto ele se organiza, o PS trouxe essa questão aí do Tom como grande divulgador da causa ambientalista no Brasil. E a gente precisa cada vez mais falar disso. E tem uma anedota aí do Chico Buarque. Tem uma entrevista do Chico Buarque, ele fala que no final da vida os jornalistas falam que era para entrevistar o Tom, que ele só queria, os jornalistas quer que ele falasse de música, só que ele só queria falar de mato, de bicho. E aí diz que o Chico fala que uma vez ligou pro Tom, tem um depoimento gravado do Chico falando isso. Ô Tom, para de falar de macuco para esses jornalistas, porque eles não têm ideia do que é macuco. Então sai escrito no jornal ou macaco ou maluco. Cara, o Chico falando isso é incrível. >> Que homenagem ao Tom aqui agora. >> Eu não sei fazer, mas >> eu também >> meu avô sabia muito bem. Orquestra de fazer isso. 20 anos. >> Todo mundo canta que tem pio. É, é, é orquestra. Aí, um abraço. >> [aplausos] >> esqueça. >> Ah, foste tu. Eu tava achando que tinha um bicho muito bom do lado de cá. Aprendi é que eu vou aprender. Eu >> tenho um caraquinho muito lindo. Legal. Maurício Maurício abrir para umas. >> Obrigado, gente. Não, se alguém tiver [aplausos] alguma pera aí que você não pode ser não. Alguma pergunta? Alguma pergunta?
Então, a gente tá falando de gênios e aí a gente queria também homenagear um outro gênio, gênio PS. Ficou para mim essa responsabilidade. Eh, não, ontem eu já chorei, gente, não faz chorar de. Eh, te queria trazer um presente para você, PS, uma foto do seu filho feita pelo João Quental. Eh, e lembrar também dessa sua grande inspiração sua para com a gente dos ornitólogos, observadores, passarinheiros, da sua humildade, da sua grandeza, da sua amizade, dizer que a gente te ama e é muito grato por tudo que tu fez pela gente. [aplausos]
Acrobatornes Fonseca, o nosso amigo tem nome de passarinho. Conta a história do >> O Fernando contou a história ontem do Acrobatornes e vou deixar ele contar de novo hoje, repetir. [risadas] Conta, conta >> a sua perspectiva. Fala a sua. Por que que você não fala? >> A minha perspectiva é o seguinte. A gente estava no no numa viagem de observação de aves pela interior de Minas Gerais até Sergipe, Sergipe >> e voltamos pela Bahia e eu estavam com dois ornitólogos da Field Guides, Brett Whitney e o BR. >> Vai, a gente vai lembrar o nome dele. >> Bob Bart. >> Não, Bob Bart foi na segunda viagem. Foi é o marido da >> foi o primeiro marido da. Muito bem. E aí eles iam pegar uma turma da do dos do dos Field Guides, que tinha um transa e nos despedimos em Salvador e ele falou: "Olha, vocês na volta, na viagem de volta tem uma mata num lugar tal perto de Camacã, ataca tal que me pareceu boa, mas eu não consegui o Bret, eu não consegui explorar ela porque estava chovendo muito, então eu só dei uma olhada no no jeitão da mata e não não vi nada. Faça lá que pode ser que tenha alguma coisa." Naquele tempo a gente estava atrás de uma ave que foi redescoberta que era o Melox Streimann. Qual o nome científico? Nome popular baiano. >> Entufado baiano. >> Qual? >> Entufado baiano. E aí subimos essa essa local indicado até o tava com uma Toyota até lá no topo do morro onde acabou a a cabruca, aquela mata que sombreou cacau e começou a floresta. E eu estava com o Fernando e observando os bichos lá, um bando misto. Aí o Fernando, a gente viu o Fernando um passarinho que a gente tinha acabado de descobrir na em Boa Nova, que era o o Letia Baiana, eh, Filoscartes, Becker, >> Becker. >> E no o bando misto desceu em Costa da Floresta e Fernando ficou doido porque esse esse ele tinha descrito com com Luís Antônio Pedreira Gonzaga Baiano. E era a primeira vez que ele viu o baiana fora da pátria típica do lugar dela, do local que ele foi descrito. E Fernando ficou doido porque aquilo é um dado importante, a segunda localidade da que o bicho existia, né? E eu tô parado ali no lado da Toyota olhando assim o mato, tinha uma clúzia. Eu vejo um bicho cinza, um passarinho de cinza com asas pretas, rabo preto, seguido de um marrom, a vana com rabos pretos, andando no galho da clúzia. De repente vira de cabeça para baixo, começa a andar de com baixo a folhagem. Falei: "Que coisa doida é essa?" Aí eu fiquei doido. Aí gritei palavrões os mais diversos possíveis, chamando o Fernando para me ajudar lá. Ele largou lá o bonitinha baiana e veio me ajudar. Depois. >> Aí eu falei: "Fernando, não sei que é isso. Isso não tem registro, isso não tem não sei que é isso. Essa eu não sei também não sei que coisa é essa." Aí voltamos pro Rio lá doido, né? A cabeça a 1000 por hora. E aí voltamos lá depois com a mesa um pouco na frente fazer um estudo com outra turma também. Isso em suma, surgiu esse bicho na na minha vida, esse eh Acrobatornes de ficai que não só era uma espécie nova, mas um gênero novo de uma era um relito de uma época mais de secura grande ali, como o Fernando falou ontem, não tem por nem por análise genética parente próximo, entendeu? E aí, Fernando, Luís Antônio, Bret, o bicho e me homenagearam docente constrangido, eu aceitei essa homenagem. É isso, gente. Obrigado. [aplausos]
O avistar continua. Tá ca o baile na sequência. Preciso ver minha cola aqui, gente. Você sai da mesa, a gente faz homenagem. Você tá, você tá melhor que eu. Na sequência a gente tem, hoje é só amigo, né? Na sequência, a gente tem aqui a grande Duda Merece. Duda, jornalista do Eco, nas grandes vozes aí da nossa causa ambiental hoje. Eh, vai falar sobre biodiversidade em pautas aves como personagens de histórias de impacto. Obrigada, Duda. Bem-vinda. Bem-vinda. >> Gente, difícil, né, falar no mesmo dia que falaram de Guimarães Rosa, seguindo uma mesa sobre Tom Jobim, né? Grandes contadores de história que tiveram aí as aves e a natureza como grande inspiração. Não sei se vai botar o slide aí. E que eu, mera jornalista ambiental, tento fazer o mesmo, né? De de em outra com menos poesia. Ah, boa. Com menos poesia, talvez, mas eu tento porque a natureza sempre merece poesia, né? Como Guimarães e Tom sabiam bem. Eh, enquanto eles eles vão colocar aqui o slide, é só perguntar quem é que conhece o Eco. >> Tá boa. Que bom. Para quem não conhece, eu vou começar apresentando porque antes de me apresentar, acho que eu tenho que apresentar o Eco, porque o Eco, bom, nasceu depois de mim, porque eu sou de 93, o Eco é de 2004, mas o Eco me precede na história do jornalismo ambiental. Ah, boa. Obrigada. o tem point. Ah, tá. Eh, enfim. E o Eco, ele foi criado em 2004, eh, com a missão de ser a voz dos bichos, das plantas, das áreas protegidas da natureza, né, através daqueles que lutam para protegê-la, para conhecê-la. Então vocês pesquisadores, observadores de aves, apaixonados, vocês são os porta-vozes das histórias que a gente conta no Eco. E é óbvio, a gente tem editoria de editoria de política, editoria de clima, mas a biodiversidade sempre esteve ali no DNA central, na missão central do Eco. E eu é para baixo ou é para cima? Vamos descobrir aqui. Ah, inclusive aqui, ó, vamos fazer um. Eu não sou, gente, eu não sou observadora de aves muito, mas vamos fazer aqui um joguinho, já que a Ju fez joguinho também. Essa daqui é fácil, né? Obviamente todo mundo sabe que é a harpia, mas eu quero ver. Tá meio com filtro, né? Mas qual que é essa aqui? Tem um pointer aqui, né? Qual que é essa aqui? Esse esse pitacídio aqui. Quero ver se alguém tá meio desto de cores, né? >> E aí? Aí, alguém, alguém, alguém arrisca um palpite de quem, quem é esse pitacídio aqui? >> Tiriba. Tiriba do Paraná. Aí, muito bom. São e são aves que já ilustraram histórias minhas e que é é isso. Eu é sou fã, gosto, né? Eh, enfim. E sobre mim, né? Eu já trabalho com o jornalismo ambiental aí há um pouco mais de 10 anos. Eu sei que não parece porque minha cut está muito bem preservada, mas eu mas eu comecei a trabalhar, na verdade, também muito nova, porque eh eu comecei estagiando no Eco. Eu sou filha da PUC, inclusive tô super feliz de estar aqui num evento que também tem um bracinho da PUC. E na época, enfim, tive a oportunidade de começar a estagiar no Eco e não sabia neca de pitibir de meio ambiente, assim, o que eu sabia era só o que eu tinha aprendido mesmo ali na nas aulas de ciência da escola, mas não sabia nem direito o que que era Mata Atlântica e tal, mas gostava muito de fazer trilha, já tinha esse deslumbramento e no Eco eu tive essa grande escola, né, essa grande escola de conhecer a biodiversidade brasileira que se tornou minha grande paixão, né? Eh, e eu tive muita sorte porque, e vocês aqui, acredito, todos são observadores de aves, né? Vocês vão entender quando eu falo que o campo muda, né? Tá em campo, muda a gente. Tá no, enfim, tá na mata, tá no, enfim, no ambiente natural, isso muda a gente. E eu era, comecei, óbvio, estagiário, né? Jornalista de, vamos botar assim, de escritório. E quando eu comecei a ir para campo, eu eu tive a oportunidade de fazer esse projeto do livro Travessias, que eu fiz, eu percorri 11 unidades de conservação do Brasil fazendo trilhas, foram mais de 400 km. Então eu fui, teve trilha desde o Parque Nacional da Tijuca, meu quintal até Fernando de Noronha, assim, fazendo a volta na ilha. Eh, e assim conseguir conhecer diferentes biomas e e ir me apaixonando, entendendo essas diferenças, essa diversidade do Brasil, que, vamos ser sincera, né, a gente não aprende assim na educação básica, a gente não aprende, pelo menos na minha época eu não aprendia essa diversidade, né? Não, eu não tinha essa noção. E foi indo a campo primeiro com esse projeto do Travessias que eu rodei o Brasil, depois com Péo Park, que é uma web série que tem cinco temporadas, cada uma sobre um parque nacional, né? A gente tem São Joaquim, Santa Catarina, Superagui, no Paraná, eh, Capivara no Piauí, eh Anavilhanas no Amazonas e e Guimarães, eh, em Mato Grosso, Chapada de Guimarães. Então, também outra oportunidade de rodar, eu era roteirista, pesquisadora e meio faz tudo assim do do projeto, inclusive tá disponível no YouTube as cinco temporadas. Fica um convite para vocês conhecerem. Eh, e nesses, nessas experiências eu tive a oportunidade, é isso, de ir aguçando essa, todo jornalista é curioso, né? E alimentando essa curiosidade com um mundo que até então era completamente estranho a mim, não conhecia nada daquilo. Falo: "Caramba, nossa, mas que bicho é esse? Que planta é essa? Que bicho diferente, que não sei o quê". E e aí isso foi me levando, né, a me tornar uma jornalista focada nas histórias de biodiversidade. E eu eu gosto de dizer que eu, né, a minha missão é contar as histórias não contadas da biodiversidade, né? Então, contar essas histórias que a maioria das pessoas não sabem. Vocês são um público diferenciado. Se eu tiver falando de ave, provavelmente é óbvio que vocês vão saber muito, muito, muito mais do que eu. Mas talvez, por exemplo, se eu começar a contar para vocês de um macaquinho que tem lá em Mamirauá, no Amazonas, que só vive lá e que pode ser extinto em 50 anos por causa das mudanças climáticas, vocês vão falar: "Ah, o quê?" É, então assim, porque isso o Brasil é super diverso. A gente tem não só uma rica biodiversidade de aves, mas a gente tem, por exemplo, a maior diversidade de primatas, a gente tem a maior diversidade de palmeiras, como o Jardim Botânico aqui faz uma eh propaganda boa disso. E eu fui me tornando essa porta-voz e isso me levou em 2025, eu boto aí para, né, eh, porque a gente tem que ser orgulhada das nossas coisas, a ser reconhecida pelo Explorers Club, que é um clube, um clube, né, uma organização americana criada em 1904. na época muito calcada naquela coisa de exploração, expandir novas fronteiras do conhecimento, conhecer novos lugares. E hoje em dia, né, já tem uma lógica um pouco diferente de também fala muito de conservação, né, de pesquisa para conservação e de me reconhecerem esse ano como uma das 50 pessoas, 50 pessoas cujo trabalho em prol do planeta precisa ser conhecido. E aí eu falou: "Caraca, não é só o Brasil que quer saber dessas histórias, né? O mundo quer saber dessas histórias. Porque é isso, o Brasil é uma potência quando a gente fala de meio ambiente, quando a gente fala de biodiversidade. Só que essas histórias elas ainda são pouco contadas. E as aves, claro, eu vou falar de aves, não se preocupem, elas são personagens incríveis para contar essas histórias. Porque quando a gente, enquanto jornalista, quando, e aí eu falo de qualquer área, o que a gente quer são sempre bons personagens. Se você tem bons personagens, você segura uma matéria, você segura uma história. E aí isso pode ser expandido até para outras questões, por exemplo, até para um um para um uma storytelling para um projeto de conservação, para você fazer captação, para você fazer eh enfim, eh, um projeto de audiovisual, enfim, bons personagens são fundamentais e as aves são fantásticas, né? Eu não tô puxando saco porque eu tô na frente de vocês, não é porque realmente elas são apaixonantes. Eu também me apaixonei por elas na medida em que eu fui trabalhando eh trabalhando, enfim, cobrindo esses assuntos. E, óbvio, nem sempre as histórias são boas. Essa história aqui foi a história mais lida do ano no Eco e até hoje está no top três assim de histórias mais lidas do da história do Eco. E acreditem, se quiser, isso é 2021, já tem um tempinho. Na época foi feita uma pesquisa, o Everton Miranda e ele entrevistou proprietários lá em Mato Grosso, no norte de Mato Grosso, e ele descobriu que os proprietários estavam matando as harpias por curiosidade, porque eles queriam ver de perto, queriam ver com as mãos. Essas eram as justificativas que eles davam. Ah, não, abati porque eu queria ver de perto. Nunca vi esse bicho grande, tal. Queria ver com as mãos. E aí, bom, primeiro é uma história, é um chocante você ter 148 mortes em de harpia, né, em do anos, porque eles queriam ver por curiosidade. Eh, só que essa história ela conta outra história. E aí entra a coisa do personagem. A gente tem, bom, é um personagem, nesse caso, um personagem dramático, né? Mas isso conta a história de colonização da Amazônia, de ocupação da Amazônia, porque essa galera que estava matando as harpias, por curiosidade, são eh eram pessoas que vieram majoritariamente do sul do país, onde a gente teve aqui fala que falou da da ARPIA, né, apresentação do Tupinambá, que já tinham sido extintas na região sul e a gente está falando de uma ocupação recente, né, década de 70, 80 e eles não conheciam a Arpia. Então, quando foram para a Amazônia lá, Arpia ainda, né, ainda é um bicho relativamente comum e ficaram encantados da forma deles, né, com aquele bicho enorme, quiseram ver. E aí, aí, bom, aí a gente pode entrar numa grande discussão aqui sobre falta de, né, educação, sensibilização ambiental. Mas é isso. De alguma forma eles estavam fascinados. Ô, que doideira, né? Estavam fascinados e eles quiseram ver com as mãos, né? Então assim, você tem uma história que, óbvio, nesse caso, bem dramática, mas ela conta outra eh outra história, a história de como essa harpia já desapareceu na maior parte da Mata Atlântica e como no onde ela ainda é abundante, essa história de ocupação recente, as pessoas eh ainda faltava essa base de educação, de sensibilização ambiental, de entender que aquele é um bicho super importante, que não deveria estar sendo assim, né, eh, enfim, essa verdadeira chacina de harpias. Eh, e para dar um um tom positivo para não ficar um clima pesado, o o próprio pesquisador começou um projeto para sensibilizar esses proprietários. É claro que provavelmente não vou dizer que o problema está resolvido, mas, né, ele começou um trabalho inclusive para remunerar as pessoas que identificassem ninhos de harpia e tudo mais, para gerar um movimento de turismo em volta das harpias e tudo mais. Mas é isso. Então você tem essa história eh bem bem dramática e aí você tem essas outras histórias como essa. Tô mantendo harpia só para dar uma história positiva agora que essa talvez talvez a maioria aqui já tenha tenha ouvido falar isso, porque isso gerou um rebuliço no mundo dos observadores de aves, que foi um registro de harpia em Minas Gerais depois de praticamente um século sem registro. E aí foi o Osvaldo Rezende que fez esse registro casualmente, estava lá numa borda, uma borda de floresta fotografando e tal, fazendo observação e deu de cara com harpia, né? Então inclusive isso e essa história é muito legal porque essa é uma história, é isso, você tem a ave como personagem principal que é o grande gancho. Caraca, harpia em Minas Gerais, harpia na Mata Atlântica, né? Enfim, que também é é sempre um avistamento mais raro. E ao mesmo tempo você está falando de ciência cidadã, ao mesmo tempo você está falando, né, querendo ou não, a Mata Atlântica, por mais que o desmatamento tenha desacelerado, né, comparado aos níveis anteriores históricos, ainda se destrói, ainda se desmata a Mata Atlântica. Inclusive, Minas Gerais é um dos estados que lidera ainda o desmatamento de Mata Atlântica. E uma harpia precisa, né, de árvores grandes, árvores de floresta mais madura, justamente para fazer seu ninho. Então, que será que foi? Eu não sei se teve outros registros depois em Minas Gerais, depois desse eu não ouvi. Vocês acompanham isso melhor do que eu, mas eu acho que foi esse registro e acabou, né? Deve ter voltado. Falou: "Vou voltar para pro Paraná, vou sei lá o que que ela que que essa harpia fez". Mas assim, eh, é isso. Então, é um, de novo, eh, a harpia, o personagem conta, onde a gente está contando uma história que não é só sobre harpia, ela está sendo aquele gancho para contar uma história sobre ciência cidadã, observação de aves, eh, e nesse caso também sobre isso, sobre a situação da Mata Atlântica, né? Enfim, a gente, por que que não tem mais Mata Atlântica, eh, por que que não tem mais harpia em Minas Gerais? Não se via lá há quase um século. Qual é a situação da Mata Atlântica? Minas Gerais. Então esse é é é sempre um pouco nessa pegada assim. E as aves elas têm uma coisa muito bacana porque elas são muito carismáticas, né? Vocês, né? Vocês sabem isso melhor do que ninguém. Elas encantam, elas geram essa coisa. Harpia, então posso estar falando de um o gavião real, maior ave de rapina. Pá, pá, pá. Então isso gera eh uma um um apelo, né, para a atenção, para a audiência muito maior. E aí você consegue contar outras histórias que talvez se eu fosse falar de desmatamento em Minas Gerais, não sei o quê, segue firme, né? Mata Atlântica não teria o mesmo apelo. A partir do momento que eu conto essa história falando da perspectiva de uma harpia solitária lá, você consegue trazer essa história com outra cor, com outro, né? Eh, gerando outro tipo de conexão. Quem estava aqui ontem viu provavelmente a palestra da Lara do Refauna, né, sobre as araras canindé aqui no aqui no no Parque Nacional da Tijuca, inclusive estou citando Jean de Lery aí, ele é realmente ele é a grande, né, a grande referência. Aí esse é um vídeo, por isso que eu estou com essa cara estranha, não sei se vai dar para tocar ou não, mas enfim, a gente vê. E e é outro outro caso, né? Então você tem as araras canindé, que para quem é do Rio de Janeiro, né, como eu, quando eu ouvi a primeira vez alguém falando não tinha arara canindé no Rio de Janeiro, eu falei o quê? Tinha, foi praticamente a mesma reação, né, quando vem, tipo, harpia no Rio de Janeiro, é a mesma, é quase essa mesma reação. Você fica assim, Arara Canindé no Rio de Janeiro, que será? Não sei. E e aí é uma e e é um trabalho fantástico do Refauna, assim, quem não conhece, vale a pena conhecer. Ele já reintroduziram as cutias primeiro, depois os bugios e eh depois os jabutis com essa é um pouco mais foi um pouco mais problemático, mas enfim, por causa dos cachorros. Enfim, não vou entrar nesse nesse ponto. E agora eles estão com a aclimatação do primeiro grupo de araras para fazer essa reintrodução de araras. Quem imagina, né, chegar no Rio de Janeiro e ver aquela amarelo azul voando no céu e faz. Eu não vou imitar arara porque ontem eu imitei no jantar com a galera e ficaram zoando que era um urubu sendo estrangulado. Eu não sou, eu não sou observadora de não sei imitar. Alguém aqui sabe imitar o Marara? Eu não sei. Claramente eu não sei. Tentei falei miseravelmente. Mas o ponto é Então aí mais uma vez as araras. Eu fiz essa reportagem, inclusive, acabei de ver que eu estou com a mesma blusa. Gente, eu tenho outras roupas, eu juro, mas é que eu gosto muito dessa blusa. Eh, e enfim, e ela eh e ela aí, mais uma vez, é um é um gancho para você contar uma história. E qual que é a história? Beleza, tinha arara no Rio de Janeiro. Que que por que que essa arara sumiu daqui, né? Querendo ou não, você tem o Parque Nacional da Tijuca, Parque Estadual da Pedra Branca. Poxa, você tem Arara em outros lugares relativamente assim perto de matrizes urbanas. Por que que ela não estaria aqui? E aí você vai entender que o problema é que assim, elas são exigentes pro ninho, então elas precisam de botou arar. Eu sei igualzinho, gente, eu não sei que estava jantar ontem vai ser testemunha. Estou brincando, está muito melhor. Eh, enfim, que elas são exigentes quando se trata de nitificação. Elas podem ser bem tranquilas assim de ficar meio de borda e tal, mas na hora de nidificação elas são exigentes. Elas precisam daquelas palmeiras grossas, tal, já eh que elas conseguem fazer, elas fazem, né, um um chama de oco, né, um oco assim para fazer o ninho delas, que é uma coisa bem grande. E você não tem mais, você não tem mais essas palmeiras porque o Parque Nacional da Tijuca é isso, é uma história de reflorestamento e pá. Então essas palmeiras foram de arrasta já há bastante tempo. E aí você começa, exatamente, aí você começa a falar sobre essas outras coisas, começa a falar sobre dispersão de sementes, sobre o que que trazer arara de volta pode ajudar, né, na própria manutenção da floresta no longo prazo. E são espécies carismáticas, né, são espécies coloridas e tal. E aí você fala também do tráfico, da ameaça do tráfico. Pô, mas Arara é um bicho traficado ainda. E aí vai botar ela no meio da cidade do Rio de Janeiro. Como é que vai ser isso? Então você aborda também esse problemas da questão do tráfico. Esse trecho aqui é um trecho do Jean Lenry que ajudou, né, a a justificar a a introdução, a reintrodução, né, do das araras, que ele descreve, né, como eh como foi falado na apresentação do tupinambá, né, ele vai descrevendo todas as espécies de aves que tinham lá entre os tupinambás e tal. E essa descrição clara, né, de uma de uma arara canindé, não sei se vai dar para tocar o vídeo. Será que vai dar? Aqui tem uma. >> Será que dá? Tem alguém aqui dentro? >> Você acha que dá para tocar o vídeo? >> Você acha que dá para tocar o vídeo? Esse era é um vídeo. Não sei se vai dar para tocar. Não tem que adivinhar a espécie é mais fácil. É só dar play. >> Ah, tá sem som. Tá saindo no seu no seu aparelho auditivo, não, né? Coitadinho. Ah, não. Tô brincando. Você não tem surpresa. [risadas] Tô brincando. Tô brincando. Mas bom, enfim, gente, se vocês quiserem, se tiverem muito curiosos, vocês podem procurar no >> no meu, é, esse está no meu Instagram, na verdade, no Instagram do >> É, galera, é oficial. As araras estão de volta ao estado do Rio de Janeiro. Estão aqui no recinto onde elas vão se aclimatar esse novo lar delas que é o Parque Nacional da Tijuca. Elas estão nesse recinto de aclimatação para poder se acostumar com a temperatura, umidade, os sons, os cheiros da floresta. E a expectativa é que elas passem de quatro a se meses aqui para poder eh fazer esse processo de adaptação, treinar, ganhar musculatura de voo e aí então voltar a colorir os céus do Rio de Janeiro. >> Só um videozinho curto, gente, só para mostrar porque >> Ah, ih, até não cortei. Olha só que legal, que bacana, porque eu eu tinha [risadas] esse eu botei o vídeo não editado, que o vídeo mais longo está no Instagram, mas não carregava na apresentação. Enfim, aí eu quis botar agora. Ficou essa linda cara. Olha só. Vou até passar de slide só para vocês não tirarem foto disso. Enfim. Eh, mas é isso. É porque eu eu botei esse só porque acho que eh querendo ou não, hoje em dia a gente tem muito que pensar e eu não gosto de pensar nisso porque eu sou, como é que eu vou dizer? Eu sou uma alma velha, um corpo jovem. Então, eu não sou uma pessoa super das redes sociais, mas cada vez mais você precisa pensar nisso se você quer comunicar com um público maior. [risadas] E eu quero eu quero que esse público maior saiba da biodiversidade brasileira. Então eu tenho feito esse esforço de produzir esses conteúdos para as redes sociais. Não não estou nem aos pés da Juda dos Passarinhos, né? O o Make também tem outros aqui que são exemplos muito melhores. Mas é isso. Acho que é vem esse esse trabalho de tentar. Mas eu e eu acho que vai até tipo para cada um assim, né, esse papel de levar todo mundo aqui comunica, né? Nós somos seres sociais e comunicamos mesmo que não comuniquemos em plataformas oficiais de comunicação, né? E eu acho que a gente, nós aqui, temos esse, essa missão de comunicar esses temas pros pras nossas bolhas pessoais. Não, eu não estou falando de postar nas redes sociais, não é sobre isso. É sobre uma mesa de bar, falar da arara. sobre na mesa de bar falar que redescobriram a rolinha do Planalto. É, é esse tipo de comunicação que eu acho que todos nós aqui temos esse papel para poder, porque a gente é isso, da mesma forma que eu, quando eu comecei sabia nada, tem muita gente que ainda não sabe nada de meio ambiente e a gente ainda tem essa defasagem muito grande, né, de fazer as pessoas se sensibilizarem em conhecerem essas histórias não contadas da biodiversidade brasileira. Esse daqui foi um projeto que a gente fez no Eco, né, com apoio do Serra Pilheira. Ele foi publicado em 22, se eu não me engano, ou talvez 23. Bom, enfim, ele está, eu acho que esse QR code está funcionando. Eu não está, né, boa. Eh, enfim. E ele foi feito para comunicadores. Não sei se tem comunicadores aqui, mas ele pode, obviamente, ser lido por qualquer um. A ideia dele é justamente trazer um pouco, mastigar um pouco esse esses assuntos, né, para trazer eh esse universo de conhecimento. Eu tenho que acabar. Eh, enfim, eh, para, enfim, para sobre biodiversidade brasileira e, enfim, isso pode, qualquer um aí pode ficar à vontade para para ler, fazer o download e conhecer. Eu vou calar a boca porque acabou meu tempo. [risadas] [aplausos] >> Acho que não tem tempo para pergunta porque pelo jeito que me expulsaram >> tem sim. Não, você tem, óbvio. Você vai continuar acompanhando a Aráia? >> Sim, claro. Inclusive, eu estava perguntando lá pro pessoal do rifar, né? A princípio a expectativa é de que a soltura seja em janeiro. >> Essa matéria é de qu? >> A da arara é de junho. Junho. Junho desse ano. Aí eles tentam, ão faz. É isso. O primeiro grupo é sempre dá mais trabalho, né? Mas aí a expectativa até onde eu conversei com o pessoal do Refuna em janeiro fazendo su >> é. E aí os observadores de aves vão poder ver Arara Canindé no Parque da Tijuca >> em breve. Mais alguma pergunta? Duda? Muito obrigada. Assim cara é inacreditável assim. É um prazer. Assim a gente percebe que um evento dá certo quando pessoas ilustres, quando pessoas que estão super envolvidas com a causa dizem sim, né? Você convida uma vez só e a pessoa fala: "Lógico que eu vou, né?" Então isso é sinal de que deu certo. >> Obrigado, viu? [aplausos] Agora, cadê? É Alanzinho? Cadê? >> Pedro pro filme na sequência, >> pessoal. E agora a gente vai ter o Alan e na sequência a gente vai ter o filme >> Passárgada ou pasargata, como diz a Dira e Manuel Bandeira. Então, mas primeiro nós vamos ter outro baiano, pelo menos está lá na Bahia, né? [risadas] Alan vai falar sobre a gente, pra gente sobre as se tinha arara ou não na serra do Espinhaço. Além de ser um grande ornitólogo, ele é um grande barista também. Sugiro fazer propaganda, né? Quem ainda não tomou o café especial que ele trouxe lá da Chapada Diamantina, está dando um mole absurdo. >> Gente, só lembrar duas coisas. Eh, quem ainda não viu, logo na entrada, na chegada do museu, antes de subir as escadas, se você não subir a escada e seguir em frente, vai ter uma sala, é fácil de ver, que tem 12 monitores. É uma parede inteira de monitores, onde está tendo a exposição de fotos. São todas fotos feitas no Jardim Botânico. Então assim, e a gente está usando essa super tecnologia que o museu ofereceu pra gente. Então são 12 monitores ao mesmo tempo passando as imagens e são só fotos do de aves feitas no Jardim Botânico. Então prestigiem, ficou legal demais. >> E do lado >> E do lado tem uma tela de televisão que está monitorando seis estações de escuta de passarinho ao longo do arboreto todo em tempo real. Toda ave que canta aparece pipoca lá e a lista está pronta. Junto os três últimos dias do evento, já tem o quê? 70 espécies mais ou menos identificadas. Eh, vale a pena olhar a tela. E quem teve mais cedo na palestra do M que tem uma coisa muito legal. Esses gravadores que o Jin colocou, pegaram em pouquíssimos dias, pegaram gavião pega macaco em praticamente todos os dias, o que é um registro raríssimo aqui no Jardim Botânico, porque aqui no Jardim porque ele passa voando alto e você tem que ouvir ele, né? Ele raramente pousa aqui. A gente nunca viu ele pousado, né? E aí o Jin me mostrou, falou: "Cara, olha aqui o pega macaco está voando o jardim". E só o que um gravador poderia fazer isso, né? E são gravadores que ficam ligados 24 horas. Então assim, é sensacional. E e aí o último convite, quem quiser ouvir Gavião pega macaco. Eh, às 3 horas, mais ou menos às 3 horas, a gente vai tentar fazer o passeio que a gente não conseguiu fazer ainda. Então, são 100 vagas quem quiser. As pulseirinhas estão sendo distribuídas ali naquele na entrada ali do jardim. Tem um, onde é feita a inscrição, tem 100 pulseiras ali para quem quiser fazer o passeio das 3 horas da tarde, tá bom? Agora vamos de Alanzinho. Assistam a palestra, depois passem lá no galpão para tomar o café do Gravatinha, que é um dos melhores cafés que eu já tomei na minha vida. Logo naquela naquela barraquinha que fica ali onde faz a inscrição do evento, na entrada em frente ao museu. >> Obrigado. Bom dia, gente. Estamos entrando no horário de almoço de todo mundo, né? Primeiro, eu quero agradecer muito ao Rajão, eh, por ter comprado essa ideia de me trazer da Bahia para falar um pouco, eh, desse projeto que é muito especial para mim. A maioria das pessoas me conhece por causa do Gravatinha, né, Alan do Gravatinha [risadas] e do Café do Gravatinha agora. E eu já dei essa palestra no Avistal em 2023 falando da história da concepção do projeto Gravatinha, do qual o Rajão também faz parte. Eh, aí eu em 2024 fui para o Avistal de novo, mas não quis dar palestra. Eu falei, eu vou montar o café e vou conversar com as pessoas no café, tomando café. E eu senti que alcancei muito mais pessoas eh com o café do Gravatinha, né, que foi uma ideia, cadê o Guto? Está aí? Ele disse que vinha, não veio, né? Foi uma ideia germinada. Oi. >> Estava aí, né? Ele já passou no café hoje. Foi uma ideia germinada lá em 2018, no primeiro evento, um workshop de observação de aves que teve em Mucugê, que é Chapada Diamantina. Levaram o Guto, ele deu uma palestra e aí alguém deu um café para ele da chapada que é o café Latitude, que era o café que o Papa Francisco tomava. Aí falaram pro Guto: "Guto, esse é o café que o Papa toma". E aí o Guto, como sempre com as melhores ideias, né? Afinal, esse evento também é a ideia dele, chegou e falou assim: "Mas como que não tem um café do Gravatinha? Por que vocês não juntam a espécie que é mais emblemática da região de vocês com o café que expõe a chapada pro mundo todo?" Aí eu guardei aquilo no bolso. Na época eu pensava só em fazer um doutorado na área de ecologia clássica convencional com a biologia reprodutiva, modelagem, outras coisas mais acadêmicas do Gravatinha. E nesse momento virou uma chave no meu cérebro. Eu falei: "Ah, quero fazer outras coisas". O projeto virou uma coisa muito maior com impacto socioambiental, com educação, com capacitação de guias locais. E hoje vocês podem lá provar o café. Eu fiz uma curadoria dos rótulos de café. Então cafés que vocês podem provar lá é um dos melhores cafés do Brasil, eleito três vezes a melhor torra. E aí como a gente está atrasado, a gente conversa mais no café, tá? Então, mas eu vim especificamente hoje falar de um outro projeto do qual eu faço parte, que é o projeto de pesquisa e conservação da Arara Azul de Lear, que a Érica estuda, a Érica Pacífico é a coordenadora desse projeto e tem trabalhado com as araras no Raso da Catarina desde 2008, eu acho, né? Então tem bastante tempo. A Érica fez mestrado, doutorado, pós-doutorado, tudo com Arara, mas especificamente na área de distribuição lá em Canudos, né, no Raso da Catarina, que é a área principal de ocorrência da espécie. Mas aí tem essa história do da Serra do Espinhaço. Alguém sabe se tem ou não? Quem pode me ajudar? Se tem arara na Serra do Espinhaço. Onde que ela está? Então, ela está nesse conjunto de montanhas aí que foi recentemente eh considerado uma nova área de conservação do Brasil, um, né? É um dos maiores parques que existe hoje da Caatinga, que é o Parque Nacional do Boqueirão da Onça, da Serra do Boqueirão da Onça. É um parque de 300.000 ha com 500.000 ha de APA, então 800.000 1000 ha de área protegida na Caatinga. É uma das maiores áreas e onde tem uma maior distribuição também e ocorrência da onça pintada na Caatinga. Inclusive tem a pesquisadora Cláudia que trabalha lá. Mas vamos adiante, senão não dá tempo de mostrar tudo. Então, como que é a história? Por que que a Lana do Gravatinha está fazendo na Serra dos Pinhaços atrás de Arara? Então, em 2020, ano da pandemia, eu escrevi para a Érica e pro Thiago Filadélia falando que tinha sido descoberto uma ocorrência do Gravatinha no extremo norte da distribuição da Serra do Espinhaço. Tudo isso aqui, isso aqui é laser a luz? É, tudo isso aqui é um conjunto de serras que forma aquilo que a gente chama da única cordilheira do Brasil, que é a cadeia do Espinhaço. Essa cadeia de montanhas que começa em Minas, vem Serra do Cipó e aí vai até lá em cima, já na divisa com Pernambuco, alguns geólogos acham que até a serra eh da Capivara pode fazer parte desse complexo do Espinhaço, outros não, mas enfim, acaba na Bahia o Espinhaço. E aí você tem ambientes que se repetem, como a gente acha, na Chapada Diamantina, como esse aqui, tá? Então, a área com altitude elevada no meio da Caatinga, na área cor da Caatinga, mas aí você tem
Ambientes muito parecidos com campos rupestres, e alguém registrou o Gravatinha lá. E aí a gente teve esse encontro, né? Aqui a Érica, coordenadora. Aqui a gente tá fazendo a clássica troca de equipes que acontece sempre em Petrolina. Ela, com a família dela, tinha passado Natal e Ano Novo no Boqueirão, cuidando das araras. E eu entrei para passar o verão nesse ano aí, que foi, acho que 2020.
E aí eu fui atrás do Gravatinha. Lá, para o pessoal do Boqueirão, eles não chamam de Beija-flor, eles chamam de Bizunga. Beija-flor para eles é bizunga, né? E aí demorei até entender. Eu falei: "Ah, eu estudo um beija-flor que tem uma gravata, não sei o quê." "Ah, bizunga de gravata." Eu falei: "É, deve ser esse." Aí, automaticamente, eu virei a Lanzunga lá. Então, aqui eu sou a Lanvatinha, lá no Boqueirão eu sou Alan Bizunga, tá?
E aí algumas coincidências entre as duas espécies. A gente começou a discutir como juntar a força que duas espécies emblemáticas bandeira podem ter para a gente trabalhar pela conservação das aves da caatinga como um todo. Então, existe um documento que é o Plano de Ação Nacional para Conservação das Aves da Caatinga, né? Que é esse PDF aqui que vocês conseguem baixar lá no site do ICMBio.
E aí algumas coincidências entre o Gravatinha e a Arara-azul-de-lear. Ambas espécies são endêmicas, ou seja, só ocorrem no estado da Bahia. Ambas no mesmo critério de ameaça, consideradas em perigo na lista nacional do MMA. E todas elas têm potencial para ser uma espécie bandeira e uma espécie guarda-chuva. Tudo que a gente fizer para conservar a arara e para conservar o Gravatinha, vai conseguir conservar uma quantidade muito maior de espécies que ocorrem na mesma área de distribuição deles e até além, né? Então, quando tiver faltando 5 minutos, alguém me dá um toque, tá?
E também algumas ameaças à conservação dessas espécies são convergentes, né? Então, principalmente a perda do habitat, o enfrentamento das mudanças do clima e também questões com espécies exóticas invasoras, né? Não vou me aprofundar, mas enfim, é um problema grave para as araras com as abelhas africanas, que ocupam as cavidades dos ninhos onde elas fariam o ninho. Tem competição por nicho de ápice. Isso é um grande problema para a conservação da espécie lá no raso. E o Gravatinha tem problema com plantas invasoras no Parque Nacional da Chapada Diamantina, que formam praticamente uma monocultura de samambaia exótica e aí não tem as espécies nativas para ele. Então, muitas coisas em comum. E aí a gente falou: "Ah, vamos continuar essa parceria e trabalhar para que uma espécie dê força a outra."
Então, basicamente, para quem nunca viu, essa é a incrível Arara-azul-de-lear nos paredões lá de Canudos. Acho que eu vou passar para cá um pouquinho para eu ficar vendo melhor aí. Então, aqui o mapa do ICMBio que mostra a distribuição, né? Então, basicamente, você tem um conjunto de populações aqui nessa região, na Depressão Sertaneja, né? Lá no Canudos, Geremoabo. E a gente redescobriu, a gente é ótimo, né, que eu não estava na redescoberta, mas o ICMBio redescobriu que existia uma população da arara nessa Serra do Boqueirão da Onça, né? Bem mais ao norte, mais para dentro do Brasil. E aí ampliou a distribuição geográfica e iniciou-se um projeto de monitoramento de pesquisa dessa espécie nessa área, tá?
Então, as araras reproduzem em paredões, né? Fazem os ninhos nessas cavidades, nesses paredões. E aí vocês podem imaginar a dificuldade que é para estudar isso, porque para uma espécie ameaçada, uma das coisas mais importantes é a gente saber um pouco da dinâmica populacional dela. E para fazer isso, tem que estudar a biologia reprodutiva para saber o sucesso dos ninhos, quantos filhotes voam, quantos sobrevivem. Todo esse processo a Érica vem fazendo há muitos anos. E aí é preciso descer de rapel nos ninhos para poder acessar, marcar os filhotes. Eles colocam, desculpa, eles colocam esse GPS, que é uma das tecnologias mais avançadas que tem para monitoramento remoto de uma espécie, que é o caso da arara, que ele consegue ver a área de vida do bicho. Vai ter dados mais para frente disso aqui. Essa foto incrível do João Marcos Rosas, que é fotógrafo da National Geographic, né, de um filhote aí recém-eclodido do ovo.
A arara tem um papel fundamental também na dispersão de uma espécie emblemática da caatinga, que é a palmeira do licuri, né? Que é uma espécie fundamental para a manutenção da biodiversidade da caatinga, porque o licuri tá associado com várias outras espécies, muitas conexões, né? E a arara dispersa o licuri também. A princípio, a gente podia pensar que a arara é predadora, porque ela come o licuri, né? Ela come a semente, mas quando ela voa, também alguns coquinhos caem nesse processo aqui e ela dispersa. Então, ela atua de maneira também benéfica para a espécie. Apesar de ser uma predadora do licuri, também ela é uma mutualista do licuri, tá?
Ah, essa é uma das fotos que eu mais gostei de ter feito na vida, né? Veja o encaixe perfeito que tem, né? Essa arquitetura aqui. E quando ela quebra o licuri, o licuri parte no meio certinho. E a partir desse coco seco, muitas pessoas fazem artesanato. Será que vai passar? Vai, Gin. Tá vendo, Gin? Deu certo. [risadas]
Essa é a Lídia, uma das araras que estava em cativeiro, né, e foi reabilitada para soltura. Então, aqui uns dados que depois a gente pode conversar lá no café melhor sobre eles, mas a variação da população reprodutiva da Arara-azul-de-lear. Então, isso muito em função do trabalho de conservação, né, de pesquisa que o grupo tem feito ao longo desses últimos anos. Então, várias ameaças para a espécie: perda de habitat, problemas com licuri, tudo que a gente já falou, né? Caça e um tráfico ainda internacional, né? Toda vez a gente vê notícia de animais apreendidos em aeroportos, né, traficando araras para fora do Brasil. Então, isso é um problema também que necessita enfrentamento. A Érica, inclusive, estava dando uma palestra nesse prêmio importante que teve do príncipe aí essa semana aqui no Rio. Ela foi dar uma palestra para falar disso, né?
Então, tá aqui a distribuição, né? O maciço da distribuição da arara é aqui na Depressão Sertaneja, na caatinga. E a gente tem essa população residual que ocorre no Boqueirão da Onça. Então, a gente tem duas áreas de ocupação da arara e um grande gap de área que não está ocupada, né? Então, isso confunde um pouco para a conservação da espécie, porque parece que ela tem uma distribuição ampla, mas a área que ela de fato ocupa é uma porcentagem pequena, né? A área de ocupação aí da arara é menos de 500 km².
Então, é isso. O que aconteceu com a população? Beleza. A população foi funcionalmente extinta. Tinham cerca de 60 indivíduos, os traficantes levaram, restaram esses dois no Boqueirão da Onça, só esses dois indivíduos. E aí o projeto começou a repatriar araras presas, apreendidas em cativeiro e soltar no Boqueirão da Onça para revigorar essa população, tá? Então, foi construído o ASAS, que é uma área de soltura de aves silvestres, né? Aí tá o ASAS. A gente alimenta as araras. Esse é um dos principais serviços que eu passei fazendo lá. Tinha que quebrar 400 cocos de licuri por dia, porque as araras não tinham força ainda para quebrar os coquinhos, tá?
A Fernanda, que é aluna de mestrado da USP, monitorou durante 4 anos o deslocamento, o padrão de deslocamento da Poti, que é uma arara que, por sorte, deixou o GPS em paz. Elas não destruíram o GPS. Aí tem dados importantíssimos sobre essa ecologia do movimento dessa espécie, né? A tese da Fernanda está disponível para baixar, né? No site da USP.
>> Achei cada um tem.
>> Aqui. A gente descendo na Grota do Prateado, que seria a área de distribuição histórica onde a arara reproduz no Boqueirão da Onça, né? É onde foi encontrado ninhos ativos. E esse é o primeiro filhote nascido no Boqueirão da Onça depois da soltura das araras, né? Lindo demais. Filho de 101 e 102, que são araras que eram de cativeiro e que se deram super bem lá quando soltamos, né? Aqui elas comendo licuri. Aí já é o filhote também, né?
Aqui são os dados da população do Boqueirão da Onça. Então, aí tinha cerca de 60 indivíduos. Desculpa, tinha cerca de 60 indivíduos. Os traficantes levaram todos, sobraram aquelas duas que eu mostrei para vocês. E a partir de então, começamos a reintroduzir as araras. E hoje está mais ou menos nesse pé aí, né? Tivemos aí algumas perdas que a gente não sabe se a arara morreu, se a arara perdeu o GPS, enfim, ou não foi mais vista e foi para outro lugar. Mas hoje, no Boqueirão da Onça, a gente conta 25 araras sobrevoando a área nova, né, a área de soltura.
E tem um trabalho muito importante que é onde eu me inseri nesse projeto, que é na relação com a comunidade, né? Então, a Érica e o Thiago rodam aquelas terras lá do Boqueirão da Onça há muitos anos e construíram uma relação muito sólida com a comunidade, que é, na verdade, os guardiões da arara hoje, né? Eu tenho só mais um minuto. Eu tenho um chorinho. [risadas]
>> Tá bom.
E eu me identifiquei muito, porque, na verdade, antes de ser ornitólogo, antes de ser fotógrafo, antes de ser barista, eu sou descendente de sertanejo, né? Meus avós são sertanejos originais do interior da Bahia, numa cidade chama Irará, cidade do Tonzé, né? Então, eu estava habituado e aí eu tive facilidade com isso. Quando eu cheguei lá, a comunidade do Boqueirão da Onça virou a minha família. Eu morei 4 meses lá esse ano, né?
>> Ali é pinha.
>> Pinha.
>> A pinha. Eu descobri que aqui dá certo. Nós vamos plantar lá na caixa. Vou fazer umas mudas.
>> Isso aí, a gente plantando no dia da soltura. Olhar um lugar. É porque o pé de banana não dá certo.
>> Ó, canta de novo aí, Claudinha, para eu aprender.
>> Quem planta uma árvore cresce com a mão piedosa e boa. A terra, os homens agradecem, a mãe os filhos abençoa. Nós vamos plantar nessa catinga.
>> Viva São José. Bora, seu.
>> Esse evento foi incrível, gente. Foi a quarta soltura das araras. E aí a Érica me chamou e falou: "Alan, vamos dedicar na comunidade nessa soltura." A gente fez tudo que vocês possam imaginar. Até a Érica, que nem tem nenhuma conexão com religião, a Érica foi na missa de São José falar das araras, toda vestida de azul, porque São José, a cor de São José é azul. E a gente fez plantio de licuri. A gente fez bingo com marcação do bingo com licuri. Tudo que vocês imaginarem. Eu fiz pão de licuri, bolo de licuri, tudo temático.
Esse é seu Domiro, que é um querido. Seu Domiro também plantou um pé de umbu que está lá forte, apesar da seca desse ano, ainda está vingando.
>> Comunidade rural do Cercadinho, povoado. Esse.
>> Eu vou passar por causa do tempo, mas é isso. Depois eu posso passar essa apresentação para vocês.
>> Levar esse brandão.
Mas a comunidade tem muita conexão com licuri, né? Eles fazem tudo de licuri. Inclusive, tem um gravatinha de palha de licuri no meu café. Quem quiser passar lá para ver, não me perguntem preço porque não tem preço esse artesanato, viu? Aqui é uma focagem de licuri que eu desenvolvi lá. E eu morei 4 meses nesse paraíso, né? E saí nesse estado. E a gente ouve muito falar dessa questão de como a conexão com a natureza é uma ferramenta importante para o bem-estar, para a saúde mental. E eu sempre ouvi falar disso. Luciano já deu palestra em evento de medicina com isso, né? Mas eu fui a prova viva disso. Eu nunca tinha experimentado em mim, né? Eu estava vivendo durante muitos anos um processo difícil de não metabolizar o luto da minha mãe. E aí foi muito difícil para mim durante uns anos. E o contato com o sertão me salvou. Em 15 dias eu estava muito melhor. Em 4 meses, eu estou desse jeito que vocês estão vendo aqui. Certamente, se eu fosse para qualquer psiquiatra hoje, eu estaria tomando um ansiolítico, um remédio para alguma outra coisa. Mas o contato com as araras, com a vida simples, né, com acordar cedo todo dia, inclusive, tá acordando 4 horas da manhã, né, Marina? [risadas] Acordando todo mundo na casa dos amigos que eu estou hospedado aqui, porque eu acordo 4 da manhã. E é isso. Essa é a equipe, muita gente, muita colaboração. E essas são as redes sociais dos projetos que vocês podem entrar em contato lá. Chama Cercadinho porque é tudo cercado de serra, o povoado fica todo cercado por serras, né? E é isso. A gente conversa mais, tem muita história para contar sobre o projeto das araras e o café da gravatinha. Agradeço demais, viu? Tentei correr o máximo. [risadas] Linda.
>> Que bom, gente. Agora a gente.
>> Vai ter o filme, né?
>> Vamos ter o filme. Vai passar o filme. Quem ainda não assistiu, vai ser aqui.
>> Vai ser aqui agora já. Agora já tem pipoca, eu acho. Não, eu vi pipoca entrando. Tem pipoca, Jin. Eh, eu acho que é um filme de uma hora e alguma coisa. É uma hora e uma hora e é filme, é filmão.
>> Pessoal, acabaram de avisar aqui que o filme vai ser no galpão. O filme foi.
>> Vai ser aqui, vai ser aqui. O filme vai ser aqui mesmo. Então, o filme vai ser aqui. Eh, começando muito rapidamente.
>> Voltou para cá. Muito bom, viu? Muito bom ouvir. Sempre.
>> Terminou eu, doutor. Gostei da blusa de vocês.
>> A gente já se falou ali na entrada.
>> Lindo, né? Tudo bem? Que evento lindo, hein?
>> Nossa, gente.
>> Como a gente aprende. Eu que não sou observadora de aves, mas agora.
>> Não, mas o evento é para essas pessoas. É.
>> Ele é o maior especialista. Ele que ajudou também na filmagem. Vocês estão curso juntas, doutorado junto. Parabéns, gente.
>> Obrigado. Parabéns. Obrigado.
>> Obrigado.
>> A pipoca é verdade ou? A pipoca é verdade, eu vi pipoca entrando. Vamos dar almoço. Senti cheiro.
>> Vai ser aqui.
>> Gente. Vai ser aqui. Tudo bem. Dá para passar pelo computador dele aí? Tá no drive na hora da projeção. Em vez dele filmar o filme, joga enquanto começa complicado.
>> Vai começar nesse tent pegar.
>> Desculpa, já começou. Ah, é, já tá rolando, já tá rolando, já tá rolando, tio. S.
[música] [música] [música] [música] [música]
Obrigada pela presença de todos. Obrigada, João. Obrigada, Luciano. Obrigada, equipe Avistar Rio. Para mim, é uma honra estar fazendo parte dessa programação diante da, pela primeira vez, de uma plateia especializada. Então, assim, para mim, é muito emocionante. Acho que o Avistar Rio ele tem uma possibilidade de se ampliar como um evento não só para os apaixonados por pássaros, pelos especialistas em pássaros, mas também por um olhar que do entorno do mundo dos pássaros. Então, eu acho que o Avistar Rio ele tem grandes chances, e eu sou uma entusiasta disso, dele envolver não só esse olhar para o pássaro em si, mas pro entorno do habitat do pássaro, das suas, das suas particularidades tão incríveis e que a gente estava falando agora há pouco, tão esplendorosas. Eu lembro que eu aprendi com os nossos ornitólogos esse momento do esplendor, né? O esplendor da manhã. Então, todos esses termos fazem parte hoje do meu dia, do meu cotidiano. Eu vou abrir para perguntas e respostas. E então, eu acho que não sei se tem um segundo microfone para a plateia para a gente já falar sobre as curiosidades de vocês. As críticas também são bem-vindas, tudo que vocês quiserem manifestar. Porque realmente vocês são a primeira plateia especializada no assunto. Então, tô, tô ouvidos. Sou todo ouvidos.
>> Vai passarinhar antes do filme?
>> Ela perguntou se eu passarinhei antes do filme. Qual o seu nome?
>> Luciana.
>> Luciana. Eu eu não sabia que eu passarinhei e só depois de realmente ter sido pega por um sentimento de observação durante a pandemia, uma observação natural que veio com o fazer nada. E o fazer nada incluía observar pássaros, olhar pro céu. E quem era que estava feliz lá em cima? Quem era que estava no pique, como se nada tivesse acontecendo? Eles, eles eram os únicos que pareciam estar imunes a tudo que a gente estava vivendo. E naquele momento eu entendi que eu estava passarinhando. E passarinhar veio o projeto do filme. Obrigada.
Eu posso falar um pouquinho enquanto vocês perdem a timidez. Só para fazer a conexão, em 2020, durante a pandemia, quando no primeiro momento, quando a gente teve oportunidade de se refugiar na Mata Atlântica, eu percebi que eu estava tendo um insight, vamos dizer assim, um encontro pessoal com o que eu estava vivendo e com o que eu estava vendo. Como eu lhe falei, eu estava observando pássaros sem perceber e observando a liberdade deles. E em seguida, nas primeiras pesquisas que eu fiz sobre pássaros, veio a cifra absurda de que é o terceiro maior tráfico internacional do mundo, tráfico de animais silvestres. E 80% dos animais, eu não sei se ainda continua 80%, mas a grande parte dos animais traficados, animais silvestres, na sua grande maioria são pássaros. Na sua grande maioria é de pássaros, para falar um português mais certo. Então, nesse sentido, foi uma coisa que eu falei, aí eu não me senti no direito de calar. Então, o projeto do filme surge durante a pandemia. Não é um filme sobre pandemia, mas é um filme sobre solidão, sobre silêncio, sobre solidão na maturidade, sobre perder o rumo da história, como eu acho que a Irene perde. A Irene empresta a sua sabedoria para outros fins, para os fins mais perversos. Também eu queria romper com esse olhar que a bandidagem tem uma cara, não. A bandidagem está na gente. Então, às vezes a gente vincula a bandidagem com pessoas que não tiveram oportunidade, com pessoas não estudadas. E eu queria quebrar esse paradigma também. E também, como se tratava de um tráfico internacional, eu eu tinha necessidade desse cara que está lá, que está fora do Brasil. Porque se existe um tráfico internacional, tem uma demanda internacional. E nós somos, como o Brasil já o é, fornecedores de recursos naturais. Nós somos fornecedores de tudo que brotou naturalmente no universo. O Brasil é um grande fornecedor de água limpa, na verdade, é o que a gente mais exporta. E então, assim, eu acho que o filme ele abrange um sentimento pandêmico, mas não é sobre pandemia. A gente teve solidão, a gente teve silêncio, a gente teve revalidação de valores durante a pandemia. Então, eu tentei trazer todo esse sentimento que me tomava durante a pandemia no filme. E para Pasárgada, para quem pros jovens assim, é um poema de Manuel Bandeira, muito famoso nas gerações que eu faço parte. E é um poema que também fala sobre a solidão. Manuel Bandeira morreu longevo, morreu depois dos 83 anos e ele estava doente. Quando ele escreve "Pasárgada", ele fala que ele quer ir embora para Pasárgada, porque lá ele é amigo do rei, que ele vai ter a mulher que quer na cama que ele escolher. "Vou falar pois como ela é, né? Vou embora para Pasárgada. Lá sou amigo do rei. Lá terei a mulher que eu quero na cama que escolherei." É uma metáfora de alguém que está em busca de um paraíso. E eu acho que era o sentimento que a gente tinha durante a pandemia, alguém que queria um paraíso para chamar de seu. Então, tudo isso veio em mente durante esse 2020. E eu falei assim, tanto é que o personagem de Carrão chama Manuel, que é uma homenagem a Manuel Bandeira, porque esse poema que era tão popular no Brasil, ele fala dessa vontade de ir para um paraíso para chamar de seu, onde você pode mandar em tudo, onde você é amigo do rei, você pode se banhar na beira das águas, não se preocupar com a vida. Então, eu acho que esse era o sentimento. Então, eu acho que além de todo o universo da ornitologia que o filme abrange, existe um sentimento também de uma solidão, de uma profissão solitária, silenciosa e que exige muito foco, muita intuição. Uma pena que tem gente que tem talento para tudo isso e usa para coisas erradas.
[aplausos] Eh, bom, primeiro, parabéns pelo filme. Eu estava aqui ontem, eu fiz uma pergunta e hoje eu vou fazer de novo, já que o pessoal é tímido, eu sou jornalista, sou mais perguntadeira mesmo. Eh, e você começou a responder agora, que é uma coisa que eu fiquei me perguntando, porque ontem, né, ouvindo você falar, eu acho que eu construí uma outra ideia de filme.
>> Aham.
>> Do que seria a sua protagonista, do que seria a história narrativa, né? E me surpreendeu. Bom, acho que todo mundo aqui viu, né? O fato de ter escolhido uma protagonista que é isso, que atua junto ao tráfico. Eh, e aí você falou um pouco sobre isso de que a bandidagem é isso, tu pode ter muitas caras, mas eu queria entender o que que foi esse processo de concepção, porque não me parece a escolha mais óbvia de cara, né? Você pesquisou lá, viu o tráfico, mas daí falou: "Não, então eu vou fazer um lado do tráfico que não se vê tanto." Queria entender um pouquinho como foi isso.
>> Foi exatamente esse caminho que você está falando. Foi ao pesquisar e me deparar com esse terceiro maior tráfico internacional do mundo, gente, só perde para tráfico de armas e tráfico de drogas. Que fetiche é esse que a gente tem de ter um pássaro para chamar de seu? Que fetiche é esse que o mundo tem de pagar fortunas para aprisionar um bicho que só nasceu para viver junto com outro? Então, assim, isso me escandalizou como pessoa, como ativista social, ambiental. E eu achei muito importante não abordar aquele que vai pegar o pássaro, a ponta que nem aconteceu, infelizmente, com o Rio de Janeiro, a ponta, né, da criminalidade. Eu não tinha como abordar a ponta da, eu queria abordar a outra ponta da criminalidade que a gente não fala, que é a pessoa que teve a oportunidade de ter a sabedoria, teve oportunidade de ser um acadêmico e usa seu academicismo contra os princípios da sua própria objetividade. E essas pessoas existem, que são as pessoas que assinam documentos, que facilitam, que oficializam coisas não oficiais dentro das nossas pesquisas, e vocês sabem muito bem disso. A gente sabe que muitos viveiros oficializam animais como sendo nascidos dos seus nascedouros e vão capturar na Mata Atlântica. Eles nunca dizem: "Não, você vai lá procurando um papagaio, ele vai falar: 'Não, nós temos papagaio nascidos no nosso nascedouro.'" Foi lá, pegou o ovo, e a gente sabe que os ovos estão sendo traficados cada vez mais, porque são muito mais fáceis de traficar do que os animais em si. Então, é um universo que nós, como apaixonados por aves, pela natureza e por animais silvestres, a gente não pode banalizar. Eu tive um episódio que para mim foi bem constrangedor, você como jornalista vai entender. A gente estava em pleno lançamento do filme num programa matinal, estava lá um veterinário bonito, bem afeiçoado, mostrando as possibilidades de criação de animais silvestres. Primeiro, já começa o primeiro crime aí. Como é que num programa matinal? Eu telefonei para o programa, falei da minha do meu olhar. O programa ficou muito sem graça, porque eles entenderam na hora o desserviço, porque o veterinário ele era muito bem afeiçoado. O que que ele estava mostrando? Cobras albinas, pássaros, aranhas raras, assim, bichos que você jamais poderia ter. E ele estava mostrando em coisas plásticas com aquele aquela serragem mais, entendeu, que você vê que ele botou ali para levar para aquele lugar. Então, eu acho que um filme como esse, ele faz com que a gente desperte o olhar para uma coisa, para demandas muito maiores que têm a ver com o nosso mundo. Mas assim, me estendi um pouco, mas é só para dizer assim que a importância de mostrar que para o tráfico chegar, para esses animais serem esquentados publicamente, isso não diz respeito ao que captura. Diz respeito a uma cadeia de tráfico. Do tráfico.
Tem uma pergunta aqui. Tem uma pessoa.
>> Depois tem uma aqui também.
>> Não tem uma aqui. Depois.
>> Gira, boa tarde.
>> Boa tarde. Eu não vou me estender mais muito agora. Vou ser super rápida.
>> Essa deve ser a terceira vez que eu assisto esse filme desde que lançou. E me pega muito porque durante o mestrado eu também fiz uma recuperação do processo de tráfico e comercialização da ave que eu trabalhava. Eh, além de ser o terceiro maior mercado, também é um mercado muito antigo, né? Consegui encontrar relatos de 1800, 1700 falando sobre essa espécie que eu trabalhava na Inglaterra, em outros países europeus. Mas a minha pergunta vai mais de uma curiosidade. A primeira é se depois desse processo, dessa imersão que você teve, você continua a passarinhar. E também queria que você falasse ou de uma ave marcante durante as gravações ou um momento importante dentro das gravações que lhe tocou bastante.
>> Durante, durante a preparação do roteiro, eu estava tão certinha, eu estava falando todos os termos científicos, só que a atriz tem que esvaziar uns HDs para poder receber outras informações. E ao longo do tempo, já esqueci todos os termos científicos. Esqueci. Então, foi um envolvimento apaixonante, estar conectada com alguma coisa. Eh, nesse período, olha só que fofo. Vou te falar o pássaro que me marcou, o beija-flor. O beija-flor me marcou por dois motivos. Primeiro que foi o único pássaro que a gente conseguiu captar sem ajuda do João Quental, porque é um helicópterozinho, né, gente? Aí a gente consegue filmar. Então, foi o único pássaro que a nossa imagem que estava lá no dia da filmagem, olha o beija-flor aí, e conseguiu captar o beija-flor. Então, aqui eu sinto uma imagem assim, sabe, roubada da natureza, porque foi assim, liga a câmera e vem. E aí mais tarde, durante os anos de montagem, porque quando terminou o filme, eu fui direto fazer a novela Pantanal. Então, eu guardei o filme para poder ter tempo de montar depois da novela. Então, o filme fica um pouco guardado. E nesse período, eu acompanhei minha mãe durante seus momentos mais difíceis, assim, assim, mais conscientes, assim, uma bonita despedida que eu tive com ela. E eu já tinha, já estava apaixonada pelos beija-flores, já era um pouco pelos beija-flores. E aí tive um encontro com um beija-flor que foi muito especial, que foi no quinto andar. E beija-flor. Nunca vi beija-flor assim. Não, não, eu não sabia, né? Não, não conheço muito bem. Quinto andar de um prédio com garagem embaixo, ou seja, ele estava alto, né, gente? Quinto andar. E eu estava falando no telefone e esse beija-flor, a janela estava fechada no hospital da minha mãe e eu estava falando no telefone, olhando para a janela do lado de fora. Juro para você, ele veio assim, chegou assim, na altura dos meus olhos e me olhando e me encarando. E eu senti que ali era uma mensagem. E essa mensagem veio. Então, foi um momento muito especial e eu nunca vou esquecer. E conecto com essa imagem que é a única imagem de pássaro que é nossa é o beija-flor. João, você tomou conta dos outros pássaros todos.
Tem uma pergunta aqui.
>> Ah, para quem não sabe, as imagens de pássaros do nosso filme é do nosso ornitólogo e cineasta João Quental. Salva de palmas para ele. [aplausos] Só tem um defeito esse cineasta que ele faz tudo perfeito. Eu falava: "Eu preciso de imagem feia." Aí ele falou: "Não tem, eu jogo fora." Aí sabe o cineasta que não tem imagem feia, gente? Não dá, não dá. A, né?
>> Eh, para mim, o seu, o seu filme, né, achei fantástico, mas assim, o que mais me salta os olhos é a escolha. É um item que você não cita, mas eu acho que o tempo inteiro ela faz uma escolha, até que no final ela faz a escolha final dela. Enfim, mas é um momento assim, você está o tempo inteiro escolhendo e a escolha que você faz, às vezes aquilo ali abre um caminho que você não consegue voltar pro teu ponto de origem. Então assim, abre árvores de decisão, onde você vai ter diversos ramos e alguns vão ficando para trás, né? E aquilo vai matando seu sonho. Então acho que fala muito de escolha.
>> É sobre exatamente isso. A gente falou exatamente essa palavra, se captou muito bem a palavra escolha, porque quem tem chance, eh, quem tem a chance do conhecimento está o tempo todo, como você falou, fazendo escolhas. E acho que a Irene faz escolhas erradas. E ao se deparar com a sua escolha, porque eu queria falar muito também sobre, a gente não olha, a gente, a maturidade ela, eh, eh, como eu posso definir? Eu queria muito falar dessa maturidade feminina quando ela não azeita com o mundo, né? Quando ela não azeita com a natureza. Eu precisava de alguém que não estava azeitado. Eu estou usando essa palavra azeitado para vocês entenderem. Uma pessoa que não está ajeitada com a natureza, não está legal, gente. Bora logo começar por aí. Então, foi isso que eu queria trazer. Não está com a natureza, não está com ela, não está com a família, não está com não sei o quê, não está. E ao perceber o momento, eu acho que ela percebe, ela chega a perceber que ela não está, só que está demais. E ah, quero fazer uma lembrança para vocês. O Cissa, que é esse personagem tão lindo do filme, que é o seu Wilson Gonçalves, é uma pessoa da região, como vocês puderam perceber. Para mim, ele simboliza. Eu falei: "Não pode ser ator, tem que ser alguém que é a própria natureza." E nós que nos damos com diversas pessoas do campo, do mato, dos interiores do Brasil, reconhecem o Cissa.
>> Porque se sente nele a verdade de quem vive com a natureza, conhece a natureza, lidar com ela, fala a língua dela. Então, a presença dele é a presença da natureza em si. E a voz, eh, a música final e a música que eu canto, que eu canto quando ela está tendo delírio de dos cogumelos, que é eh são da Zeneida Lima, as duas músicas. A do final, que é uma Pagé paraense do Marajó, da Ilha do Marajó, que é uma pessoa que tem 94 anos, de uma sabedoria incrível, que tem um instituto chamado Caruanas e que compõe várias músicas de natureza. Caruanas são as energias da natureza na linguagem marajoara. E ela, ela trouxe para mim esse sentimento também que o Cissa tem. Eu precisava de pessoas que fossem a própria natureza. Nós somos corrompidos pela vida urbana, pelas metrópoles, pelos pensamentos de ascendência social. E tem pessoas que estão livres disso. E é uma liberdade que só os pássaros têm. Então, para mim, a figura do Cissa, a figura da voz da dona Zeneida Lima, são o retrato da liberdade. E as escolhas foram feitas em cima muito também de não agradar o público. Eu não queria agradar o público. Eu queria deixar o público se fazendo perguntas. Não era, não era entretenimento da beleza dos pássaros. Eu termino o filme, a gente faz aquela compilação das imagens do João Quental, porque depois eu quero que vocês tenham saudade do paraíso. A gente começa com paraíso, que são as imagens dos pássaros livres. E depois a gente vai vendo também que a natureza dá sinais. Quando Maraponga faz aquele som, é porque aquele som ele traz um sentimento. Então, é um pouco disso tudo. Eh, hoje assim, eu eu vejo o filme como filme experimental, mas um filme muito verdadeiro. Sim. Um filme que traduz um sentimento muito real, um sentimento pandêmico que a gente identificou aquele sentimento, mas não quer dizer que a pandemia passou e esse sentimento passou. A gente só reconheceu ele. A gente tem esse sentimento pandêmico na gente, porque a gente não tem uma pandemia, a gente tem muitas pandemias. É isso, gente. Obrigada, viu? Obrigada.
[aplausos]
>> E aí? Acho que foi, né?
>> Obrigado. Acho que foi. Obrigado, gente, mais uma vez. Privilégio. Acho que eu fiquei, eu fiquei vendo você falar que privilégio que a gente ter o autor da obra falando sobre a obra pra gente, né? Abre muitas dimensões, né? Muito obrigado.
>> Quero dar um abraço aqui nos meus amigos ornitólogos. Janjão, Janjão, tira uma foto daí mesmo. [aplausos]
>> É, tira daí mesmo. Saudade.
>> Tã. Oi.
>> Obrigada, Jã. Obrigada, gente. Muito obrigada. [aplausos] Foi muito bom. Filme está indo para a Rússia agora, gente. Não sei se eles.
>> É, aproveitar avisar que as camisas do evento, quem tiver ainda interessada, elas estão sendo vendidas só na Associação dos Amigos do Jardim, naquela casinha. Tem que ir lá, quem quiser a camisa, compra direto. A camisa do evento.
>> Ai, que legal. Eu vou comprar também. Eu vou na feirinha agora. Na na feirinha ninguém está vendendo, tem que ir até a casinha da associação, tá?
>> Entendeu? Vou eu vou vender melhor que você, Din. Quem quiser ter uma recomendação desse Avistar histórico no Jardim com Tom Jobim, Moraes, Rosa, Dirapaz, a gente teve aí. Compre essa camisa, vai valer milhões. Melhor que investir em qualquer fundo imobiliário. Compre essa camisa. O meu nome nunca teve tão bem acompanhado. Tom Jobim, Moraes, Rosa e Girapaz. Ros nunca foi tão bem acompanhado.
>> Está lá na casa do Jardim dos Amigos do Jardim.
>> Sabe fazer imediatamente, faz completamente.
>> E aqui agora quem.
>> Agora é não. Pois é. Oi, queridos. A a.
>> Vai ter uma palestra agora, né? Não, mas pode. E agora na programação. A pessoa que vai dar palestra aí. A pessoa que está aí.
>> É essa aí, Aline.
>> Mas ela está aí.
>> Eu não conheço.
>> Aline, você está presente? Aline, próxima palestrante. Aline. Ah, está aqui.
>> Não, a gente vai voltar. Jin, Jin.
>> Jin, por favor, Jin, compareça. A apresentação está no final, sobe ela.
>> Bota para apresentar porque está no final. Só para sua apresentação.
>> A gente não está no modo apresentação.
>> Pode pedir pro pessoal sentar pra gente ver o que tem de lugar ali.
>> Pessoal, pedi para quem está em pé, por favor, sentar pra gente conseguir. Alô, alô. Quem está aí senta, por favor, e vai permanecer na palestra para a gente conseguir ver a capacidade da sala. Aí, pessoal. Quem está em pé, senta, por favor. Tá bom. Gira vai voltar pro peito do pombo. [risadas] Vai voar peito do pombo. E agora, depois de a gente ter essa palestra, esse filme sobre uma ornitóloga poderosa, a gente vai ter uma palestra sobre aquela que talvez tenha sido a ornitóloga mais poderosa de todos os tempos e que também é conectada com Pará com a Dira. Então, a gente vai ter a palestra da Alene, da Aline, desculpa, da Aline Pereira sobre a Emily Netlag. Certeza que vai ser incrível. Vou ficar aqui para assistir. Obrigado.
>> Obrigada. É para passar.
>> Para baixo.
>> Tá bom. E aqui é o.
>> Uma luzinha.
>> Ah.
>> É, boa tarde, pessoal. Difícil superar, né, depois desse filme, mas eu vou tentar aqui falar um pouco para vocês sobre a Emily Netlag, que como já foi dito, foi uma das maiores ornitólogas do mundo, viu? E não é puxando sardinha dela, não. Eh, eu sou Aline Ariela, faço parte do Museu Nacional, eh, tô no meu doutorado no PPG e também faço parte como colaboradora do Museu de História Natural do Ceará, professor Dias da Rocha. Então, ops. Eh, tem como colocar sem precisar? É porque eu teria que ficar baixando, mas tudo bem. Eh, vamos lá. Então, quem era Emily Netlag? Ela foi, opa, vai dar certo. Ela foi uma grande ornitóloga alemã e ela desde criança tinha muito interesse na natureza, coletava plantas, observava aves. Só que diferente de muitas outras pessoas, né, entrando em detalhes, homens que começaram bastante cedo na ornitologia e na ciência, ela demorou um pouco, né? Ela teve uma outra carreira antes de ser ornitóloga. Ela foi professora de crianças de ensino normal, né, que antigamente dizia que era o ensino normal. Só que depois de alguns anos, ela recebeu uma herança da família dela e aí ela pôde iniciar os estudos dela. Nisso, ela se tornou a primeira mulher a conseguir o título de doutora no seu país. Eh, e em 1904 ela conclui o doutorado dela e inicia os trabalhos dela no Museu de História Natural de Berlim. Só que ela passou poucos meses trabalhando lá, porque logo em seguida o Emílio Goeldi, ele fez um convite e pediu uma recomendação do professor dela para alguém vir ao Brasil para poder trabalhar com as aves na Amazônia. E aí, prontamente, ela se candidatou a essa vaga. E em 1905 ela inicia os trabalhos dela no Museu Goeldi como assistente de zoologia. E aí ela também foi mais uma vez, né, uma das primeiras mulheres a encarar uma vaga como funcionária pública no Brasil. Ela foi a primeira em muitas coisas, como vocês vão ver nessa apresentação. E alguns anos depois ela se tornou a primeira diretora e a primeira pessoa, a primeira mulher a se tornar à frente de uma instituição científica. E consequentemente, como diretora, ela também se tornou a responsável pelo zoológico que tem no Museu Goeldi. E durante esse período dela no Museu Goeldi, ela fez diversas expedições, que fizeram ela ficar bastante famosa no mundo todo, porque na maioria das viagens dela, ela só ia com alguns indígenas, só ela de mulher. Só que por esse motivo, né, por ser mulher e por ser alemã, aconteceu a Primeira Guerra Mundial e ela teve que ser afastada. Em 1918, ela se afastou de tudo, estava sofrendo grande perseguição lá no Pará. Tavam até inventando algumas histórias nas fake news nos jornais locais falando que ela estava tirando comida dos animais. Os animais estavam morrendo no zoológico porque ela estava dando para as pessoas que trabalhavam lá. Só que isso foi investigado e não era verdade. Os animais estavam vivos lá. E devido a todos esses motivos desse afastamento do Museu Goeldi, ela recebeu um convite de um paraense que era o Bruno Lobo, um antigo diretor do Museu Nacional. Nessa época ela já era bem famosa, né? E ele fez um pedido pro ministro da agricultura, indústria e comércio na época para que ela fosse incluída no Museu Nacional como naturalista viajante. E aí, nesse período que ela inicia no Museu Nacional, ela faz algumas pequenas expedições, mas assim, mais aqui na redondeza, Teresópolis, área serrana aqui do Rio. E em 1923 ela sai do Rio de Janeiro e vai pro Maranhão. Ela vai pro Maranhão. A gente tem pistas do por ela ir para lá, porque no período dela no Museu Goeldi, ela investigava a biogeografia brasileira. E aí fora da Amazônia, ela foi para um lugar que foi o Ceará. E aí, para entender melhor como é que se finalizava a Amazônia e começava a caatinga, ela voltou também ao Maranhão quando teve essa oportunidade aqui no Museu Nacional. E aí, na ocasião, ela encontrou o sobrinho dela que era o Emílio Netlag, que na época ele veio para coletar plantas, mas passou um tempo com ela também coletando aves. E aqui a gente tem um registro, né, nessa carta aqui que ela enviou pro diretor do museu para tentar contratar o sobrinho dela para trabalhar com ela. Só que, infelizmente, como vocês.
Veem aqui no começo. Sei que o museu, neste ano, tem a lutar com sérias dificuldades financeiras. Ele não foi contratado e, depois, ele continuou trabalhando com AV, só que foi pelos Estados Unidos e, depois, mudou tudo e trabalhou com etnografia.
Já em 1924 a 25, ela passa um período na Europa, levando com ela diversas peles que ela trouxe do Museu Nacional, que ela levou do Museu Nacional e do Museu Gueld. E lá, ela estudou algumas peles e descreveu algumas espécies, como essas aqui que a gente vê: *Picus Lim*, que não foi ela que coletou, mas foi um colaborador dela que coletou e ela descreveu em homenagem a ele, que era o Queiroz Lima, um cearense. Aqui o *esclero dos Cearenses* e o *Emitricos Mirand* que ela coletou. E aqui, ela publica em 1926 um resumo desses trabalhos que ela vinha desenvolvendo na Europa.
Já em 1925, após esse retorno dela da Europa, ela faz uma viagem aqui ao Espírito Santo, se tornando a terceira pessoa a explorar e coletar aves, estudar aves do Espírito Santo. E, na ocasião, ela coletou esse bichinho aqui que não está no trio Maravilha, né, do filme, mas se tivesse um quinteto, com certeza, ia estar nesse grupo, porque é uma ave bem rara. E ela não só viu, mas ela também coletou e descreveu uma espécie que hoje não está mais válida a espécie, né? Se tornou uma subespécie, que é o *Neomorphos*.
E aqui, eu trouxe para vocês essa foto que eu achei bem interessante, que hoje a gente talvez não consiga fazer ficar tão legal assim, porque aqui é um rascunho do artigo, né, que ela escreveu à mão e aqui, o datilografado. Eu trouxe porque eu acho que não seria tão interessante fazer isso com um arquivo Word e um PDF do lado, né?
E em 1926, ela foi convidada a ser membro correspondente da Academia Brasileira de Ciências. E também, não só a Academia Brasileira de Ciências, mas em outros anos, ela também foi chamada para algumas comissões da Europa para estudar aves e discutir.
E 1926 a 1927, ela começa uma grande expedição que começa em Minas Gerais, de janeiro a julho de 1926. E depois, ela vai para a Bahia e coleta 300 espécimes. Detalhe: ela coletava sozinha todo esse material, coletava, preparava e levava para o museu. E depois, ela retorna para Minas Gerais e fica de novembro até janeiro de 27, coletando mais ou menos 750 espécimes.
Já em 1927, ela, aqui no Rio de Janeiro, ela vai para o Itatiaia e fica numa pequena expedição de março a maio e coleta mais ou menos 150 espécimes. A gente, eu tô trazendo números aqui para vocês terem uma noção da contribuição que ela teve para o Museu Nacional. Isso desconsiderando toda aquela história que ela já tinha feito no Museu Gueld, né, que também, se for colocar, aumenta mais ainda a quantidade.
E depois, ela faz uma grande jornada para São Paulo, Goiânia, Tocantins, Mato Grosso e coleta 1058 espécimes. Isso para uma mulher daquela época, hoje mesmo, já é muita coisa. Imagine naquela época que a gente não tinha tantos recursos assim para condicionais péssimos, por exemplo, né?
E em 1928, mais uma vez, uma grande expedição que ela faz a Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Mato Grosso. E ela fica de abril de 1928 até março de 1929, exercendo o cargo dela, né, de naturalista viajante. Tinha que ficar viajando mesmo e coleta 174 espécimes.
Já em 1929, ela fica no Espírito Santo, em Minas Gerais. Vocês estão vendo que ela passou por muitos, muitos lugares do Brasil, né, conhecendo praticamente todos os biomas do Brasil. E lá, ela faz apenas uma pequena coleta de 43 espécimes. Isso se justifica também porque ela não coletava tudo que ela via, ela só coletava aquilo que era do interesse dela. Então, ela passava bastante tempo sozinha na mata observando. Às vezes, passava dias para coletar uma espécie, né? Porque ela queria entender um pouco mais também do comportamento deles.
Ela, nessa viagem, subiu o Pico da Bandeira, que é um dos maiores picos mais altos, né, do Brasil. E lá, ela também se perdeu, se perdeu dos guias, passou uma noite sozinha lá no frio, sem preparo nenhum, mas sobreviveu e voltou pelo Rio de Janeiro coletando nove nove espécimes.
Logo em seguida, em 1929, ela foi para Rondônia e ficou lá de setembro a novembro e coletou 120 espécimes. Nessa ocasião dessa expedição, ela teve a felicidade de encontrar outra mulher que era Margarete Funteni, uma entomóloga inglesa. Numa das cartas dela para a família, ela menciona esse encontro que ela fala que ela tinha uma vida bem parecida com a da Margarete, né? Elas tinham praticamente a mesma idade, por volta dos 60 anos. A Emily com 61 e eu acho que a Margarete com 67. E elas duas em campo, num lugar inóspito, sozinhas, se juntam e fazem uma pequena expedição de dois dias por lá, enquanto elas estão juntas, e marcam de se ver novamente no Pará ou na Inglaterra para continuar seus estudos, porque ela teve no relato dela na carta, ela fica bem feliz de encontrar a Margarete, né? Se hoje a gente, nós mulheres encontrando outras no campo, a gente já fica feliz, imagine nesse tempo que ainda era mais solitário ainda essa atividade, né?
Só que, infelizmente, esse encontro não aconteceu porque, no meio dessa expedição em Porto Velho, ela teve um ataque cardíaco e faleceu, sendo encontrada no hotel em que ela estava.
E eu tentei colocar só três tópicos, né, de vários tópicos, que seria o legado da Snetlag. Além dos diversos artigos que ela descreveu, que ela escreveu para a gente, ela descreveu 40 espécies e espécimes, mais ou menos. Isso, espécies válidas, né, pelo CBRO. Se for desconsiderar essa questão de válido ou não, esse número aumenta um pouco mais. Ela também fez grandes contribuições para mastologia no estudo de mamíferos. Foi também a primeira mulher a trabalhar com mamíferos no Brasil. É algo que pouco se discute, mas ela também foi pioneira nessa área, inclusive sendo homenageada com o nome de diversas espécies que ela coletou.
E também o, infelizmente, o catálogo de aves brasileiras que não chegou a ser finalizado, mas que a gente tem acesso no Museu Nacional, né? Porque ficou lá o rascunho que ela estava reunindo todas as espécies brasileiras que ela tinha coletado durante esses anos e ia comentá-las, né? Fazer algo parecido com o que ela fez com as aves amazônicas.
E além disso, né, desses legados que eu citei aqui, claro, um dos principais legados dela também é a inspiração dela para mulheres e ornitólogas e ornitólogos. E essa é uma história que a gente precisa contar, recontar das Snetlag. Porque diferente de outras histórias que a gente conta, a gente quer que histórias como essa repitam, né? Como mais Snetlags, estudando aves no Brasil. E obrigada a todos que vieram aqui. E é isso. Obrigada. [aplausos] Obrigado pela presença. É sempre bom ter as mulheres, né, como protagonistas da história da ciência.
E aí, agora, eu vou dar sequência. Eu sou Gustavo Pedro, um dos organizadores do Avistar Rio e a gente vai falar um pouquinho sobre a última viagem que foi uma expedição em Parentins que eu denominei para cá como "Aves e Rios". Bernardo Pedro é meu assistente e filho, né? Hoje não é filho, é só assistente, né? E ele que vai passar os slides. Ó, deixa eu primeiro usar primeiro isso aqui, depois eu vou te passar. Quando for passar para frente, esse aqui para trás, né? Então, eu vou falar sobre a expedição que ocorreu em outubro desse mês. Foram... Pera aí, vamos lá. Vai passar ou não vai? >> Não quer passar. Não que botão? >> Não. Não, esse aqui é o é o laser. É esse mesmo. Agora foi. >> Agora foi. >> Para baixo que passa. Ah, então tá. Então é o problema de dislexia minha mesmo. Então, assim, aula. >> Eu faltei. É, então assim, eu fui contratado para uma consultoria, eh, pela prefeitura de Parentins, né? Parentins é um município do estado do Amazonas que está lá no extremo, quase com o Pará, né? E aí o nosso objetivo era... Eu era o infiltrado, tá? Eu não fui lá para fazer fotos de aves, eu era eu um fotógrafo para levantar possibilidades de turismo, de observação de vida silvestre como um todo e paisagens e locais. A gente começou a expedição subindo aqui, né? Parentins está aqui. A gente subiu o rio até Mocambo, aqui, ó, até essa comunidade. Depois a gente volta e desce o rio Mamuru, que vai até o Pará. E aí, deixa eu passar aqui.
É, então assim, só para vocês terem uma ideia, as aves estimadas para Amazonas são 100, né? Isso fonte do Ímpar, eh, Maricon Ralf. E registro que aves para o estado tem 102. E o município de Parentins tem somente 280. Por que que eu tô colocando esse número? Por conta da possibilidade real, né, da gente conseguir ter possibilidade de ver muita coisa que ainda não foi vista no município, que tem vários ecossistemas da Amazônia, né? Terra firme, várzea, campirana, enfim. Eu sou um fotógrafo, eu não sou um ornitólogo, então eu tô sempre tentando trazer para as pessoas o olhar através da beleza. Por isso que está o gavião belo aí para me lembrar da beleza.
E aí, tem duas formas de você chegar em Parentins, né? Geralmente a porta de entrada é Manaus. Eh, de avião são... é um voo da Azul, né? Um por dia, 1 hora e 15. E de barco, que essas lanchas rápidas, né? São 8 horas. >> Porque é rápido? >> Porque é rápido, né? Porque podia ser lento. Eh, o interessante em Parentins é que tem muita possibilidade de observação de aves dentro da própria cidade, né? Porque está cercado de floresta. Então, a secretária de turismo foi me receber e ela falou assim: "Ah, você, qual a sua expectativa dos lugares longínquos que você vai?" Eu falei: "Não, expectativa não. Eu já estou vendo ave desde o hotel que eu cheguei, né?" E lá é conhecido pelo festival de lendas, né? Que é o são os bois, né? Caprichoso e Garantido. Mas a gente não foi lá por conta do Caprichoso e Garantido. A gente foi lá por conta dos peixes. Sério, Gustavo, você foi por causa dos peixes? Eh, o que me levou lá foram os peixes. Eu estava infiltrado numa expedição que estava fazendo um levantamento das possibilidades de turismo de pesca e solte, que é o que já ocorre na região. Porque cada americano ou cada inglês que vai para Parentins paga em média R$ 2.000 para ficar pescando tucunaré. E o grande lance lá do município é que tem as... é o único município do... ou seja, tucunaré é um peixe amazônico, né? E é o único município que tem as três espécies de tucunaré, ou seja, as três espécies mais esportivas, se é que a gente pode chamar de esporte, eu não vou questionar aqui. Eu estava infiltrado nessa expedição para poder fazer um levantamento de fauna, flora, paisagens. E, óbvio, eu sou observador de aves. O que que eu fazia? Observava aves. Eu estava lá no porto esperando o meu barco sair. Foram 17 dias embarcado. Era minha casa. E o que que eu, o que que eu estava fazendo? Vendo lá o periquito santo pousado no barco do lado, né? Coincidentemente, era uma grande contradição. O nome do barco chamava-se "Mata Bicho". Mas eu entendo assim, eh, eh, o nome do barco se chama "Mata Bicho" porque a gente, para poder acessar essas áreas que a gente estava indo, a gente precisava ter um pouquinho de coisa ruim de cada momento, né? A gente tinha um madeireiro, a gente tinha um caçador de peixe-boi, a gente tinha um minerador. Aí você fala: "Gustavo, você é conivente a isso?" Não, eu não sou conivente a isso. Mas se não for dessa forma, você não entra. E morto, você não produz nada, né? Nem ciência, nem dados. E o Brasil é essa realidade, né? A gente vê, viu aqui a Dira falando, né? A gente não tem como ignorar a realidade do Brasil, né? Você pode fazer ativismo ambiental, combater tudo isso, mas só se você tiver informação, só se você tiver infiltrado. Então, eu era o agente, eu me senti o agente infiltrado. Eu imaginava que eu podia morrer a qualquer instante. A minha equipe em vários momentos me perguntava: "Ó, Gustavo, tem certeza que você vai fotografar isso?" Deixa para volta, né? Porque assim, pelo menos na ida você vai conseguir fotografar mais coisa.
E aí, era interessante porque passava por mim às vezes barcos com crianças de binóculo. Eu falava assim: "Poxa, que legal, já tem observador de aves aqui". Não, elas estavam monitorando o barco, quem era, para poder dizer para o madeireiro se era seguro ou não aquele barco estar entrando naquela área. Agora, o meu processo era inverso. O que que eu fazia? Eu passava o dia observando, fotografando e tal e corria no fim de tarde para ir para os colégios, para poder palestrar nos colégios. Então, assim, a gente estava naquele processo tentando evangelizar lá, igual o Guto falou na primeira palestra dele, implantar as sementes, né? Não adianta a gente ser combativo num Brasil que a cultura é uma cultura exatamente de caçar o bicho, né? Então, a gente estava falando lá, eh, eu na primeira semana eu quase não falava, as pessoas estranhavam muito, eu falo muito, né? E aí estranhava exatamente porque eu falava assim, eles ficavam o dia inteiro falando dos bichos que eles comiam, né? Não é medo. O barco chamava você "Mata Bicho". E aí eu falava assim: "Não, mas biguá vocês não comem não, né?" Aí eles falavam assim: "Biguá não, cozido, se cozinhar bem, a gente come." Ou seja, o grande mal da humanidade é a gente conseguir provar. Depois que a gente descobre o gosto e que temperado é bom, o bicho vira proteína como qualquer bicho.
E aí, claro, a gente, eh, como é que eu consegui me infiltrar nessa expedição, né? O que que acontece? Eu cheguei pro prefeito, prefeito me chamou para tratar da coisa da observação e do turismo de observação de vida silvestre como um todo. Mas como eu convencia ele de descer em terra para tentar ver algum outro bicho? Eu falei para ele: "Prefeito, qual é a maior renda do município?" E ele falou: "Maior renda do município é o nosso festival. E quem é o maior patrocinador do festival?" Aí ele: "Petrobras". E qual é o símbolo da Petrobras? Ararajuba. Vocês já viram Ararajuba alguma vez? Não. Eu falei: "Então eu vou lá para procurar essa foto". Claro que eu não fiz a foto Ararajuba, porque senão era despedido, né? Eu quero voltar muitas vezes lá. Ararajuba. Só vou mostrar a foto pro prefeito na décima expedição, senão não volto. Mas eu vi muita coisinha interessante, né? Vários bichos endêmicos da Amazônia, né? E coincidentemente alguns bichos que ocorrem no bioma Mata Atlântica Amazônia, né? E é muito interessante. Eu não sei se o Luciano Lima está aqui, mas é o grande e questão central é que a Amazônia foi Mata Atlântica no passado, né? Então esses bichos estavam lá e coincidentemente eu via muito desses bichos ao longo do primeiro porque eu já estava treinado, com ouvido treinado, né, em função do... Ó, pera aí que alguém vai passar agora para mim, ó. É esse para passar, tá? Lá. E aí assim, eu voltei dessa expedição. Pode passar, filho. Eu vou passar rápido porque o tempo é curto, não é por debaixo. Agora você está voltando. É. Passa de novo. Esse é o Beijaflor de Veste Preta. Pode passar. Pavãozinho do Pará, né? Eu botei pavão da várzea porque eu não estava no Pará, eu estava no Amazonas, né? Para não implicar. Pode passar. E eu chegava em vários momentos. O que que acontecia? Eu não tinha tempo, né? Eu estava junto com uma equipe de pesca, eh, e eu quase não tinha tempo para ficar observando os bichos, era tudo muito de passagem. E às vezes, se eu perdia a foto da ida, eu não tinha às vezes a volta, né? Agora, era muito interessante que não tinha quase garça, né? Um bicho que é hiper comum, não sei se era a época que eu fui para essas regiões, mas tinha pouca garça. Então, nesse dia que eu encontrei várias garças, pode passar, eu fiz questão de me dedicar, né? Ris era um bicho que me acompanhou a viagem inteira, né? Tanto grande quanto pequeno. Pode passar. A garça moura, sim, essa era mais comum, mas a garça branca, grande e a pequena era raro. E às vezes eu estava tentando dormir um pouco e alguém me acordava: "Gustavo, tem um bicho raríssimo". Eu corria, né, porque eu não parava um instante. Eu quase não dormia. Quando eu chegava na beira do barco, era garça branca pequena. Pode passar. E era esse bicho esplendoroso, né? Fantástico, bicho. Mas é comum aqui para a gente. Então, a gente, a gente às vezes não dá importância ao que é comum, né? E ele é comum até o dia que ele vira em comum. Ameaçado de extinção não é mais evidente. A garça real, eu só vi uma na expedição inteira. Pode passar. Todas essas fotos são ainda do norte do rio Amazonas, daquele início lá do Mocambo. Pode passar. E aí, às vezes, quando eu tinha um momentozinho um pouco mais longo, que o barco ia e voltava, eu conseguia pegar uma coisa de comportamento, mas era tudo muito corrido. Biguá, que eles disseram que refogado fica bom. Pode passar. E imagina, esses eram os bichinhos que eu queria ver, né, o tempo todo, mas também era, qual era a situação que eu vivia lá? Pode passar, filho. Eh, geralmente o que que acontecia? Eh, mesmo os pescadores saindo cedo, era tarde para observação de aves, porque lá é muito quente. Então, assim, os bichos geralmente eles estavam muito ativos antes do sol aparecer. Depois que o sol aparecia, que isso era por volta de umas 6 horas, era um inferno. Era tão quente que todos os bichos estavam na sombra, quase nada. Pode passar. Eu conseguia fotografar. Pode passar. E qual era o meu trabalho? Não era só fotografar. Eu, eu fazia contato com os ribeirinhos, né? Pode passar, para saber qual grau de conhecimento eles tinham e qual era a possibilidade real da gente voltar e capacitar os monitores para um próximo projeto, né? Não adianta falar em turismo sem ter guias, sem ter pessoas que sabem onde estão os bichos, que isso faz todo o tempo valer a pena. E aí, foi muito interessante para mim porque eu estava, eu estou agora fazendo um livro sobre manguezais da cidade do Rio de Janeiro e aí, de repente, eu falei: "Poxa, vou ver um monte de novidade da Amazônia e tal" e eu estava vendo os bichos que eu, os limícolas, né? As migratórias. Pode passar. Exatamente as mesmas que a gente vai ver aqui, né? Só que eu estava no meio da Amazônia, né? Para você ver como é que as aves conectam áreas e biomas, né? E países e políticas. Pode passar. E fazem esse universo ser tão interessante. Pode passar, né? Obaituru Sulu, provavelmente ainda com a plumagem mais reprodutiva, né? E vai chegar aqui, eh, como Mário Conralf, como eu e o Marcos Amende chamamos, que são os 100 Gracídios. Pode passar. Já quase sem cor nenhuma primária. Pode passar. Esse é uma grande questão, né? Até que ponto ele é migratório ou não. Lá as populações diziam que viam ninhos de águia pescadora lá na Amazônia. Então, até que ponto esse bicho é da América do Norte e é migratório aqui? Pode passar. Vamos lá. Bernardo, está dormindo. Vamos passar isso aí, ó. O pessoal está pedindo para passar. Agora sim. Agora sim. E esse era o ambiente que a gente estava geralmente, né? A gente estava, eu estava no lugar. Vocês vão ver assim: "Ah, Gustavo, tem muito bicho comum no Rio de Janeiro que a gente consegue observar". Mas é exatamente por isso, porque aves e rios. Porque os rios fazem essa grande conexão dessas espécies serem as mesmas, né? Os rios, a água, né? E da mesma forma, pode passar, o mesmo rio que faz isso tudo ser conectado, também isola as espécies, né? Às vezes o rio Amazonas criou subespécies ou espécies diferentes em função da dificuldade de algumas espécies que não são aquáticas ou que não vão tão longe atravessar o rio. Pode passar. Esse era um ambiente que às vezes a gente encontrava, né, esse equim de muito açaí com floresta densa. Pode passar. Tudo isso é beira de rio, tá? Eu não conseguia ir além, muito além disso. E era tudo fotografado muito rápido. Pode passar. Como vocês estão vendo, a palestra é rápida também. Esse bicho foi um lifeer para mim. Eu vi ele no final de tarde e o interessante é que ele não está na lista do IkAves do município, né? Eu não tive tempo ainda de ver a minha lista e o que que está pendente. Pode passar. Esse é outro bichinho bem legal, endêmico, amazônico, né? Não dá para chamar de sem gracídeo porque ele tem um amarelo ali, né? Mas é um bicho minúsculo. E como é que eu atraí ele? Pode passar. Eu não tinha o Eu tinha usava o Merlin, né? Não era, não sou um especialista em Amazônia. Às vezes eu botava um, uma baguncinha que é aquele mistura de cantos dos bichos da Mata Atlântica. Era pura ciência, né? Para ver o que que ia acontecer. Aí aparecia uns bichos, tipo, cara, que que esse louco está colocando aqui, né? Que que está acontecendo? Bacural de Aafina foi um bicho que a gente encontrou num ramal de madeireira. Pode passar. Maracanã-guaçu. Você vê que não tem floresta, tá? Ela já foi cortada toda, só ficou alguns topos. Pode passar. E esses eram os ramais que eu usava, né? A gente tem o rio Amazonas lá. Isso aí já, eh, começando a descer para Parentins. Pode passar. E aí, alguém já viu esse bicho no Jardim Botânico? >> Ó lá. Olha que interessante, ó. Não é o mesmo bicho, né? É a subespécie, né? É a subespécie. Esse é o tucano, o vetelinos. Vetelinos, que é a versão mais próxima do nosso Mata Atlântica, porque ele tem uns com papo branco, tem, enfim. Então, eu não podia deixar de colocar. Pode passar. >> E aí, eu navegava por esses ramalzinhos, né, curtos, com pouco tempo, pode passar. E aí tem esses bichos interessantes, como a cigana, né, que é um bicho que está lá nos primórdios lá, praticamente quase um dinossauro. Pode passar, pode passar. Isso só para mostrar como era diverso, né, os ambientes lá. A uma, né? Pode passar. Os bichos, as aves lá, eu percebia que era muito difícil fotografar porque tem muita caça, né? Então, eu conversava o tempo inteiro com caçador. Pode passar. >> Esse é um bicho que é muito fácil, né? Um bicho fantástico, com cores, com essa cor primária fantástica. E era um bicho que você observa em Parentins com tranquilidade. Você vê bando de 5, 6, se dentro da cidade. Pode passar. E não só ave, né? Macaco-de-cheiro. Pode passar, filho. Eh, Gavião-danta, né? Eu ficava sempre na expectativa de achar a anta. Eu só não sabia se eu queria achar naquele momento, né? Porque, né? Eu não sabia se o caçador de peixe-boi estava armado ou não naquele instante, mas é claro, ninguém matava nada e tal, mas eram eles que sabiam a movimentação dos bichos. Onde estavam os bichos? Pode passar. Por que que eu coloquei esse bicho aí? Porque esse bugio, esse guariba é o guariba que ocorre no norte do rio Amazonas. E aí, depois vocês vão ver a foto do bicho do sul. É outra espécie. O rio divide essas duas espécies. Pode passar. Isso é muito estranho, né? Para mim, andar nessa vegetação aí foi muito diferente, porque tudo isso é água embaixo. Eu tinha que ficar me equilibrando no meio dessas raízes, querendo não cair, né, com o equipamento todo. Pode passar. E aí, eu concentrado em não cair, de repente um bando subiu e empoleirou, né? Nesse dia eu andei mais ou menos umas 2 horas pela mata. Nesse dia eu consegui andar mais. Eu consegui uma permissão de ficar uma manhã em terra. E eu encontrei mais ou menos nesse ramal aí, que era um ramal de madeireira, uns sete caçadores no caminho. E aí, eu fiquei muito feliz de quando eu encontrei esse bicho já caminho não tinha caçador perto, né? Porque senão provavelmente, pode passar, curicaca, que não é um bicho fácil de observar lá. Esse aí foi um guia de pesca que correu, me tirou do meu canto e falou: "Cara, você tem que fotografar um bicho muito raro. Eu nunca vi esse bicho aqui." Quando eu cheguei lá, olhei: "Era uma curicaca". Mas é uma curicaca ali. Mas para lá não é comum. Pode passar. Sem essa Amazônia. Não podia deixar de colocar. Um bicho comum de lá, né? Mas é amazônico. Pode passar. E observação de mamíferos, né? Boto-cor-de-rosa. Pode passar. Boto-tucuxi, né? que é o boto deles de rio cinza. Pode passar. E aí, é, eu descendo pro rio Mamuru, né, largando as águas de águas marrons, né, que a gente fica sofrendo com as muriçocas, indo para as áreas ácidas de água ácida, que são as águas pretas, que é onde estão os maiores tucunarés registrados do Brasil. Ou seja, o recorde de tucunaré, parece que o tucunaré sul é um tucunaré, acho que de 12 kg, que foi pescado nessa região aí. Então, eu estou cruzando. Esse é o nosso barco. Eu levantei de drone. Pode, pode passar. E aí, quando eu achava, eh, quando eu achava, eh, essas fruteiras, né? Esse é um frutinho, eh, chamado, caramba, agora me deu branco. É um frutinho preto. Miri é o mirizal. Então, deve ser o miri, né? O nome do fruto. Quando a gente achava esse mirizal, praticamente quase todos os bichos estavam lá. Tanto mamíferos quanto aves estavam lá. E os caçadores gostavam muito de ficar lá. Pode passar aí. Eu vi esse bicho que eu nunca tinha visto. Foi um life para mim, né? Um bicho também amazônico. Pode passar. E era interessante o seguinte, eu não sou um especialista, então quando eu ouvi, eu sabia que era uma choca. Aí eu falei: "Ah, cara, vou botar o som da Choca da Mata, né? Vamos ver aqui o que que vai acontecer". E ela veio e aí eu fui para a listagem de bichos da região, vi que tinha ntne na região e aí eu botei a Nat, ela se confirmou, veio. Mas é interessante como é o processo de você encontrar o bicho, né? A gente geralmente encontra o bicho pelo ouvido. Pode passar. E aí, o porquê? As pessoas acham que a observação quase sempre é visual, mas não. A maior parte das observações minhas eram auditivas, né? Só que imagina um ignorante de Amazônia. Muita coisa passava despercebido. Eu tinha que gravar. Usei muito a inteligência artificial do Merlin para saber o que que era para tentar o playback. Pode passar. Eh, esse dia aí eles tinham informação de que tinha um ninho de harpia. Pode passar. Guariba aí preto. Já é a espécie do sul, né? Pode passar. >> É. E aí, esse era os campos que a gente encontrava de várzea. Eles chamam de mundo mundur essa vegetação que é uma vegetação que tem muitas raízes. Então as matrizes de tucunaré escolhem para se reproduzir. Pode passar. E aí, eu vi esse bichinho aí foi um life para mim também. Periquito de bochecha parda. Não tem, não tinha registro para o IkAves, né? Mas é um bicho que ocorre das Guianas para a Amazônia. Um bicho raro. Pode passar. E esse era o mundo encantado que eu vivia, né, de todo dia, né? Pode passar. É um bichinho bem também da região amazônica, que era bem comum, me acompanhava porque ele sempre estava na beira do rio. Pode passar, pode passar, filho. E esse também era um bicho comum, né? Eu não tinha como ir atrás de espécies muito raras, porque eu não tinha muito tempo, então eu via muito bicho comum mesmo. Pode passar. Eh, isso já no Pará, né? A gente atravessou, a gente atravessou o rio Munduru e aí o prefeito questionou a expedição nossa, falou assim: "Mas por que que vocês vão para o Pará se o objetivo é Parentins?" E aí a equipe falou: "Não, mas se a gente não souber onde estão as matrizes de tucunaré, se não estão preservando as matrizes lá onde o rio está nascendo, a gente não vai ter como fazer a operação para baixo." E aí a gente atravessou e foi para essa região que é uma região de uma reserva indígena e uma de proteção de quelônios. Ou seja, a Samiaí é uma praia que devia ter mais ou menos uns oito ninhos. Aí pode passar. E aí eu fui lá, descemos num ramal e fomos até o ninho de harpia. Estão vendo aquele embaranhado ali? E aí eu fui lá e pode passar, filho. Eu fui e levantei o drone, né? A gente teve que achar um vãozinho que é bem difícil, se era uma mata mais fechada para tentar ver se tinha harpia ou não. Eu já sabia que não ia encontrar porque assim, não tinha relatos de estarem vendo o bicho levando material para o ninho e tal. Pode passar. Eh, e aí o que que aconteceu nesse dia, pode passar, eu conversei com um guia que ia me levar, eram mais ou menos 2 horas de trilha para chegar nesse ninho e ele era um extrator de Copaíba. Então, eu fui e aproveitei e fiz as fotos da extração de Copaíba. Pode passar. Esses eram os bichinhos que a gente via, né, na beira do rio. Saíra-de-bando. Pode passar. E esse foi um fato bem inusitado para mim, né? Nesse dia a gente estava voltando de tarde, eu vi um bicho atravessar o rio e eu falei: "Cara, acelera que tem uma anta atravessando o rio". Quando eles chegaram perto do bicho e viram que era uma onça, eles pararam e falaram: "Não, é uma onça". Eu falei: "Não, cara, segue". E eles: "Não, é uma onça". Eu: "Segue". E eu não tinha mais voz de comando. A onça subiu essa vegetação, deu essa única olhada para mim e eu com barco em movimento consegui fazer duas fotos só. E essa foi uma delas. Acho que foi a onça mais bonita que eu já vi na minha vida, que ela tinha essa esse branco, né, no rosto. Bem evidente. A onça está aqui, ó. Eu sei que não é uma foto de onça, tá? >> Ela está aqui. Era. É isso. Ela está aí. A onça está aí, pessoal. Não é mentira de pescador, não. A onça está aí. Eu >> Ele confirmou. >> Confirmado, né, Bernardo? É a onça mesmo, né? Pintada. >> Eu não sei se é macho ou fêmea, mas pode passar. >> E aí, o que que aconteceu nesse dia? Eu desci atrás da onça e os os eh os caçadores, né, que eram os nossos guias e tal. Eh, no dia seguinte, pode passar, filho. No dia seguinte eu ouvi eles, eu não tinha como não ouvir, eu dormia no segundo andar, eles ficavam a maior parte deles no primeiro, né? E eles estavam discutindo entre eles, falando: "Cara, esse fotógrafo ele é corajoso, né? Ele foi atrás da onça, ele não tem noção do risco que é atrás da onça, né?" Mas, na verdade, era um risco totalmente controlado. O problema da onça é quando você não vê ela. Pode passar. E aí tinha esses bichinhos. Nesse dia eu peguei uma trilha também no ramal de madeireiro, consegui andar um pouquinho em terra firme e aí eu escutei um bicho e falei: "Caramba, não é possível, devo estar ficando maluco já, né?" Eh, porque você vê muito pouco passarinho nesse ambiente amazônico, né? Porque os bichos têm um pico muito rápido daquele primeiro horário da manhã, que é o horário que não é possível fotografar, porque é uma floresta muito escura. E aí o que que eu escutei? Cabeça encarnada. Eu falei: "Ah, não é possível. Deve ser um bicho parecido". Aí eu botei o playback "Cabeça encarnada", apareceu, eu não consegui fotografar ele porque é um bicho muito pequeno na floresta escura, mas aí apareceu esse bichinho aí, o cantador estriado. Consegui registrar ele. Pode passar. Essa era a minha realidade, né? A gente usava quando estava em terra os ramais de E assim, o pessoal anda sempre armado, né, o tempo todo. Pode passar. A realidade que a gente não tem como não deixar de contar, né? É a realidade da Amazônia hoje. Pode passar. Eh, essas eram as fotos que a minha equipe ficava receosa de eu fazer, né? Porque a gente era monitorado o tempo todo, né? Principalmente quando passava pelas madeireiras. Isso é no Pará, né? Na fronteira já do lado do Pará, né? Enfim, pode passar.
Então, queria agradecer, né, a possibilidade de estar falando um pouquinho da Amazônia. Tô aberto a perguntas. Eu queria dizer para vocês assim que o que que move a gente a fazer esse tipo de atividade, né? Sempre é o amor, né? E aí o Luiz Cláudio Marigo aqui com a Cecília, eh, aqui representando, né? A gente acha que as pessoas elas são eternas, né? Porque o Luiz Cláudio Marigo, a gente vai carregar ele com a gente sempre e ele foi um dos pioneiros. E ele uma vez virou para mim e falou assim: "Gustavo". Eu falei assim: "Marigo, quanto tempo você é fotógrafo profissional?" Ele falou: "Nunca". E aí eu falei: "Mas como assim? Você trabalha, você é o pioneiro?" Ele falou assim: "Não, eu faço questão de ser amador porque sem amor a gente não chega em lugar nenhum." Então, o que eu digo para vocês, a gente sabe que observar aves, fotografar sem amor nunca vale a pena. Então, antes de tudo, a gente tem que amar, a gente tem que preservar, a gente tem que ter cuidado com as aves, né? Como já foi falado, as aves são nossas parentes, as árvores são nossas parentes e é esse sentimento que eu tenho quando eu estou nesse ambiente e eu amo o que eu faço e é isso que me move. Obrigado. Eu estou aberto a perguntas. Se é que dá tempo, né? [aplausos]
Ô, a gente está um pouco sem tempo. Eh, o próximo palestrante está aí. >> Requer. >> Agradecer, deixa eu só agradecer. Eu queria só fazer um agradecimento, não só à organização, para parabenizar do evento, mas organizar a também agradecer o Mário Conralf, Guilherme, Serpa e todos aqueles que identificaram aves. Tem três não identificados. Então, quem quiser conversar comigo depois lá fora para eu passar essas fotos para tentar identificar, a gente agradece. Eu queria agradecer o assistente. Obrigado. Obrigado. >> Por favor, eh, a gente está bem atrasado. Eu queria pedir para os próximos palestrantes tentarem segurar nos 15 minutos. Eh, tua vez, controle? >> Não, Gustavo. >> Você ficou com controle? >> Acho que está aqui. Está aqui. >> Sim. Tá. Vou tentar falar dentro de 15 minutos. Eh, alguém me avisa, né? A hora que tiver, Gin, você me avisa a hora que tiver, hora que tiver o tempo, você me dá um aviso só para eu saber que eu estou passando. Eu faço assim. >> Ah, tá ótimo. Tá ótimo. Tá bom, pessoal. Bom, eh, meu nome é Riquera Sartor, sou professor do departamento de Biologia. Gostaria de agradecer o Henrique, Henrique não está aqui, né, mas eh está tendo passarinhada, mas agradecer o Henrique pelo convite. Eu sei o quanto que é difícil organizar esses eventos e realmente é uma coisa muito importante, né? E se não tem algumas pessoas aí que se debruçam para fazer com que isso aconteça, isso não acontece nunca e essas coisas precisam ser feitas. E aí, quando o Henrique me convidou, eu falei: "Pô, Henrique, legal, a gente vou lá, vou falar sobre os projetos que a gente vem desenvolvendo, que a gente tem muitos projetos juntos, né, onde ele trabalha com a vifauna e eu trabalho com as plantas." E ele falou assim: "Olha só, cara, tenta não incomodar muito a galera com gráficos e tabelas e análises de dados e análises multivariadas, porque ninguém está a fim disso." Falei: "Pô, né?" Falei: "Ótimo, então eu vou tentar trazer coisas que são mais básicas". Eu me lembrei, né, da da de nessa fala do Henrique, eu me lembrei de uma questão lá da roça, né, com minha minha avó tem lá um sítio e ela começa começou a dar comida para para pássaros e uma espécie que a gente já não tinha, não via há algum tempo, que eram os canários, de repente os canários, monte começou a aparecer, mas centenas e ela ficava lá, ela meu tio, né, dando comida e vendo os bichos ali, né? Aí eu lembro que um dia cheguei e falei: "Pô, pô, olha que legal, e se a gente trocasse os frutos e a gente ficasse vendo o que que ele está comendo e não sei o quê? E se a gente colocasse espécies de frutos nativos e a gente soubesse?" Aí eu me lembro que meu tio olhou e falou assim: "Olha, tudo isso é muito legal, mas a gente só quer realmente observar os pássaros". Aí eu falei: "É, realmente acho que eu estava deixando de ver o que era o mais óbvio, né? Que era tipo, claro, pô, deixar, porque a gente fica vendo as plantas e fica vendo os bichos e a gente fica sempre pensando com a cabeça de acadêmico de como é que a gente vai, o que que a gente pode fazer, como é que a gente resolve isso e não sei o quê, e a gente esquece de ver a passar aquele momento, observar aquela espécie e entender aquela espécie e ter uma interação básica com ela, que é do simplesmente observar o que que está acontecendo, né? E então isso é muito interessante. Aí eu tentei trazer alguma coisa mais básica aqui. Eu trabalho com restauração ecológica e com a parte de plantas, né? Em alguns anos eu falei pro Henrique, falei: "Henrique, vamos juntar os nossos projetos, eh, de os seus projetos de restauração com os meus." E o Henrique falou: "Pô, mas eu não trabalho com restauração ecológica, né?" Tipo, eu falei assim: "Como que você não trabalha com restauração ecológica? Está falando de pássaros, está falando de dispersão de sementes e ninguém planta mais árvores do que um do que pássaros, né? Eh, são eles que dispersam grande parte das espécies, são eles que promovem a sucessão ecológica, ah, ou grande parte da sucessão, da regeneração que ocorre, ocorre por conta dos pássaros." Aí ele falou: "Pô, nunca tinha pensado, acho que eu trabalho realmente com restauração ecológica, né?" Eu falei: "Ah, todo mundo possivelmente trabalha com restauração ecológica em algum momento, não é somente aquelas pessoas, né, que plantam árvores, né? Acho que então a gente está lá plantando árvores, os pássaros estão fazendo com que a dinâmica da floresta ocorra." Então, eu trouxe aqui, eu fiquei pensando, falei: "Pô, vou trazer algo aqui. Esse eu coloquei aqui, né, Pedro de Anote, que é o autor dessa foto que eu acho bastante interessante, não?" Eh, eu falei, vou trazer três fatos que eu acho extremamente interessantes, que é aquilo que sempre me motivou dentro da restauração ecológica, que é a dinâmica de atração de plantas, de interação entre plantas e bicho. Acho que isso é o principal que a gente tem dentro da ecologia. E tem três grupos que são muito fascinantes juntos, né? Primeiro, as árvores, as plantas. Segundo, quando a gente pensa em aves, principalmente, e insetos, né? Aí os insetos, acabei não trazendo nada para falar sobre isso, mas acho que esse ponto aqui é extremamente importante, né? Extremamente interessante uma questão de coevolução, onde frutos e avifauna surgem no mesmo momento. Então, há mais ou menos 150 milhões de anos, antes das plantas com frutos, a gente tinha pinheiros, essas coisas que não tinham interação com fauna, você não tinha.
Pássaros e os insetos que existiam não polinizavam os pinheiros. Pinheiros eram colonizados principalmente pelo vento. Então, não existia interelação ecológica muito de uma forma tão ampla como passou a ocorrer 150 milhões de anos, mais ou menos, quando você tem o surgimento de frutos e você tem o surgimento de aves ao mesmo tempo.
Isso daqui é extremamente interessante porque eu tenho 150 milhões de anos onde um grupo vem existindo em função do outro, né? Onde a distribuição de plantas facilita a existência de aves e a distribuição de plantas só ocorre quando a gente tem uma dispersão feita, né, de árvores só ocorre quando a gente tem a dispersão feita pelas aves. E isso é algo extremamente interessante.
Como é que um fruto, né, que eu acho que é uma das tecnologias mais avançadas que a gente tem, né? Por que que ele existe? Por que que uma planta vai levar tanto tempo, gastar tanta energia para produzir um fruto, né? Sendo que ela não depende daquilo, ela depende da semente, né? Ou seja, o fato de atrair a fauna, de fazer com que ela possa ser dispersa, isso é algo extremamente interessante. Eu acho que esse é o primeiro fato que eu acho muito, muito interessante e que vale muito a pena a gente pensar nessa questão de, se eu quero para dentro das cidades pensar em frutos, pensar em pássaros, eu tenho que pensar nas plantas, né?
Eh, a segunda coisa, tem uma série de trabalhos mostrando isso, né? Cidades com árvores possuem, atraem uma abundância, uma riqueza maior de aves. Isso é uma coisa muito clara. E o terceiro fato que acho que é extremamente importante aqui é que plantas zoocóricas, ou seja, plantas que são que atraem fauna, que são e sementes e frutos que são dispersos pela fauna. Eles fazem com que os animais eles venham e participem de uma forma mais ativa dentro das cidades.
Tem um trabalho bastante interessante que eu não coloquei aqui, né, depois da dica do Rajão. Falou: "Pô, não ponho fica falando de artigos científicos não", mas que eu acho que é extremamente interessante que é a diferença entre a avifauna em diferentes locais do Rio de Janeiro. E um trabalho que a gente fez o levantamento da avifauna e o levantamento das plantas do Aterro do Flamengo, Jardim Botânico e PNT. E aí que você vê que, cara, a diferença das aves é a composição da avifauna é totalmente diferente nesses três locais porque a vegetação é completamente diferente nesses três locais. E o que que a gente tem visto é que muitos animais estão fazendo a dispersão dessas sementes em áreas próximas dentro da cidade. Ou seja, elas estão se alimentando daquilo, elas estão vivendo daquilo. Se a gente quiser pensar em uma forma de atrair mais aves para dentro da cidade e uma riqueza maior de aves, a gente tem que pensar nas espécies que a gente utiliza dentro da arbolização urbana. Não somente espécies de árvores, mas espécies de, eh, de arbustos e de ervas, coisas que alimentam realmente a ave e fauna. Isso é bastante importante.
Eh, e aí eu trouxe aqui alguns exemplos, tá? Alguns exemplos de espécies, famílias botânicas que atraem muito fauna e que a gente deveria pensar eh quando a gente pensa na composição da arborização urbana ou que a gente pensa na composição de um jardim ou que a gente tá pensando em formas de paisagismo mesmo com nativas. E aí por que nativas? A interação entre espécies de aves nativas e a composição eh de árvores, ela é muito clara. As plantas elas vão estar sempre relacionadas com aqueles indivíduos que existe uma coevolução mais próxima, né? Então, quando eu tô inserindo uma espécie que não pode ser zoocórica, porém que não é nativa, possivelmente as aves não vão entender aquilo como uma possível interelação ou que elas não vão se alimentar daquilo porque elas não conhecem ou aquilo pode fazer mal para elas, assim como a gente tem visto com um conjunto grande de espécies, principalmente relacionadas a insetos, assim como a esatódia, né?
Então aqui talvez esteja o principal grupo de alimento para fauna. Cara, eu não consigo pensar em mirtáceas nativas, né, da América do Sul. É porque também a gente tem as australianas que não são de espécie por pássaros ou por aves de uma forma geral. Porém, eu tenho aqui uma coisa muito clara de eu não consigo pensar em uma espécie de mirtácea que não seja de espécie por animais, né? Eu não desconheço. E ela é muito interessante. Isso daqui é algo que faz com que grande parte das nossas florestas sejam formadas por mirtáceas.
Outros grupos que a gente tem: arecáceas, isso é uma coisa muito clara, né? Então, açaí, eh, gerivá, que é uma açaí, não, desculpa, palmito. Gerivá, que é uma espécie nativa de palmeira, de Mata Atlântica. Também não consigo muito lembrar de espécies que não sejam de espécie por animais em Mata Atlântica, em de palmeiras, tá? Principalmente em Mata Atlântica, talvez não seja a maior composição das palmeiras, mas em todos os nossos biomas, né?
Outros conjuntos que eu trouxe aqui: todas, oi. Ã, uma anacardiaceae ou o nosso conjunto de figueiras. Então, a gente tem um monte de espécies de figueira eh nativas. Essa daqui, inclusive, Lote tá olhando ali, falando nativa que tô vendo isso aí, né? Isso daqui é uma Ficus microcarpa, que é uma espécie exótica e que tá na lista de invasoras, tá? Mas esse grupo de moráceas também é um grupo que tem uma interação muito próxima da fauna.
Ou, olha aqui, eh, pimentas, né, solanáceas. Aquela foto do Pedro Jano que estava no início, né? Eretrociláceas ou Cecrópias, tá? E aí alguns problemas que a gente tem, né, dentro de cidades, na verdade, é colocar espécies que são muito próximas de espécies muito parecidas com espécies nativas e que tá substituindo essas espécies nativas. Os animais eles acabam se alimentando delas. Isso aqui é uma amendoeira, né? Que é a maior composição que a gente tem aqui, principalmente na Zona Sul do Rio, é dessa espécie e figueiras exóticas também. E aí você tem um problema: se elas estão se alimentando de espécies exóticas, elas deixam de se alimentar de espécies nativas e eu acabo quebrando o ciclo, esse ciclo de alimento e dispersão de espécies dentro das nossas florestas, porque os animais estão comendo somente espécies exóticas. Eh, isso é uma das possibilidades que a gente tem para pensar.
E aí eu trouxe aqui, deixa eu ver se se eu consigo só como um exemplo, né? O Rajão falou assim: "Cara, isso daí é uma acusação muito grave o que você tá fazendo". Falando brincadeira, né? Vai ser uma acusação muito grave, porque eu falei para ele, olha, o aumento de psitacídeos na cidade tem feito com que eles ficassem um pouco sem alimento. Então eles estão acabando com grupos de malvas todas, né? Isso aqui é uma malvácea, um xaxá que também não é nativo daqui, né? Porém não é uma espécie exótica invasora. Isso vem acontecendo com malváceas de forma geral, com paineiras, suma. Eh, bom, e várias outras espécies de paineiras que a gente tem aqui, né, Pseudobombax, que é isso daqui, eh, que na verdade é algo que tem que ser estudado. De repente, o que que tá faltando? Os animais começam a partir para opções que não eram principalmente de alimento delas, porque você tem um aumento de psitacídeos, porém você não tem um aumento do número de frutíferas pela cidade. E esses animais que não comem, por exemplo, uma amendoeira, uma amêndoa, né, da Terminalia, elas acabam partindo para essas opções. Então isso fala assim: "Ah, isso é um problema porque os psitacídeos". Não, isso aqui é um xaxá, né? Uma espécie que nem é nativa, não tem problema. Mas isso mostra que possivelmente a gente está caminhando para um processo de falta de frutos dentro das cidades e que seria bastante interessante de se pensar, né?
Essa eu peguei ali na Baden Powell, é isso? A praça que fica aqui na Gávea e eu passei lá ontem e peguei algumas com esse vento. Pô, tem milhares de frutos no chão, todos assim. Isso é um processo bastante interessante, porque não é um fruto carnoso e mesmo assim eh as espécies estão, os psitacídeos estão devorando, né? Então coisas que são interessantes pra gente pensar nesse processo, tá? Então vou deixar aqui meu contato, se alguém quiser pode entrar aí, principalmente para falar de plantas, entra em contato. E novamente agradeço pelo convite, Gin. Agradeço Rajão não está aqui, mas agradeço pelo em nome aqui do departamento de biologia. Tá bem. [aplausos] Obrigado aí. Ah, tô sozinho aqui. Afonso Henrique ama. Aí, Afonso Henrique é o próximo a falar pelo Ama. Vou passar ele para depois. Lena, você pode falar agora? >> Bora. >> [aplausos] >> Ué. Ah, Lena, >> como é que eu faço as fotos? >> É, fica aqui que eu vou lá dentro trocar. Boa tarde, gente. Olha, eu tô super feliz de estar aqui. É um lugar que eu amo. É meu quintal, Jardim Botânico. Eh, e aqui vendo na plateia meus filhos, meu marido, meus amigos queridos, meus netos, é muito mais prazeroso ainda, né? Então, essa não é a minha. Tem que esperar. Alguém falou para guardar. Ah, já tá. >> A Lena pediu para apagar essa coluna, porque como são sutis mimetismos, precisava de mais escuridão. Mas aí o mestre do cinema ali diz se pode tirar essa luz dela. Pode, >> tira um pouquinho, tá? Então, eh, o o conjunto de o tema que eu trago hoje para vocês é esse camuflagem e mimetismo, né? E tem esse nome, os reis do disfarce. Vocês vão ver porquê. Mas eh o meu interesse, né, por esse tema começou há muito tempo, numa a primeira das primeiras vezes que eu estava no Parque Nacional das Emas e me deparei, a primeira vez que eu me deparei com esse tema, né, que ele apareceu para mim, era um um filhote de bacural. Eu trouxe no conjunto de fotos, vocês vão ver. E aquilo foi tão impressionante para mim de ver de ver essa, eu nunca tinha percebido a camuflagem ao vivo assim na na natureza. E eu fiquei super encantada com aquilo, me impressionou. E eu comecei a a a partir daí toda toda a incursão que eu faço na na no mato, eu apurei, eu eu procurei apurar o olhar, né? Porque eh esse tema você não não sai de casa dizendo: "Hoje eu vou fotografar a camuflagem, o mimetismo". Não existe. Você não tem essa possibilidade. Você tem que ter sorte, você tem que ter persistência, apurar o olhar, né? Eh, depende muito de um olhar apurado, de você ter interesse. E estudar o assunto também, né? Tem que estudar o assunto porque sem você saber, né, o que que o o a razão daquilo você não não vai não vai encontrar. Bom, eu me apaixonei, comecei a estudar e aquilo me despertou. Que que é isso? O que que é camuflagem, né? E aí quando você se interessa por isso, você vai parar no Darwin, não tem jeito, né? Você vai se deparar com com Charles Darwin, que foi quando tudo começou. Eu não sei como é que passa. >> Você quer passar? >> Eu acho que >> tá. Então o Darwin, muito jovem, né? Ele fez sua viagem, aquela famosa viagem no Beagle, né, em 1832. E ele um, nos escritos dele tem uma uma passagem que fala quando ele estava aqui na floresta do Brasil, né, a exuberante floresta tropical, ele ficou muito impressionado com a quantidade, a enorme variedade de insetos. E ele ele nos escritos ele fala que eh quando entardecia o barulho dos insetos era ensurdecedor. Isso chamou muito a atenção dele eh para para isso, né? Por essa quantidade de insetos que são, na verdade, os mais vulneráveis, né, na na toda a cadeia. E eles são os que precisam se disfarçar. Eles precisam eh dos abrigos que a floresta tropical oferece, que são muitos e muitos diversos. São troncos, são galhos, são folhas, são liquens, né, que oferece como abrigo. Isso é, isso acontece ao longo, né, de de milhares de anos que um inseto faz esse e ele, o Darwin, ele teve esse esse saque de gênio, né, eh, de que a começou a duvidar da da imutabilidade das plantas, né, e dos e dos animais. E porque até então a a teoria que predominava, que que dominava era o criacionismo. Ou seja, tudo foi criado a partir de um ser superior, um Deus. Criou tudo e assim vai ser pro resto da vida, né? Só que o Darwin começa a duvidar disso e e começa a a observar o comportamento dos animais e vê que eh ele aqueles que eram mais espertos, né, aqueles que eram mais, né, ágeis, conseguiam, eles conseguiam sobreviver e tinha outros que não conseguiam, né, eh, eles eram predados. Então ele começou a elaborar tudo isso e a partir dessa observação, desse comportamento dos insetos, dos animais, ele chegou, ele fundamentou, né, ele fundamentou a teoria da evolução, que até hoje é a base da biologia moderna, né, e que é um é esse estudo, né, de de de que os mais aptos, os mais a seleção natural, né, tal da seleção natural. E é isso, até essa época, eh, era o criacionismo que predominava, que era esse essa crença, né, nesse ser superior que tinha criado tudo. E o Darwin, ele levou assim muitos anos, 20 anos ou mais de 20 anos para publicar eh seus estudos, porque ele imagina em 1840, né, 1830 e 40, eh, a pressão das da igreja, da sociedade, e ele tinha dentro de casa uma mulher super católica, quer dizer, ele era pressionado por todos os lados, né, E então era muito difícil, ele levou muitos anos. Até que chegou um ponto, né, que o editor dele que ele já era um cientista de renome, coisa e tal, mas só que ele tava aí com essa grande questão, né? E aí o editor dele falou: "Olha, você tem que publicar, porque se você não publicar, já tem outra pessoa, já tem alguém que tá chegando nas mesmas eh, né, tá tá definindo a mesma coisa, chegando às mesmas conclusões e ele vai publicar." Só que esse essa pessoa era o Alfred Wallace que que se comunicava com ele, que tinha uma relação boa com ele. E o Wallace então decidiu, o o Darwin decidiu publicar, mas isso já 20 mais de 20 anos depois, né? Então foi aquele realmente foi era de coragem, ele tinha que ter coragem para fazer isso, né? Ele dá, ele ele, ele dá muitos créditos ao Wallace, porque realmente o Wallace estava, tava chegando às mesmas conclusões que ele, mas se comunicavam. E ao mesmo tempo, nessa época, estava na Amazônia um grande pesquisador chamado Henry Bates, que veio com Alfred Wallace, né? Eles vieram juntos para fazer estudos também já da dessa ideia de evolução da eh e aqui o foi para foi para um canto e o o Henry Bates foi para outro. E o Henry Bates, nessa mesma linha de estudo, ele chega no no mimetismo, que é uma, daqui a pouco eu falo, vou vou ver se eu consigo começar a mostrar.
Então, olha só, aí eu queria que apagasse um pouquinho a luz, essa segunda luz, senão ninguém vai ver nada. Não dá não. Ah, já apagou, né? Já apagou, >> então tá bom, né? >> Dá para ver. [risadas] Legal, porque isso assim é o desafio do fotógrafo também tem isso, né? Eh, você tem que na foto mostrar o bicho e mostrar a camuflagem, né? E na natureza você tá andando e às vezes você não vê, você simplesmente [risadas] não vê. É uma coisa maravilhosa. Olha só, olha o padrão da da do rabo dele, do o É, eu acho impressionante. Isso é impressionante, né? Eu quando vi fiquei isso, você vê assim, eh, você tem que focar, né, o olho e a e a câmera, mas tá num ambiente grande de folha, de tronco, você passa batido. Agora tem que tem que chamar atenção também para uma coisa, né? O predador ele também tem que ficar ligado, ele também vai se aperfeiçoando, né, para poder senão ele morre também, né? Então aqui é o exemplo que eu falei que foi o primeiro, minha primeira eh me deparei a primeira vez com esse fenômeno da camuflagem foi esse bacural aqui no no Parque Nacional das Emas no cerrado, né? Eh, o cerrado tem essa característica, né, de ser meio marrom, meio bege, queima e refloresce. Tem isso, né? Então o esse filhote de bacural eu quase pisei nele porque ele estava igual igual e aos troncos que estavam caídos ali. É impressionante. Bacural tem isso, né? Porque bacural é um é uma ave noturna. Então durante o dia ele tem que ele tem que se esconder muito para não ser comido, né? Então, uma característica do bacural é essa.
Esse outro bacural, olha só, gente, esse bacuraluzinho aqui, ele é bacuraluzinho mesmo. O nome dele popular é bacuraluzinho da catinga. Ele tem 16 cm. É uma um negócio assim e todo clarinho, né? Porque é o ambiente da catinga, aquelas pedras brancas clarinhas. E você e com esse bichinho você aqui tá a foto, a gente vê, tá ali o bicho, mas ó, em no local você para achar um bacuraluzinho desse, às vezes tem três assim no num ambiente e você não vê. Eu estava com Ciro Albano, que é o grande pesquisador, fotógrafo de da Catinga, né? E o Ciro falou: "Lena, você não tá vendo?" Eu falei: "Não tô vendo". Aí ele fala: "Aí ele me mostrou mais ou menos onde estava. Caramba, quer dizer, o olho do Ciro já está apurado, né? O Ciro não sai da catinga. Agora parece que ele está até abrindo para outros outros ambientes, né? Amazônia, mas ele é o cara da catinga, né? O primeiro guia mesmo que a catinga tem. E a catinga precisa e merece, que é um ambiente, é um bioma muito desvalorizado, né? Um bioma único que nós temos na natureza é a catinga. É o único que é totalmente, né, totalmente brasileiro. Os outros estão sempre em conexão com, né, eh, com com outros biomas. Então, é impressionante como é que chega o padrão da da plumagem com com o desenho da pedra, você não vê, você não enxerga. É muito incrível.
Aqui é o e o famoso, né, bicho pau, que tem muitas espécies de bicho pau. É, o bicho pau é um é um bicho [risadas] que tem muito muitas muitas espécies assim variadas. É, >> tem que andar com pau. >> Tem que andar com pau. É aqui, olha só, esse esse bicho pau, ele não, ele tem as raiaduras, né? Essas raiadurinhas que tem um bambuzinho, uns galhos. Tem. Ele tem cara. E esse aqui nem falo, né? Porque eu nem sei onde é que ele está. [risadas] É um pau, né, cara? O bicho pau é um pau. É impressionante isso. É impressionante. O ali eu não sei onde está o olho. Se é aquele lá em cima, se é embaixo, não sei. Só sei que a que quando eu encontrei, eu fiquei assim, eu estava fazendo um trabalho na Paraíba sobre rendas, sobre bordadeiras. E aí, cara, esquece um pouco, mas não vou deixar de ficar correndo atrás desse bicho pau. Lá naquele, como é que era o nome daquele sítio arqueológico que tem lá? Lindo na Paraíba, aquelas o sítio arqueológico famoso, hã, >> Ingá, né? É, é impressionante esse sítio. E, e aqui saindo do, da catinga, que também é branca, porque catinga quer dizer mata branca, né? Tinga é branco. Aqui é restinga, que também é é é o a terra branca, né? E são esse aqui é um é um lagartinho, um lagartinho que realmente para você enxergar esse lagartinho não é mole não, cara, porque ele é um lagartinho, né? E na areia branca, você não vê, cara. Eh, e eu estava, no caso, eu procurei o pesquisador da UERJ e esse pesquisador estava estudando esse bicho. Então, eu fui com ele para para Maçambaba e lá em Maçambaba você consegue fotografar um um lagartinho com o pesquisador junto, que senão você não vê também. É incrível. E ali uma aranha que eu também, essa eu não identifiquei ainda, também foi na nas areias da restinga. E eh e é isso. Esse esse Liolaemus lutzae, esse lagartinho, ele está ameaçado de extinção, né? Porque não tem as restingas são pedaços de terra na beira do mar e todo mundo quer uma casinha na beira da praia, né? Já diz a canção na Marambaia. Eu tenho uma casinha lá na Marambaia ficar na beira da praia, porque todo mundo quer uma casa na beira da praia, né? E aí a casa do do Liolaemus vai embora. É que nem essa fruta que a gente tem aqui no Jardim Botânico, que é a Eugenia copacabanaensis. Ela tem esse nome de Eugenia copacabanaensis por causa disso, porque ela era toda orla de Copacabana, Leblon, Leme, Ipanema, é, é cheio de de dessa fruta que aqui eles chamam de cambuí, cambuí amarelo, eu acho. Mas lá em Cabo Frio, que eu sou de Cabo Frio e comi muito essa fruta quando era criança, a gente chama de Bapuana, mas é a Cambuí e a Eugenia copacabanaensis. Agora nem sei, eu acho que talvez em Maçambaba encontre um pouco, mas então é a importância de preservar, né, essa das unidades de conservação. É muito importante que senão você perde e essas referências, essas esses animais que são importantes aqui. É um um lagartinho também, o Anolis fuscuratus. Olha o corpo dele é igual, é igual o tronco, igual o galho. Tronco não, galho. Isso foi na na reserva de de Caetés, no Espírito Santo, onde eu fui para fotografar, sair a punhalada e >> consegui consegui vê-las de longe. Primeiro que é um grupo pequenininho, né? O grupo é muito pequeno. Segundo que chovia cântaros. terceiro, que tinha uma neblina além da chuva, uma neblina maravilhosa. Então, elas passaram lá longe e eu sabia que era elas porque também eu estava com Gustavo Manhago que me fala: "Olha elas lá". Ah, olha elas lá, entendeu? Foi assim, ah, pastor. [risadas] Eu fiquei, eu fiquei lá os uns três, dois ou três dias tentando, né? Acordava cedíssimo na chuva. A gente na chuva e na na neblina. Não, mas vai melhorar não. Mas ela vai aparecer. Não vai melhorar. É, tá bom. Vai melhorar. E apareceu aí esse esse meu lagartinho que me deixou feliz. Eu vim para eu voltei pro Rio feliz porque enriqueceu a minha coleção de camuflagem. Tá tá ótimo. Ele com aquela carinha assim muito garantido ali, né? Tá super, [risadas] tá garantido na camuflagem dele. É muito legal.
Outro lagarto. Esse foi no Parque das Emas também. Uma viagem que eu fiz com Coa. Nossa, faz muito tempo. >> É. E aqui, ó, eu cheguei eu vi esse lagarto, ele estava em cima de um tronco caído. Eu vi esse lagarto e cheguei, fui chegar perto dele. Ele, ele só assim, lagarto olha assim, né? Fica olhando assim. Aí olhando assim, aí quando ele me viu chegar muito perto, olha só, ele mudou de cor na hora. Na hora ele ficou de outra cor, cara. Eu vi a transformação que coisa, que coisa louca, como é que pode a assim instantaneamente ele dá um comando é esse que ele tem, né, para para se tornar invisível ou pelo menos pensando que ele para para mim ele não estava, mas pro predador ele fica, né? É muito impressionante isso. É impressionante. E isso aqui eu estava na na Serra do Tingua também. Excursão com Coa e numa parada que a gente deu para aquela paradinha que a gente dá para descansar, comer um sanduichinho, eu já tinha comido meu sanduíche e muito fissurada que eu sou, né, de de fotografar, deixei o pessoal meio descansando e fui eh andar na beira do rio. E aí, cara, no que eu fiz assim, eu já estava com esse olho treinado para camuflagem. Eu vi essa eu vi a cobra, eu fui me fui não pisar nela, né? Caí, né? Felizmente não me machuquei, nem quebrei o equipamento, porque a gente é fotógrafo de de defende mais o equipamento do que a si próprio, né? Levanta, faz qualquer coisa para não quebrar a máquina. Mas aí eu, aí eu fui procurar o PS. O PS estava comigo e eu falei: "PS, tem uma cobra". Fotografei a cobra primeiro, né? Aí fui procurar o PS. PS me vem cá. Aí o PS foi lá, falou: "Ih, Elena, isso é uma Bothrops, isso é uma jararaca perigosa e você se livrou de um de um problemão, né, de um risco, né?"
E aqui a iguana, que eu acho também além de linda, eu adoro iguana, acho tão bonita. Ela também, cara, ela tem um padrão que ela ela vai se ela vai na tua frente, vai mudando, porque sabe, dependendo da incidência da luz, ela fica mais clara, fica mais escura, ela e sabe, ela se confunde. Você às vezes está muito perto porque você não viu a iguana, porque ela fica parada assim e e você chega muito perto e não vê. É linda. É, eu adoro iguana. E olha, olha isso, gente. Olha, olha isso. O que que aqui dá para ver? >> Uma lagarta, né? Também isso. Se você olhar, parar, esperar a luz ficar legal para fazer uma foto que mostre a lagarta e mostre a sua. Ele, o predador passa aí e não vê, cara. Porque aí tem isso, né? O predador também tem que apurar muito para para ver que eh para como para se alimentar, né? Para se alimentar. É impressionante. Ela tem e aí isso era tinha um pesquisador chamado Luiz Otero, lembra Dagobert Luiz Otero. Ele morava lá na Rural. Como é? Pendotiba, né? É Pendotiba. >> Seropédica. Seropédica. >> Toda vez que eu vou falar Seropédica, eu falo Pendotiba. Sei por, cara. Aí ele tinha um borboletário lá maravilhoso, cara. Fantástico, cara. O borboletário dele. Ele era um estudioso incrível. Ele morreu ainda muito assim jovem, né? Não me lembro quantos anos ele tinha, mas era um, sei lá, estava com 50 anos, 50 e poucos. É muito jovem para mim. É muito jovem. E aí ele me permitiu fotografar, eu quis, eu quis fazer uma foto com o fundo que destacasse eh para porque é tão complicado você aqui, você quase não vê onde é que está o fungo, os liquens e a lagarta, né? Então eu queria ver, mas ela ela tem no corpo dela, né? Coisas como se fossem líquens. É, é, eu quase acredito em Deus. Tô quase acreditando. [risadas]
>> Essa também é outra, né? Essa essa essa mariposa, né? Borboleta. Borboleta. Você borboleta. É uma Madreas. Ela tem muito aqui no Jardim Botânico. Quem frequenta, quem anda por aqui, eh, né? Sabe que ela ela chama estaladeira porque ela faz o barulhinho. Não sei, não sei se é com a asa, se é com não sei. Acho que é com a asa, né? Com a asa, né? Fin e ela faz um barulhinho e ela quando ela encosta no tronco, ela ela você quase não vê também, porque aqui o limite da asa dela pro tronco é mínimo, né? É muito sutil. E aqui ela estava com algumas pessoas que eu mostrei dessa foto não conseguiam ver a borboleta. Vi a sombra. Não. Então eu tô vendo uma coisa escura assim. Eh, e e na e às vezes ela ela aí ela está com corpo levantado, né? >> Agora ela chata. Quando ela chata e fica no tronco, você não vê. Você passa realmente do vê. Tem aqui no Jardim Botânico, tem a o genipapo, um pé de genipapo que fica perto da pontezinha, do lado da pontezinha de que vai para a restinga, tem um pé de genipapo ali que sempre tem muitas estaladeiras ali, azuis tem as azuis e tem essas que se camuflam muito bem. As azuis são as azuis são lindas, né? Eh, tem umas pintinhas pretas, é super bonito. E olha essa também, olha que olha que requinte, né? O as asas dela imitam folhas que estão meio verdes e meio secas. É negócio de um, né, requinte. Isso é requinte. Eh, para chegar aí, né, quantos milhares de anos se passaram. E aí, e atrás ela ainda tem aqueles olhos, aqueles falsos olhos de coruja, que também é são para assustar predador, né? Esses falsos olhos são para assustar, porque o predador gosta muito do quando ataca, ataca no olho, né? Eh, o olho é o lugar que vai derrubar a presa. Então ele atacando, ele no a quando ataca no falso olho, ah, dá tempo da borboleta fugir, né? Então não ela não, ele não pega. Gente, reparem que na a gente vê muita borboleta na mata meio comida na asa, né? Porque tem, às vezes tem esses falsos olhos que enganam o predador. E essas e essas folhas, essas asas folhas também é negócio de louco, né? Olha essa outra borboleta. Eh, porque no na natureza tem borboleta, tem folha verde, tem folha marrom, tem folha eh meio seca, meio verde, tem folha amarela. E essa era uma borboleta eh com a folha parece, olha o detalhe aqui do finalzinho da folha. É demais. É muito demais, né? Incrível. E eu estava, isso aí foi na boca, né? Eu estava até com o Daniel Melo, não sei se ele lembra. Eh, e a gente, eu vi essa borboleta e fiquei impressionada. Até hoje eu não identifiquei. No caso, aí ela não estava, ela estava assim mesmo. Eu fotografei ela assim. Até queria. que ela fosse pro chão, mas ela não foi. Queria fazer ela mostrar ela camuflada, né? Mas ela não foi pro chão. E aí estava uma um pedaço alto da folha, não teve jeito.
E esse ser absurdo chamado Jequitiranaboia, que é um negócio de louco, ele tem esses falsos olhos, né? Tem os falsos olhos, tem essa camuflagem na na parte da frente e tem uma cara, ela chama jequitiranaboia ou cobra voadora. Porque eu eu ainda não tive essa oportunidade de encontrar a a Jequitiranaboia e ter e fotografar ela de lado, a lateral da cara dela. É uma cobra. É uma cobra assustadora. É impressionante. Procurem, se vocês se interessarem, procurarem no Google, jequitiranaboia ou cobra voadora, ela tem uma cara que assusta essa parte comprida, essa parte da cara dela é uma cara comprida. De lado é uma cobra, uma cobra. E e aí você vai mexer e ela sai voando, né? A cobra voadora. É muito doido, né? Eu quero, se alguém encontrar e puder me avisar, eu quero eh e aqui é o a duas dois exemplos de folhas, a folha muito seca e a folha verde, né? Então tem folha vermelha, tem folha amarela, tem folha seca. Bom, meu tempo parece que está curto, vou falar rápido.
E aqui a camuflagem também entre os mamíferos, né, que é imagina um bambizinho desse uma onça achando que festa, né? Então, eh, esse cerrado é todo avermelhado, então facilita essa essa camuflagem. E aquela aranha da Amazônia que eu ia me encostando e o índio que estava comigo me salvou na hora, sabe? Eh, porque eu não sei que aranha é essa, nunca identifiquei, não sei se é venenosa, mas mesmo não sendo venenosa, se mordesse ia ser um problemão, né? Um problemão. Mas é também você passa despercebido. Agora esse gente, eu tenho que falar, não é possível. Esse é o ninho de Florisuga fusca que tem aqui no jardim, é nosso amigo no Jardim Botânico. Esse ninho é impressionante porque ele o o esse beija-flor é um beija-flor, né? Preto e branco. Ele ele faz um ninho em cima de uma folha grande. Eu nunca vi isso. Ele não tem proteção, não fica escondido. É em cima de uma folha grande e por mais ainda baixa. Eu eu vi esse ninho olhando assim, eu estava andando na trilha, olhando assim, eu vi aquele bolo meio bege. Falei: "O que que é isso?" Quando eu cheguei perto, uma coisinha se mexeu ali no meio e aí eu vi que tinha dois filhotes de beija-flor. Então, eh, eu não sei, eu já vi aqui no Parque da Tijuca também, mas aqui no Jardim Botânico eu nunca vi. Agora, uma dúvida que eu queria muito que os biólogos aqui me ajudassem, se acabar, ele só faz ninho com um uma uma elemento, uma um material, um material que é essa essa paina laranja e uma teia de aranha para dar a liga, né? Mas se acabar essa, se houver um desmatamento acabando essa, essa essa árvore, acaba acaba o Florisuga ali, acaba o beija-flor. Biólogos depois me falem, tá bom?
Outro aqui também são exemplos de camuflagem, né? A perereca foi no Camorim, aquele sapinho Tщатаia e esse sapo cururu no Amapá. Todos também teria uma historinha, mas meu tempo está estourando. Bom, aí a gente chega, né, na perfeição total da camuflagem, que é o urutau. Essa é a perfeição total. Eh, o urutau ou mãe da lua, a camuflagem dele é tão perfeita, é tão perfeita, que ele tem um olho que não precisa abrir para enxergar. Esse não é incrível. Ele tem uma fenda vertical. Ele tem uma fenda vertical que ele vê tudo sem precisar abrir o olho. Isso é muito louco. Agora, para mim, mais louco é quem descobriu isso. [risadas] Professor Sick, o Helmut Sick, o monstro da ornitologia e que falou isso, né? Descobriu isso. Eu não sei como que ele descobriu isso. Ai, meu Deus, meu tempo acabou. Tiraram. >> Você foi demitido. >> Demitido. [risadas] >> Não falei sobre mimetismo. Não falei sobre mimetismo. Ah, [aplausos] eu nãoi. [risadas] Foi quem? Gente, não fui eu, não, tá? [risadas] Não foi macumba de alguém da mesa seguinte, que aliás eu vou chamar, né? Não fui eu. Próxima mesa, acho que a parte não já está presente, o Parrini, irmãos Melo, Guilherme. A gente teria agora o coffee break. que o cofre está acontecendo lá no galpão, mas a gente não vai fazer a pausa de meia hora porque está muito atrasado. E aqui o museu precisa fechar às 6 horas para arrumar tudo, etc. É uma data, é um horário que a gente não pode passar. Então, para garantir que todos os palestrantes tenham o tempo hábil, a gente está dando essa certa corrida. Eu sei que o Parrini estava aqui agora. Ah, sim. Então, por favor, eu vou ter que descobrir o que aconteceu com o projetor. Projetar nada não. Então, >> eu sei, mas eu vou botar um fogo que a nossa não tem, >> a nossa não tem projetor. >> Aí, ó, voltou para cá. Ele faz a abertura aqui, ó. Botar uma cadeira aqui. De lá, acho que está mais fácil. Não, está igual. >> Bota lá. PS, deixa eu entrar, >> mestre, você começa. >> Você vai ser o primeiro. Você foi escolhido. Aqui escolhido. Mas logo eu. >> É, >> não é só você, >> não. É porque a gente vai fazer uma questão geracional aqui. É, >> então sobre o trabalho do guia do observador de aves, você pode falar um pouco do teu histórico e a gente vai porque você influenciou o Guilherme e, né, de uma certa maneira o Guilherme influenciou a gente porque a gente foi o primeiro passarinheiro que a gente conheceu ao vivo. Então vamos embora. A gente >> tá legal. >> Sai aí >> falar do você quer que eu fale do >> como é que era guiar, né, no nos tempos antes de, né, dessa tecnologia? Você não trouxe equipamento aí? >> Trouxe, trouxe equipamento aí. >> É, então vamos lá. >> Boa tarde a todos. Eh, muito especial essa reunião aqui com meus amigos, irmãos Melo e Guilherme e todos vocês também com a gente. Eh, o Daniel pediu para eu começar falando que eu guio há mais tempo no no estado do Rio e no Brasil de modo geral. E eu comecei, na verdade em a guiar, eu comecei em 95, eu acho, 96, que eu observava aves desde 85, desde a 80, mas eu comecei a trabalhar como guia em mais ou menos em 95, né? Naquele naquele tempo não tinha muita gente trabalhando com isso ainda. Então, as dificuldades e o trabalho de modo geral era diferente, né? A gente ainda não tinha, ainda não tinha o celular de uso assim como aparelho para chamar as aves e binóculos. Ainda tinha tinha alguns modelos, mas não era tanta coisa de de tecnologia como a gente tem hoje, né? Então eu trouxe até um aparelho aqui que eu trabalhava segura >> Fernando Pache conhece bem, né? O >> esse aqui, né? Esse aqui >> eu tinha o microfone, o microfone que eu pendurava na cintura com essa cartucheira, né? >> Deixa eu tirar o microfone pro pessoal ver. Aí eu andava com isso e com uma bolsa cheia de fitas cassete com os playbacks que eu tinha a alternativa de gravar e chamar o passarinho, gravar o canto e chamar ou usar uma das minhas fitas caso o passarinho tenha calado em outras oportunidades assim. E e funcionava bem, até que o resultado era razoavelmente bom. E que mais que a gente pode falar do eh o o eh outra coisa que também na década de 90 eh não tinha, não existia ainda era fotografia, né? Hoje em dia, de principalmente de 2007 para cá, você tem muito fotógrafo. Naquela época eu não trabalhava para fotógrafo praticamente, eu trabalhava só para aqueles birdwatchers mais eh hardcore e também de observadores mais daqueles mais tradicionais que vinham só com binóculo, né? Não existia ainda a fotografia, a câmera. Então era, tô contando aí só para ilustrar essa fase da observação de aves, tanto no Rio de Janeiro como no Brasil, aa, né? Então, então a que que tem mais que eu possa falar? >> É, guias de campo. Guias de campo também não eram não eram tantos. Eu cheguei a usar até no início de 90, não é, Fernando? O guia do A gente chegou até a usar o guia do Dalgas, né? >> É de 81, né? >> De é de 81 até 90 >> também não era? >> É >> 92. >> Isso 98 98. Não, eu não tô me lembrando mas tudo bem. Os guias não eram tão completos ainda, >> tão ricos. Mas e também os lugares de que você tinha para observar, os parques e tudo, ainda não estavam bem preparados com com alimentadores de aves, né, que hoje em dia você tem uma facilidade muito grande com os feeders, né, para voltados até para fotografia, né, naquele tempo tinha que caminhar mesmo e descobrir as coisas pela mata, pelas trilhas, sem a ajuda desses alimentadores do que facilitam muito hoje em dia, né? Hoje em dia tem garrafas de beija-flor, comedores com frutas e tem até alguns lotes que trabalham com com insetos, com >> com é aquele voltado mais para aves insetívoras, né? >> É feeders. Ha feeders, né? É. Então, na sua época no Rio já que locais que você visitava >> os hot spots principais. >> É, os hotspots e Tatiáia e Serra dos Órgãos sempre foram dois lugares de que eram os hotspots naquela época. Inclusive o hotel IP tinha comedores, era um dos únicos hotéis que tinham essa esse atrativo, né, de de comedores. O hotel IP sempre foi um dos aquela época era o hotel IP, eu acho que era o mais visitado no Rio de Janeiro por observadores de aves, sem dúvida. Serra dos Órgãos. >> A vamos falar da régua. do Nicolas começou, a régua começou em 2000 e 2001 também a régua, fazendo esse essa conexão, esse papel seguindo uma linha bem importante na observação de aves do do no Rio de Janeiro, né? Que mais do >> Acho que dá já pra gente passar pra transição pra próxima geração com certo, >> tá legal? Contando como é que foi a a mudança, né, o que que ele percebeu de quando começou e como foi essa influência, né? Boa tarde, gente. Eh, para quem não me conhece, eu sou o Guilherme Serpa, biólogo de formação, mas atuando agora como guia de observadores de aves. Aí, contando um pouco como eu como eu surgi,
Eh, acho que foi, né, o primeiro ano da faculdade de biologia. Eh, era época do do Orkut, das comunidades do Orkut. Aí conheci o Ricardo Galharde, que que não tá aqui, e o Fernando, né, Pacheco, que me seduziram aí para para essa para essa atividade, né? Também fiquei, eh, tomei conhecimento da das saídas do do COA, do Henrique, aqui no na Jardim Botânico. Eu, que no início queria trabalhar com com bicho em geral, eu vi, ah, eu vou seguir essa linha da da ornitologia. E eu tive a sorte de que no no eu tava pegando o início da da era digital, né, da da observação de aves. Estavam surgindo as câmaras digitais, as primeiras plataformas, redes, redes sociais. Na rede social daquela época era o Multiply. Foi assim que a gente se conheceu.
Site, novidade da janela.
>> E é é e o tinha uns grupos de, ahu, eh, novidade da janela, mais especificamente aqui do do Rio de Janeiro, né?
Eh, quem mais?
>> O site AV do Brasil.
É, o Aves do Brasil eu não, eu não cheguei a usar muito não. Eh, ele era o percursor do Ikiaves, mas eu fui um dos primeiros a me inscrever no no Ikiaves, a a carregar várias fotos lá. Várias fotos assim com com primeiro registro eram meus assim, bichos até meio bobos, como Falcão Peregrino e tal. E, mas no início eu não pensava muito em guiar. Eh, eu queria mais era trabalhar com consultoria. Até o Fernando me chamou para para alguns trabalhos como auxiliar dele. Primeiro foi foi no Tocantins, depois foi lá na Agropalma, né, no Pará. Aí depois foi a gente foi numa junto, né? Tive esse privilégio de ter
>> esses dois mestres em campo juntos.
>> Foi na Bahia.
>> Foi na Bahia. É um mês quase. Isso foi em 2009, início de 2009.
>> E aí eu continuei nessa área de de consultoria mais, né? Aí essas coisas da vida e tal. Eh, eu não não pensava, eu só guiava assim esporadicamente quando me requisitavam. Eu eu não me anunciava ainda como como guia de de observação de aves. Aí até que eu vi que vários, comecei a perceber que o mercado de consultoria tava entrando em decadência, tava parecendo muito pouco trabalho, pagando mal, as condições de trabalho eram ruins. E eu tava vendo várias pessoas da minha geração trabalhando já como como guias. Eh, o André de Luca, o Bruno Renó, o Guson. Aí foi a partir de final de 2022 que eu comecei mais a a trabalhar como como guia efetivamente. Ah, também, eh, me chamaram para participar daquela aquelas lives da que surgiram na época da pandemia, né, do Brasil Silvestre, com os guias e os seus roteiros. Aí ali eu já praticamente foi oficializei que eu tava já trabalhando também como como guia, né? E, então, e, mas efetivamente eu trabalho mais como guia de bote, como como consultoria. Consultoria faço muito raramente ainda, né? E, e agora eu tô trabalhando mais como um guiando estrangeiro, guio também brasileiro, né? Principalmente os amigos aqui do do Rio, mas guio também estrangeiros que ou algum outro colega, o Ricardo me passa algum cliente que ele não pode pegar ou o Ricardo Barbosa também, que é um guia um guia bem antigo aí dos locais. Eu também lancei ano passado meu meu próprio site com os meus roteiros pela passarinem web. E é isso. Eu lembro que para introduzir a próxima geração, pelo menos, eh, assim de de idade, né? Porque eles acho que eles já trabalham mais efetivamente como guia antes de mim. Eu, uma das primeiras passarinhadas assim que eu que eu fiz em Guapimirim, eu eu conheci pessoalmente os irmãos Melo, que a gente conhecia de Multiply, né?
>> É, no início era chamado de irmão de limoeiro.
É. E a gente combinou uma passarinhada lá na área deles lá no no com o domínio dos avós deles, foi com o Luío Derizanes, né, que foi, nem sei se tá vivo ainda, morreu.
É mesmo? Não sabia.
Eh,
>> a classe tá sendo chamada.
[risadas]
>> aí. E vocês na capa só filmavam, né?
>> Não tiravam foto.
>> Eu lembro daquele instalador que a gente viu lá na na trilha.
>> Tá lá até hoje.
>> É. E eu fotografava com uma Sony H50. O início era era a minha segunda câmera compacta, mas desde uns quatro, não, não, foi 2010 que eu comprei a a minha primeira DSLR, mas lente profissional mesmo, eu tenho já só há uns 5 anos atrás, aí vou melhorando a minha minhas fotos, né, para ilustrar meu meus trabalhos, meu, eh, o Instagram que é um é um chamariz, né, para para atrair o o público observador. É isso. Vou vou passar aqui logo para uma.
>> Eh, quando eu mencionei o o Itatiaia e Serra dos Órgãos como principais, eh, lugares de observação de aves, esqueci obviamente da Floresta da Tijuca, né, que é um lugar mais perto, mas é um sempre foi um lugar bem interessante para para observar aves. E o Jardim e o Jardim Botânico também. Floresta, Jardim Botânico. Tá, esqueci aí do de de dessas localidades.
Bom, eh, boa tarde a todos, né? Eu sou o Gabriel Melo e juntamente com o Daniel, né, a gente começou a observar em Guapimirim e somos quase contemporâneos do Guilherme, né? Porque eu acho que ele tinha começado a observar poucos anos antes da gente.
>> 2006.
>> Pois é, você começou em 2006, a gente começou no final de 2007. Então, assim, a gente começou na região de Guapimirim e a gente sempre foi muito interessado em tentar identificar as aves, né? Começamos filmando os passarinhos e pouco tempo depois da gente ter começado a observar, a gente queria fazer um fizemos um site, né, das aves de Guapimirim, que esse projeto depois ampliou e acabou virando um livro, né, eh, que foi o Aves da Serra dos Órgãos e Adjacências. Então, a nossa observação no início, ela foi bem concentrada ali, mas assim, eh, por conta dos amigos que a gente começou a fazer no mundo da observação de aves, né, virtualmente, depois pessoalmente, o Guilherme foi um pessoal do COA lá no condomínio também, a gente começou a fazer saídas para lugares ali próximos, né, e também no Rio de Janeiro. Por exemplo, a Régua foi um dos primeiros lugares, né, que a gente a gente se especializou assim fora do daquele contexto de Guapimirim. E foi um grande aprendizado, né? A gente conheceu o Adlei, que foi o nosso mestre, né? O guia Adlei, e a gente acabava andando com ele, ele guiando o estrangeiro, né? E a gente acompanhava ele. Eu acho que a Régua foi o lugar que a gente meio que começou assim a ter essa experiência de do que que seria fazer um trabalho de guia, né? E depois, enfim, a gente acabava, eh, eventualmente guiando alguns amigos que iam visitar a região, eh, da Serra dos Órgãos, principalmente Guapimirim. E a gente foi pegando essa experiência assim, paralelamente esse trabalho de foto, de fazer o primeiro livro, depois o segundo, a gente foi começando a fazer trabalho de guia também. E a gente pode dizer que começou a guiar com mais frequência, talvez em 2022 também, depois da pandemia, um pouco antes a gente já guiava, mas depois da pandemia a procura foi maior, né? A gente percebeu que teve uma, eh, o Rio de Janeiro começou a ser mais conhecido como um destino de observação de aves. Antes que era muito concentrado no Itatiaia, né? Depois a Régua surgiu e ficou Itatiaia e a Régua ali como os dois polos principais. E talvez assim, depois por conta do eBird, que agora as pessoas conseguem acessar os dados estatísticos sobre as cidades, eu acho que o pessoal lá de fora começou a descobrir o potencial do Rio e começou a ver que, pô, tem bastante lugar aqui com a diversidade grande e outros lugares surgindo também, né? Outras pousadas, outros lodges e começou a ter uma demanda maior. Então, assim, eventualmente a gente tem o nosso site também, né, onde a gente anuncia o nosso serviço, mas muitas vezes a gente guia por indicação de agências ou então da do do Itororó, né, a Régua também. Vime, a gente tá guiando o cliente da Régua, porque muitas vezes os guias de lá não tem uma demanda maior do que eles podem atender e acaba passando, né, quando a gente não pode, indica algum amigo. Então, a gente tem percebido que essa demanda por por saídas guiadas aumentou bastante nos últimos anos, principalmente depois da pandemia, né? E por conta, eu acho, também desse de desse advento do eBird e tal, que começou a a tornar o Rio de Janeiro mais visível. Antes era muito concentrado em São Paulo, Mata Atlântica, né? Era o Itatiaia e São Paulo. Tinha muito essa essa questão, Ubatuba, né? E eu acho que a o fato dos comedouros, né, de aves estarem concentrados nesses locais, eu acho que o Hotel do IP, bem citado pelo Parrini, né, talvez tenha sido a referência, eh, máxima na Mata Atlântica durante toda a década de 80 e 90, talvez, né? Falava assim, aves da Mata Atlântica era Hotel do IP, porque era onde as pessoas poderiam ver aqueles bichos de copa e tal próximos e fotografar, ainda mais numa época que não tinha equipamento de qualidade e tal. Então, quando começou a surgir esses outros lugares aqui no Rio de Janeiro, como a Régua, o Itororó e tantos outros que surgiram depois, começou a espalhar mais. E hoje a gente pode dizer que o Rio é um é um destino bem consolidado de observação de aves. E muita gente já vem pro Brasil, inclusive para vir direto pro Rio. A gente já guiou várias pessoas que ficaram 10 dias com a gente e só vieram pro Rio de Janeiro para observar aves e foi embora para casa depois, né? Então acho que teve uma diferença assim que a gente foi notando na nossa curta trajetória de como que o Rio de Janeiro foi melhorando como destino, né, com vários lugares e com a procura também aumentou muito. Mas se vocês quiserem acrescentar alguma coisa nesse sentido.
Bom, eh, eu quero fazer uma fala assim meio, eh, um apanhado, né, do que foi falado e também e pra gente entender o que que essas diferenças, eh, de geração, né, trouxeram positiva e negativamente, né, e que a gente pode fazer enquanto guia para melhorar, né, e até uma, vamos dizer assim, uma sugestão, né, uma para quem quer trabalhar como isso, né? Quais seriam os próximos passos? Assim, porque como o Gabriel já resumiu, né, o Rio de Janeiro começou como, um, né, quase que um coadjuvante assim, né, porque Brasil também sempre foi muito procurado pelo Pantanal e agora a Mata Atlântica tá tá em alta também, embora o Pantanal continue sendo o destino mais conhecido, os turistas que chegam aqui, você pergunta, a maioria fala: "Eu nunca tinha ouvido falar da Mata Atlântica, só do Pantanal". Então, a coisa tá mudando, mas a gente precisa avançar ainda mais. É o que eu falo, quando a gente vai para um parque nacional e só tem a gente trabalhando, de vez em quando eu esbarro com o Parrini, né? É, é até comum, mas assim, se o Rio de Janeiro tivesse, como, né, outros países, tipo Equador, Colômbia, era para ter assim no mínimo ali uns cinco grupos ao mesmo tempo naquele parque. Então, se só tem uma pessoa ali trabalhando, é claro, ótimo, mas significa que a gente ainda tá engatinhando, porque era para ter mais gente. Você vai numa pousada, tem um quarto ocupado, tem alguma coisa errada, era para estar lotada, né? Não tem como você ir pra Régua e às vezes não estar lotado. Aquilo ali era para ter turista o ano inteiro. Então a gente precisa avançar. E o que que eu acho que nós enquanto guias podemos fazer, né, contribuir? Foi falado aqui que quando a gente começou, quando o Parrini começou, o Serpa, era grupo de e-mail, né? A comunicação era mais complicada, agora é instantâneo, é WhatsApp. Isso aí ajudou muito, ajudou, mas também trouxe alguns problemas, porque as facilidades quando elas começam a ser muito grandes, as pessoas começam a achar que elas não precisam mais do guia, do trabalho do guia. Então, por exemplo, hoje a gente tem as plataformas como o eBird, aqueles aplicativos que identificam os pássaros, Merlin e tal, e a galera vai a campo achando que aquilo ali é suficiente. Então, para que que eu preciso de um guia se eu vou lá, coloco o Merlin ali, o Merlin já me diz tudo que tá cantando e eu vou lá e jogo o playback, eu chamo o pássaro para que o guia, né?
>> Já viu algum cliente tá com você
>> e usando o Merlin também?
>> Já aconteceu, cara.
É, é incrível porque é, às vezes a gente fala tudo que tá cantando e o cara tá lá, bota ali para ver, será que o guia tá tá me falando a verdade? Será que tá tudo aqui mesmo? Será que ele não tá deixando de ouvir alguma coisa? Então, a coisa já chegou num ponto que o analógico, né, o o vamos dizer o o guia raiz tá até ficando desacreditado, porque as pessoas acham que a tecnologia faz melhor e na boa, gente, não faz, não adianta, né? Nós ainda não, eu acho que nunca vai fazer, né? Porque nós somos de uma geração que fomos influenciados por pessoas como Parrini, como o Adlei da Régua, nosso mestre, que nem usavam, né, necessariamente playback. O Adlei, por exemplo, ele chama os passarinhos muitas vezes no assobio, ele escuta, né, imita o pássaro cantando e o pássaro vem. Então, tecnologia zero ali, né? Na verdade é uma tecnologia também, mas partindo dele. E aí, eh, eu acho que nós enquanto guias, né, e quem tá querendo entrar nesse mercado tem que entender que nada vai substituir o conhecimento de campo. Então, a gente quando começou a guiar, né, eu e Gabriel, a gente fazia besteira também de vez em quando, né, obviamente faz, mas muito menos quando o tempo vai passando. Mas eu não sei se a Lena ainda tá aqui. A Lena Trindade já saiu, talvez já, né? A Lena foi a primeira pessoa que a gente guiou em 2012. Eu lembro bem disso, né? Já se vão mais de 12 anos. E na primeira vez que a gente guiou a Lena, a gente fez uma besteira que depois nunca mais a gente fez, né? Que apareceu um Maraponga do Orto lá pousada baixinho. Fui chamar o Gabriel porque o Gabriel tava com a câmera. Ele eu falei: "Gabriel, vem não sei quê". Bum, o bicho se assustou e voou. Nunca mais. Não, guiando, a gente nem leva a câmera, por quem tem que fotografar, quem tem que aproveitar é o cliente, não é o guia, não é a gente que tá passeando, né? O então isso é uma das coisas que a gente faz. Outra coisa é essa questão, como eu tava falando, né, da das tecnologias que ajudam, às vezes a pessoa acha também que o trabalho do guia é simplesmente ir a campo só tocar o playback, né? É como se fosse a todo um trabalho de campo resumido a ir lá, ah, tem um bicho tal tocando porque o Merlin identificou, vai lá e toca o playback para mim. Não é, vai muito além disso. Então, o uso do playback é uma ferramenta importante. É, a gente usa, usa, mas principalmente o que as pessoas mais valorizam, que a gente percebe, é quando o cliente vê que a gente consegue identificar tudo que tá cantando lá, né? E ter a paciência de chamar o bicho ali sem precisar usar artifícios, né, de tocação de coruja, né, de de caburé e a famosa baguncinha, porque aí você acaba estressando outros pássaros que não necessariamente aquele que você quer atrair, não é verdade? E você ter essa paciência, né, o trabalho de de você ouvir o bicho, escutar ali e também, gente, não se restringir apenas a questão imediatista ali, pô, o bicho veio e tal, cara, curtir o bicho, falar um pouco sobre a questão, eh, que envolve o comportamento da espécie, isso é muito valorizado. E o Parrini é é a melhor pessoa para falar sobre isso, né? Porque ir a campo com Parrini, por exemplo, você aprende não só sobre os pássaros, mas sobre as plantas, sobre o que que o pássaro tá fazendo, o que que ele tá se alimentando, se ele tá seguindo um bando misto, se não tá, né? Então tem todo um um conhecimento que envolve a o trabalho do guia que vai muito além de somente ir a campo tocar o playback. Então eu acho que assim, os guias têm que prestar atenção nisso e os clientes também, porque os próprios clientes podem mudar essa, eh, vamos dizer, né, esse rumo um pouco tortuoso, né, que o trabalho do guia de observação de aves tá tá seguindo, de ser simplesmente um trabalho mecânico do cara que vai lá e toca só o playback, não é buscar outros outros atributos além de simplesmente, né, dar o play ali. Então, saber conduzir a situação ali com uma ética profissional com respeito às aves em primeiro lugar. E com isso as pessoas vão perceber que o trabalho do guia ele tem que ser valorizado, porque isso é uma coisa que tá ficando raro, né? Esse o guia que trabalha dessa maneira. Muitas vezes a gente tá em campo, as pessoas acham ruim com a gente quando a gente tá chamando um bicho e cara, o pássaro tá estressado, a gente vai ter que parar de usar o playback. Que a pessoa acha ruim, acha que é um erro. Não, isso aí foi um erro, você tinha que ter continuado, pô, mas já tem o bicho, já tá vindo ali, já tem 20 minutos, você não conseguiu a foto ainda? Paciência, né? Numa próxima oportunidade, um outro indivíduo tenta de novo. E as pessoas não entenderem isso significa o quê? Que eles estão tendo alguma referência negativa ali no caminho de gente que acha que isso é normal, né? Já aconteceu da gente guiando, né? um grupo lá no nessa última passarinhada lá no no Parque do Mico Leão Dourado. A gente pela primeira vez guiou um grupo gigante, eram mais de 100 pessoas, tem algumas pessoas aqui que estavam lá, cara. Do nada tinha um cara tocando baguncinha assim, tipo, saiu do grupo e foi, sabe, chamar outros pássaros ali. Então, assim, tem alguma coisa acontecendo aí que a gente vai precisar mudar. Eu acho que enquanto observadores de aves, né, quem tá aqui é observador de aves também que tem que ajudar nisso, valorizar os guias que respeitam, né, a natureza ali, a ave em campo, o bem-estar do animal. Eu acho que isso é a mensagem assim que eu gostaria de deixar e se os meus colegas quiserem comentar sobre isso, pergunta também.
>> Ah, e é claro, a gente também gostaria que o público interagisse, né, e perguntasse, né, tirasse dúvidas aqui com a gente sobre o trabalho, como é que, né? Acho que é isso. Valeu. Obrigado. Obrigado.
[aplausos]
Uma pergunta.
>> Tálas lá. Beleza.
>> Você leva lá.
>> Acho que quem foi primeiro?
>> Pode.
[risadas]
>> Quem?
>> Pode ser. Pode ser. Boa tarde, todo mundo. Nícolas aqui da Régua mesmo. É um um privilégio estar diante de tantas pessoas aqui conhecidos para a Academia Brasileira dos Ornitólogos, né? Mas, ó, parabéns a vocês. Eh, e eu queria perguntar para Parrini também junto com com demais, eh, com Serpa, com também com os irmãos Melo, se existe realmente alguma possibilidade que Caliptura, que você, né, deixou de falar sobre esse famoso AV, eh, tem chance, já que hoje tem Pacheco aqui também, eh, tem algumas possibilidade que ela ainda existe. Essa foi a pergunta.
Pergunta, pergunta.
>> Essa é com Parrini, né? É o cara que redescobriu a Caliptura tá aqui, né? Tá bom.
>> É, de cara eu acho que sim, né? Eu sou otimista com relação a isso. Tem gente que pensa que aqueles dois indivíduos lá que foram observados em 96 pudessem ser os últimos, né? Os últimos da espécie, né? Eu acho que sim. Eu acho que tem alguns cantos ainda até da Serra dos Órgãos que não foram explorados assim, até do parque, a a aquela região. A eu sempre pensei na na Régua e fiquei e fico imaginando, poxa, tanta gente vai na Régua e não e não consegue reavistar, né, Caliptura. Pode ser por porque aquela faixa altitudinal ou aquela aquela área que é disponibilizada para para observação de aves não seja a mais, eh, vamos dizer assim, promissora para reencontrar a espécie, né? Mas eu acho que existem várias localidades sem trilhas ainda na Serra dos Órgãos, aquela serra de Friburgo também maravilhosa, que eu acho que pode estar ainda ali. Agora é muito preocupante sim a situação da espécie, né? Porque tanta gente observando e e se sabe que é uma coisa população pelas amostras que tem de de 100 anos atrás, mais ou menos, cent e poucos anos, eh, parece que era a espécie era comum e agora parece que tá em alto risco, mas com relação à extinção, eu acho que ainda a ainda tá em tempo de da gente ser otimista e e considerar que podemos achá-la de novo. Eu acho que acho que é isso.
>> Vocês querem falar Guilherme? Posso falar?
>> Eu.
>> Acabou.
>> Acabou. Só pergunta do Alan. Então é só para não, Alan, por favor.
>> Alan, por favor.
>> Olá, boa tarde. Valeu, Daniel. É pergunta bem rápida e até de alto interesse. O que que é ser um mau cliente e o que que é ser um bom guia? Isso porque eu quero evitar ser um mau cliente e só ter bons guias.
Perfeito.
>> Quem quer falar quer sei.
>> Meia hora?
>> Não, acho que é o que o Daniel já tinha comentado, assim, o mau cliente é aquele que não entende que assim a gente não tem que ter o controle sobre as aves, né? Eu eu eu prego uma observação mais contemplativa da natureza. Eh, tipo assim, o o a ave não tá ali para servir a gente, para pousar onde a gente quer, na hora que a gente quer. Então, assim, se a gente fotografa aves, né, eh, a gente tem que entender que tem um tempo, às vezes você vê as fotos na internet de aves, de situações maravilhosas assim, mas não não se ligam, né? As pessoas que às vezes o fotógrafo demorou 10 anos para ver o bicho daquele jeito e vai ver só aquela vez na vida. Tipo, e e o e eu sempre falo que o fotão, né, a foto perfeita, não tem que ser a regra, é exceção. É entender que nem sempre é possível ver a ave na melhor posição e saber que, pô, você tem você tem a vida inteira, ainda mais no Rio de Janeiro, né? Às vezes a pessoa tá passando no Rio e a a ave assim, pô, a pessoa mora no Rio de Janeiro, a ave comum no Rio, você não tem a obrigação de ver o bicho na melhor situação do mundo naquele dia. Você você vai ter todos os outros dias do ano para tentar ver aquele bicho de novo. Então é entender isso que a gente tem que ter paciência, né? E saber que assim um dia você vai topar com aquele bicho numa situação boa, até espontaneamente, quase todas as espécies que a gente já viu, eu já pode dizer que eu vi em situações boas sem uso de playback. É incrível Parrini, então, né? Quando a gente vai campo com Parrini é incrível. Parece que quando você vai com aquela intenção só de observar, que é o que a gente tenha tentado fazer, né? Quando a gente não tá guiando, é você acaba vendo mais bicho do que se você ficar ali naquela neura de, ah, pô, o bicho tal já tem que chamar aqui, tem que chamar. Tipo assim, ter a paciência de andar e contemplar mais do que tentar o tempo inteiro ali. Eh, ele ele falou do mau cliente, agora vou falar do do bom guia, né? O guia que o o guia de observação de aves, ele na verdade otimiza, né, a descoberta de acordo com o tempo que ele tem. Alguns guias têm pouco tempo, o cliente só tem um dia e tal, mas ele geralmente otimiza o encontro das espécies chaves, né? Ele tem que fazer isso de acordo com o horário do dia, de acordo com a com a experiência que ele tem de cada local. Então ele vai, ele já tem na cabeça, né? Eu, eu e o Guilherme, o Daniel e o Gabriel, a gente já tem na cabeça mais ou menos o que que a gente vai procurar e de acordo com as possibilidades da hora do dia e tudo, isso já tem tudo desenhado na, eh, de acordo com a época do ano também, já tem tudo desenhado pra gente na cabeça como é que vai ser o dia, né? Às vezes pode não pode não dar muito certo, mas a gente procura otimizar assim dessa forma, né? Vou dar um exemplo, por ex, vou dar um exemplo aqui. Eh, de manhã cedo, num dia de primavera, imagina que você saia lá no Hotel IP, que a gente falou tanto, com 30 aves cantando. O guia vai ter que escolher aquelas que são mais especiais pro cliente, representam o endemismo da área e tudo e deixar as outras que tão cantando, que estão cantando, mas não são mas são mais fáceis. Então, o guia serve para, nesse sentido, de tentar as coisas na hora certa do dia e otimizar a viagem dessa forma, tá? Então ele vai buscar ali, né, nesse dia da primavera lá no Hotel IP, ele vai buscar as coisas mais difíceis e mais especiais naquele momento e deixar as coisas que são mais fáceis e que cantam o resto do dia até para depois para uma pras horas, eh, que virão. Aí.
>> Posso complementar?
>> Tá. Só para ir.
>> Eu vou complementar aqui só finalizar. Eu acho que também o bom guia é aquele que explora a região onde ele atua. Por quê? Costumo falar isso com Gabriel, né? Às vezes pode parecer exagero, mas não é. Se você não conhece pelo menos cinco lugares para ver a espécie que a pessoa tá procurando, tem alguma coisa errada. Então você tem que explorar, você tem que andar em muitos lugares. Não tem essa. O trabalho do guia a gente investe muito dinheiro e tempo quando a gente não tá trabalhando, porque a gente tá explorando áreas novas, né? Justamente para você ter novos, sempre novos roteiros, que não adianta, gente, você é é patético às vezes você vê, cara, todo mundo querendo trabalhar nos mesmos lugares, como quando tem uma cacetada de região que ninguém vai. Há dois anos atrás, a gente fez uma exploração em Trajano de Moraes, uma mata maravilhosa, um lugar sensacional. O Guilherme também foi, né, eh, alguns dias antes da gente. Cara, ninguém, nenhum observador de aves vai naquela região. O acesso não é muito fácil, beleza, mas assim, falta gente para ir explorar. Então, não tem essa assim, alguém falar: "Pô, não tenho tempo para explorar". Cara, não existe isso, sabe? Tem que existir esse tempo, porque quando quanto mais você explora, mais você aprende sobre os bichos. E aprendendo sobre os ambientes também onde eles vivem, você consegue achar aquelas espécies em outros lugares. Você evita o quê? Que todo mundo fique perturbando os mesmos indivíduos. Pô, eu quero ver a coruja preta, eu vou no mesmo lugar que outros guias vão chamar o mesmo indivíduo, estressar toda a noite a mesma coruja. Não. Se eu se eu consigo encontrar ela em outros lugares, você divide um pouco isso e isso acaba ajudando também, né, a você democratizar a coisa. Acho que é isso. Desculpa, a gente acabou ultrapassando um pouco do tempo. Valeu, gente. Perdão. PS. O PS tinha uma pergunta aqui, mas não vai dar tempo, né?
[aplausos]
>> É rápido. É uma intervenção muito rápida aqui. Eu acho que ao lado dessa coisa de estressar demais o bicho fazendo playback, o erro mais comum que eu vejo é você fazer o playback com volume muito alto.
>> Também. A pessoa acha que o volume alto vai trazer o bicho, pelo contrário, ele afasta o bicho. Isso é um erro que eu vejo assim, 80% das pessoas.
>> Exatamente.
>> É isso, gente. Obrigado aí pela pela atenção. Obrigado, mestre.
>> Obrigado, pessoal. Time de guias premium, assim fica difícil, né? É papo direto. Ah, então a gente ainda tem três palestrantes para falar. A gente tá bem atrasado. Vamos ver se a gente consegue. Depois tem o sorteio, hein? Não esqueçam.
>> Chico, você tá aí?
>> Tua vez. Chico, você pediu sol logo, né? É porque como deram só 10 minutos. Tem que ser agora nanquilo.
>> Soltar a notícia e as pessoas.
>> Exatamente.
Então, gente, eh, boa tarde. Me deram 15 minutos aí para falar, mas eu vou tentar falar em 10, porque eu sei que o tempo tá corrido. Eh, eu represento o Caminho da Mata Atlântica. Para quem não conhece, o Caminho da Mata Atlântica é a maior trilha longo curso de toda a América Latina. São 4372 km entre trilha e estradas rurais. E muito mais do que uma trilha. O caminho é um grande projeto de restauração e conservação da Mata Atlântica, eh, gerando renda para as comunidades onde passa através do fortalecimento do ecoturismo e da agroecologia. Então, o caminho, na verdade, ele tem 4372 km, passando por toda a Serra do Mar e Parra Geral, seu extremo norte no Parque Estadual Desengano, seu extremo sul no Parque Nacional de Aparados da Serra. Eu falo extremo norte, extremo sul, porque o caminhante pode começar e terminar por onde ele quiser ou pode fazer trechos. E o caminho vai passando pensando sempre como que ele consegue gerar renda pra comunidade local, divulgando lugares que não são tão divulgados, passando por lugares que não são divulgados e pensando sempre que essa trilha deve ser uma ferramenta para a conexão entre os fragmentos da Mata Atlântica. Então, ao pensar o traçado do caminho, a gente pensou sempre em duas coisas. Um, como que essa trilha pode ser um grande corredor de biodiversidade e dois, como essa trilha pode ser um grande corredor bioclimático. Então, a gente pega 10% do hemisfério sul, né, em termos de latitude e vai desde o nível do mar até os pontos mais altos da Serra do Mar, sempre subindo, descendo. Então, se a gente conseguir, eh, através dessa trilha que a gente consiga fazer um grande reforço contínuo e conseguir sensibilizar a população, a gente vai conseguir que, através das mudanças climáticas, tanto a flora quanto a fauna possam migrar, eh, para o norte ou para o sul, para cima ou para baixo, como for necessário. Para isso, o caminho pensa além da trilha, ele tem o que a gente chama de um o corredor de biodiversidade do Caminho da Mata Atlântica, 20 km para cada lado da cumieira da Serra do Mar e da caminheira da Serra Geral. Com isso, a trilha, que é a espinha dorsal do caminho, ele tá sempre dentro desse corredor de biodiversidade e a gente consegue olhar para diversas outras regiões, onde a gente começa a olhar para ações de reflorestamento, ações de educação ambiental e ações de fortalecimento das redes agroecológicas. Com isso, a gente mostrando que é possível gerar renda e envolver as comunidades rurais, as comunidades tradicionais enquanto se preserva e restaura a Mata Atlântica. Estamos atualmente com 500 ha de restauração da Mata Atlântica, mais de 150 armadilhas fotográficas instaladas. Então, com fotográficas que estão todas no Rio de Janeiro, desde a Bocanã, na fronteira com São Paulo até São Fideles, nós conseguimos ter vários registros de animais, inclusive animais que eram considerados localmente extintos, como Sagui da Serra Escura em Trajão de Morais, como queixada na região de Rio Claro. A gente mostrou que os animais estão ali, animais que parecem ser simples, como mão pelada, a gente só consegue o registro dele ao longo de 3 anos, além de mais de 3 anos de monitoramento, desde 2017, alguns pontos, só conseguiu registro mão pelada em Paulo de Front, em Santa Maria Madalena, mostrando que talvez esse animal não esteja tão abundante que nem se pensa. E vários registros de aves que estão sendo cada vez mais analisados e cada vez pensado. Começamos a trabalhar também agora com gravadores de som que ficam durante um tempo ligados e a gente vai através de pesquisadores, apoio do professor Henrique Rajão, começar a decupar esses sons para saber que passarinhos e que primatas estão sendo escutados por aquele gravador. Com isso, o caminho pensa que a gente consegue ir planejando cada vez mais a restauração da Mata Atlântica e pensando quais são os pontos estratégicos para conexão florestal, para refaunação, para quais quais plantas, quais animais precisam aqui e como é que a gente consegue cada vez mais ter ferramentas para, melhorou bastante, obrigado. Ter ferramentas para ir sensibilizando a população. Nesse sentido, a gente faz várias oficinas, oficinas de manejo de trilha, oficinas, eh, de turismo base comunitária, oficinas de planejamento de turismo, oficinas, eh, de coleta de sementes e uma muito especial que eu vou trazer aqui para finalizar, né, que eu falei do caminho como um todo. Os números do caminho, na verdade, que eu não trouxe, mas como eu falei, são 4372 km, passando por 132 municípios em cinco estados brasileiros, passando por mais de 30 comunidades tradicionais, 130 unidades, 130 unidades de conservação. E nós já temos mais de 250 estabelecimentos parceiros, ou seja, hotéis, pousadas, campings, guias, cada nosso site. No nosso site você consegue ter o mapa do caminho dinâmico com todas essas áreas. Então, tudo isso a gente vai, eh, com todos esses guias. Então, você consegue se planejar para a sua viagem e vamos sempre tentando sensibilizar. Eh, acho que eu já tô aqui perto dos meus 10 minutos, tô tentando falar o mais rápido possível para respeitar o tempo dos outros colegas também. Mas um evento bem interessante que a gente entende e que tem a ver com o evento de hoje, a gente chama do Passarinhando pelo Caminho. A gente entende que a observação de aves, birdwatching, é uma atividade que vai gerar bastante renda para a comunidade local. E tem muitos lugares, como foi citado aqui, Trajano de Moraes é um lugar que o caminho trabalha bastante. Por quê? Porque é essencial, o município de Trajano de Moraes é essencial para fazer o corredor Três Picos-Desengano, que é uma das maiores, eh, continuidade florestais de toda a Mata Atlântica, de toda a Serra do Mar. Então a gente trabalha muito em Trajano de Moraes, a gente tá com 200 ha de restauração, estamos com mais de mais de 20 câmeras instaladas, encontramos queixada em lugar que não tinha que não tinha queixada, encontramos o sagui da serra escura. Em Santa Maria Madalena, num refúgio de 4 ha, a gente consegue ligar o Parque Estadual do Desengano, conectando refúgio 4 ha mata do Bufão com gente aumenta já mais de 400 ha e joga o Desengano pra frente ali pra região do Trajano. Então é isso que trabalho do Caminho vem fazendo com o evento Passarinhando pelo Caminho, que já foi feito seis eventos, todos eles em São Paulo, porque a nossa passarinheira que faz esse evento é de São Paulo, de Sorocaba, é a Júlia Passarinha, educadora ambiental e passarinheira. O que a gente quer? A gente quer mostrar para essas comunidades que estão em lugares e às vezes não tão visados, que foi o que a gente falou, tem lugares que estão muito visados para passarinhada. Então a gente chega em lugares que não estão visados, não conhecem tanto o birdwatching e a gente primeiro explica como é que o birdwatching funciona, mostra números de como birdwatching pode gerar, eh, renda para as comunidades locais e como é que isso fortalece a ciência cidadã. E aí falam muito da ciência cidadã e como é que é importante a percepção das próprias pessoas em trabalhar, eh, em fazer o mapeamento dos animais, das aves, principalmente para que isso sejam dados que a gente possa usar quando a gente for fazer projeto de reflorestamento, projeto de pensar os corredores. E a gente faz esse trabalho, então primeiro da gente analisar, mostrar a importância do birdwatching economicamente, geração de renda pra comunidade, mostrar a importância de ciência cidadã. Isso é um dia e no dia seguinte a gente faz uma caminhada, uma passarinhada. E o trabalho da Júlia é muito importante, na minha opinião e opinião do caminho, que essa filosofia que é aquela passarinhada que que ela chama, né, que é não invasiva, sem usar nada de gravador, sem usar nada de playback, você indo naturalmente e observando a distância os animais e vendo os animais que estão lá. Então, e ela mostra assim, vai falando toda essa implicação que tem esse uso dessas ferramentas. Se você for fazer isso no trabalho com turista, às vezes que não conhece tanto. Então, um trabalho de educação ambiental muito bonito. Fizemos essa passarinhada em Bertioga, fizemos no município de Parelheiros, fizemos no Vale de Ribeira, fizemos no município de Salesópolis. Foram seis passarinhadas no total ano passado. Ano passado que eu já tô nesse ano, né, nesse ano 2025 e ano que vem em 2026 vamos fazer mais seis passarinhadas tentando trazer pro Rio de Janeiro. Eh, então o caminho vem olhando para essa biodiversidade como um todo e tentando agregar as pessoas no coração da mata e a mata no coração das pessoas, que é o nosso lema e é o que a gente vem tentando fazer. Pouco a pouco a gente vai construindo, fortalecendo e cada vez trazendo mais pessoas para conseguir construir essa mega trilha e essa mega projeto de conservação fortalecendo nossa Mata Atlântica e trazendo cada vez mais conhecimentos de universidade para o público em geral. Então esse é o Caminho Mata Atlântica. Por isso que a gente fala uma trilha para sócio, sócio biodiversidade, que a gente quer sempre mostrar que é possível e é necessário para preservar e restaurar a Mata Atlântica. É necessário envolver a população local e criar maneira de geração de renda para a população local. Então, o trabalho vem sendo feito de várias maneiras quanto é isso e o birdwatching vem sendo trazido pouco a pouco e vamos cada vez crescer mais com essas questões do Passarinhando pelo Caminho e com parceria com outros parceiros que já fazem isso. Deu meus 10 minutos, gente. Espero que tenham gostado. Tentei respeitar o máximo. Conheçam caminhomataatlantica.org.br. BR. Obrigado. Obrigado pela oportunidade.
[aplausos]
Sim.
>> Eh, você falou de trabalhar com comunidade, né, que seria o TBC, turismo de base comunitária. Você pode me exemplificar um um trabalho consolidado desse tipo? Por favor?
>> Sim. O Caminho Mata Atlântica, ele foi auxiliou, né, conjunto de outros parceiros, a criar rede de turismo de base comunitária no da Guanabara, que é uma rede de turismo que você passa por pescadores tradicionais na região do Recô, Guanabara, né, e na região da serra. E aí, nesse nesse quesito temos dois pontos especiais que é o trabalho da cooperativa Manguezal Fluminense, que faz um passeio de barco pelo manguezal observando aves e depois quando sai do manguezal observa botos. Então no mesmo passeio você tem um birdwatching e um boto, sei lá como é que pode chamar. Então é bem interessante. E o Camping da Coruja também faz parte dessa rede e não. Camping da Coruja fica em Santo Aleixo, Magé. Essa rede de turismo de base comunitária é nós da Guanabara. Então, todo o Recôncavo que pega Magé, Apimirim e Caxias de Macacu. Então, nessa rede falando só por comunitários, comunitários que falando são pescadores artesanais, catadores de caranguejos artesanais, quilombolas ou pessoas que têm sítio na serra de Santo Aleixo, Casqueira Grande, Pau Grande, há mais de 50 anos, há mais de 100 anos a família tá no mesmo lugar. Então, por isso a gente chamou turismo em base comunitária. Essa rede. Também fortalecemos um um turismo de base comunitária com birdwatching na região do Salto do Sabiá, que é uma fica na divisa do Parque Estadual do Pau-Brasil, com Parque Nacional Guaricana no Paraná. Então, é.
Uma comunidade que não era considerada tradicional, porque não são quilombolas, não são ribeirinhos, mas estão lá mais de 100 anos no mesmo lugar, vivendo da maneira tradicional deles como pequenos sitiantes. Então, existe uma cachoeira muito famosa, Cachoeira do Salto Sagrado. A gente ajudou a estruturar um projeto em que teve todo o mapeamento da comunidade e existe hoje uma rota de Bird watching caminhando através do rio até chegar à Cachoeira do Salto Sagrado.
E só para finalizar, antes que ele me bote para voar, que nem passarinho, eh, a gente tá agora com um projeto nesse momento acontecendo, atendendo a seis comunidades na Ilha Grande, seis em Parati de turismo base comunitária. E dentro disso vão ter em cada comunidade, são 12 comunidades, em cada comunidade vão ter três oficinas, cada uma delas com 8 horas de duração sobre birdwing, desde a precificação, observação e divulgação para clientes e pensando que os comunitários já conhecem todos os passarinhos melhor que a gente, né? Então vai ser mais para estruturar isso aí. E a gente sabe que 24 horas não é o suficiente, mas é um pontapé para eles procurarem depois e montarmos com ele roteiro de Bwing, se eles tiverem interesse.
>> E no nesse tá aqui depois conversam.
>> Tá bom, calma.
>> Ol
>> ó, vai me vai botar para B e passarinho.
>> Mas depois conversa entra aí no site e
>> é isso que eu queria saber. Entra
>> no site no Instagram que a gente vai conversar,
>> tá? Obrigada.
>> Tá. Ob, gente. Obrigado.
[aplausos]
>> Bem-vindo, Nicolas. Então, da régua, eu até pedi para ele, por exemplo, tentar reduzir para 20 minutos dos 30 que a gente tinha previsto, porque a gente vai estourar e o museu vai fechar. Não quero que ninguém deixe de falar.
>> E tem mais uma pessoa para falar, né?
>> Tem mais uma depois de você.
O, eu então, um prazer muito grande estar aqui com vocês. Eh, um, sempre uma alegria apresentar esse projeto. Hoje estamos celebrando 25 anos. Eh, a, meu nome é Nicolas Lock, eu sou a quarta geração eh de de pessoas moradoras da região de Guapiaçu. Guapiaçu quer dizer Rio Grande, em Tupi Guarani. Os americanos gostam muito. É, nossa missão institucional é a conservação, preservação e restauração da Mata Atlântica, bacia do rio Guapiaçu. É, vamos.
Ah, o projeto tá alinhado nos princípios hoje que assolam o mundo, né? Mudança climática, extinção das espécies, segurança hídrica. Mas Rio de Janeiro, eu sempre ah volto a falar que Rio de Janeiro é um um estado de centro de biodiversidade que comanda uma posição muito interessante por ainda ter bastante mata. E hoje um um dos um dos estados que o único estado que teve um aumento de cobertura e vegetação. Muito legal isso. A força da régua está elencada nas suas parceiras conquistadas. Hoje tem muitos eh somos uma ONG. Essa ONG hoje tem muitos parceiros e os parceiros estão muito interessados no progresso e na e na reestruturação e a proteção do meio ambiente do Rio de Janeiro. Eh, eu acho que eu esqueci uma, tem uma aqui que tá faltando. Esse a o se passa e e opa, não, não, não. Então, vamos seguindo aonde estamos.
A, essa é em rosa são as propriedades mapeadas pela instituição. Você vê que é o do rio Guapiaçu mais ou menos 400 km² ou 40.000 ha, quase tamanho da Baía Guanabara. É uma área muito bacana porque fica no Recôncavo da Baía Guanabara. É uma área que não tem eh na parte abaixo da RJ 122 é uma área que foi feito várias reformas agrárias, tem uma área eh que é muito agrícola, né? Mas a área acima é uma área pouca, poucas comunidades. Então uma área que foi um dos últimos áreas para ser treinadas ah da do do Recôncavo. Ela está elencada nessa no o projeto em si, a instituição está elencada em qu em cinco programas, protegendo o que resta, um programa de sensibilização para as comunidades. Por que esses gringos loucos estão interessados em investir numa área esquecida, né, Pl? Eh, porque e aí nós e os outros programas são restauração florestal, estamos celebrando quase 1 milhão de mudas plantadas e muitos oportunidade de pesquisa. E finalmente para amarrar isso tudo, tentar buscar recursos financeiros cima de ecoturismo. É uma gestão que que tem dado o sucesso? Por que que um programa de proteção consolidado? É uma gestão participativa e apoiado por diversos. Tem um time local comprometido, determinado, empenhado, faz muita, faz muita diferença. Parcerias conquistadas tanto no poder público como particular, tem um plano de manejo. A RCA conta hoje com o programa de regularização fundiária, que é muito legal. Ela conta com como a muita da sua área está incluída no parque estadual Três Picos, não se pode fazer um RPPN lá. Então nós fazemos RPN lá de fora. Então nós já temos 750 ha e deve ter mais uns 650 ha para fazer ainda. Então estamos ah muito felizes com o trabalho com Inia. Seis guardas florestais e isso isso resultou numa 95% redução de caça e o programa de restauração, na realidade tem 95% de sucesso. Convido todos vocês para conhecer nosso programa de restauração. Realmente um projeto muito bacana.
Hoje a régua eh após muitos estudos, você a gente conseguiu identificar que essa área nessa nesse perímetro branco é quase uma ferradura em volta do rio. Rio até aqui abastece 2 milhões e meio de pessoas da região e leste Baía Guanabara, Niterói, Alcântara, São Gonçalo. Então é um rio muito importante para abastecimento humano. Mas então todos os estudos e identificou essa área toda em volta com uma área extremamente importante para a preservação de biodiversidade. Daí preservando a biodiversidade permite que as florestas floresçam se estão em saúde em tendo saúde, né? E e florestas saudáveis produzem água. Então, um programa que está muito legal, programa Educação Ambiental. Nós já tivemos apoio da Petrobras Sociental durante três edições. Foi um projeto que amadureceu a instituição, mas depois nós nós resolvemos eh desquitar, divorciar do Petrobras, que nós queríamos ser um projeto permanente de Petrobras, muito legal, mas nós tínhamos nosso tempo e a gente buscou o apoio do Mitsubishi. É um valor bem bem bem menor, mas está muito legal fazendo o que que a gente quer. Então, muito legal. Hoje temos 2500 crianças passando pela régua todo ano. Tem um programa de replanta, é um, perdão, é um programa eh incentivado, financiado pelo governo alemão de desenvolvimento, tipo BNDS, lá através da Universidade de Colônia, aonde a gente aplica a as nós oferecemos cursos para capacitação para os para diversos públicos, pessoas da ONG, pessoas de governo, pessoas de escolas, pessoas eh que estão querendo ingressar em trabalho e também para mulher mulheres no campo, além de proprietários rurais da região. Tudo para para divulgar e ensinar a importância dessa dessa dessa bacia e como que é importante pra gente preservar.
Então, a o programa nós temos um programa de restauração bastante consolidado depois de 20 anos trabalhando com isso. Esse é um exemplo, é um projeto em parceria com I, o próprio Caminho da Mata Atlântica. Mas você já viu que a gente já plantou 620 ha, tem 920.000 árvores plantadas, a gente faz a conservação de de áreas nativas e estamos buscando um projeto de crédito de carbono e estamos também sempre fazendo pesquisa, monitoramento. É muito importante, né? É que um um quando você a gente está doente, a gente não vai para um bombeiro, né? A gente vai pro médico, o médico entende como é que funciona o corpo humano. E é mais ou menos isso, a gente tem que entender como é que funciona aqui o sistema para a gente poder remediar e a gente trazer ela para saúde, devolver saúde dela novamente. Então a gente tem apoio do WWF, um projeto muito legal e o programa de pesquisa muito consolidado.
Esses são alguns números, né, que demonstram alto grau de biodiversidade. Por isso que a Mata Atlântica dessa região aqui, eu acho que toda a Mata Atlântica é um é um hotspot global, né? Só para a gente ter uma ideia, nós fizemos um estudo 204 espécies de odonata. Inclusive até pessoas do mundo inteiro vêm para ver odonatas libélulas da região, que já indica a qualidade de água está muito bem, as qualidades banhadas são muito boas. E o espécie de quiróptero foi feito acompanhamento estudos de de faculdade de UFRJ já 47 espécies. É um número assim meio meio a gente fica meio pasmo com a qualidade da biodiversidade lá e 489 espécies de aves e quase 4,5% de todas espécies mundiais, né, que que estão lá. Então por isso que a gente tem que proteger essa área, né? A gente entende isso, né?
Então, ah, isso o o fato que nós fizemos reflorestamento, criamos RPPN, fazemos ah parcerias, né, faz daqui a refauna, um projeto que vocês todos conhecem, ela trouxe a anta para ser ah solta eh lá nas florestas, banhadas lá. E isso tem dado super certo. Ao todo estão uns 21 animais que vieram, mas tivemos oito filhotes lá, então aí eles estão indo muito bem. Então daí a gente está estudando, a gente conseguiu outras parcerias. Você vê como é que a gente cria um projeto a base de parceria. E aí, fruto disso também o conhecimento, geração de conhecimento, extremamente importante. Aqui nós tivemos o privilégio de ver Gabriel e Daniel são os autores desse livro fenomenal, né? Mas além disso, a gente já fizemos levantamento das borboletas, a gente vemos esses estudo dos libelos. Se alguém quiser comprar, por favor, você pode entrar em contato e um excelente presente de Natal para as pessoas. É, e isso acaba gerando sempre o mais e mais conhecimento, atuação nesse lugar que nossa nossa atuação limitada dentro da bacia mesmo, fazendo que a gente cria novas oportunidades, não para Raquel eu, mas para as pessoas local, para as comunidades locais. Isso é extremamente importante para valorizar o que temos de matéria-prima e explorar isso. Então aí que tem Thaís, tem Pedro Belga, além do pessoal do Boticário, que também estão interessados em desenvolver a área do Recôncavo da Baía Guanabara.
Por final, a gente está terminando com o turismo consolidado. É claro que a gente gera todo essa e observação de aves sempre gera esses resultados para conservação. Então as pessoas vêm para ver arara-canindé, esse macozinho sempre eh o nosso mico-leão-dourado pardo, né? E finalmente a gente tem uma população, maior população de muriquis na no na região sudeste do Brasil. Eu costumo falar do mundo porque não existe em outro lugar, né? Então são 200 lá que são estudados para a por Andrelana, eh famoso primólogo, né? E então a gente está com resultado extremamente positivo em relação a isso. E claro, essas aves a gente leva as pessoas como a gente estava vendo, mas eh levando as pessoas para ver aves em outras regiões locais, gerando oportunidade para conservação.
As eu sei que essa turma aqui está muito engajada com aves, mas as áreas as áreas para florestas de árvores também é raríssimo. Então, o Caminho da Mata Atlântica explora os caminhos, mas é uma forma da gente poder identificar espécies raras de árvores. E algumas árvores são mais raras do que os próprios, é como se fosse eucaliptura, né? Então, porque muitas das árvores só florescem cada 15 em 15 anos. Então, a taxa de reprodução é muito pequena de forma que é muito é é eh a gente carece muito informação sobre a diversidade de mais ou menos 1800 espécies de árvores que temos lá e que isso acaba. Puxa, se morasse no Canadá só tinha seis espécies. Aqui nós temos 1800, Plínio. É uma coisa fantástica, né? E a gente também tem monitoramento dos espaços. Eh, são programas de longa duração, são são eh são feitas pela universidade, aonde examinam a paisagem e o movimento dos pequenos anfíbios na na paisagem. Muito interessante. Programa é um chama-se assim um PELD, programa de ecológica de longa duração. Oportunidade para conservação.
Uma vez que você começa a trabalhar com isso tudo, vida é muito intensa, é muito legal e a gente começa, puxa, conhecer as outras pessoas trabalhando com os mesmos com os mesmos objetivos. Então aqui tem o Beto Mesquita, que é famoso nessa área de de restauração, de crédito. É um é um papa de conhecimento fantástico. Então aqui está na Thaís, um outro projeto maravilhoso, Sinaldo Vale, que ocorre lá em Santa região de Santo Antônio. Eh, aqui fica em lá na lá em Nova Iguaçu, eu acho. Muito legal. Raí Serra de Petrópolis. E está sempre e está encaminhado. A gente trabalha lá em cima da década da restauração, projetos ambiciosos, bem interessante, arcabouços de planejamento. Aí a gente não pode mostrar que a a gente tem que valorizar nossos nossos queridos e Gabriel, Daniel, além do nosso Adelei lá, que vocês se vocês não conhecem, por favor, faz uma visita para ficar para ficar pelo menos uma noite para a gente para a gente visitar e andar com esse homem. E aí duas pessoas que vêm ajudando a gente, porque a régua não é só Raquel e eu, é um grupo de pessoas que estão sempre unindo, discutindo, planejando, criando orçamentos de forma que a gente cria um propósito bem robusto. E aí tem Raquel e Messias. Messias foi esse que descobriu essa cereja do Guapiaçu. É uma árvore que estava então é nova para a ciência. Tem muitas oportunidades lá de pesquisa, isso é muito legal.
Mas aí a gente volta volta a frisar a importância de uma paisagem bem conservada. São nas partes altas, né, dessa região lá que ah que que a gente pode ter o caliptura, se Deus quiser, né? Mas a ideia realmente é a a régua, ela ela oferece ela oferece esse papel de fortalecer os serviços ecossistêmicos de Serra dos Mar. Então hoje a gente percebe que a a régua ela protegendo essas florestas com o parque dentro do parque a fazendo parte do mosaico central fluminense, hoje essa região é terceiro maior remanescente de Mata Atlântica do Brasil, né? Que é um total de 250.000 ha, quer dizer que o parque tem 60, quase 70.000 ha, a régua, por sua parte, tem uns 15.000 ha. Então um vai ajudando, vai promovendo o outro, né? Então a gente tem o papel extremamente importante de consolidar. Então fotos aqui do Víor, né, que eu ontem ele estava apresentando, mas isso realmente a gente fica deslumbrado com esse esse cenário, né? E e Raquel e eu a gente reconhece que a forma da gente promover que a gente está fazendo é envolvimento com os jovens, é a geração que vai vir, que na realidade que eles que vão abraçar e levar essa proposta em frente, né? E é um privilégio morar lá. Eu estou 45 anos lá. Realmente é uma coisa espetacular mesmo. E o fato que nós conseguimos trazer esse toda essa baixada a que hoje a gente sabe que a parte baixa é totalmente integrada na parte alta pelo próprio migração das aves. É extremamente importante conservar isso tudo e a gente quer expandir. Então eu terminei meus 15 minutos, está ótimo assim? Obrigado. Valeu.
>> Fala aí pro pessoal, tá? Ótimo. Então, nós conseguimos o Boticário eh nesse nesses investimentos na região do da Recôncava do Baía Guanabara, nós pleiteamos uma reforma de uma casa lá que hoje vai oferecer leitos para uns 32 pessoas. Então a gente gosta, nós tivemos uma reunião da COA lá na época que a gente chamou até o o Crax, né, o o Roberto Azeredo, fizemos uma apresentação até o querido Tiriba também a gente estava fazendo, era era o moleque dos anos que a gente achou que é um meio louco ali que ele falando com os americanos de aves e os caras falam pô os caras falam conheço muita coisa, né? Um garoto falando pros americanos os assíduos observadores de aves sobre a beleza da Mata lá tem. Então a gente está remodelando o alojamento, vai ter um alojamento para 32 pessoas, tem a vários eh habitats para ver, por isso que na realidade acaba atraindo tantas faculdades. Tem os banhados que é muito interessante, tem as florestas baixada e inclusive tem aquelas encostas que são um pouco mais difíceis para para chegar, mas lá que está moram os muriquis. Então, ah, nós oferecemos, a gente, nós, felizmente, a gente tem uma relação extremamente boa com todos os guias. Então, nós abraçamos todos os guias, porque a gente entende da importância de mostrar e dar o nome naquele daquela ave que as pessoas conhecem. Então vocês estão todos convidados, sem exceção, pode vir todo mundo que a gente vai conseguir dar um jeito. Inclusive uma pergunta sobre as comunidades locais eh como a régua ela tem essa proposta de criar uma área contígua, verde na Baixada para o futuro gerações cariocas, né, para mim, que é é pertencem à ONG, né? Eh, mas a gente gosta disso, então a gente quer fazer isso. Eh, ela vai, hã, em fruto disso está surgindo muitos Airbnbs nas comunidades locais. Então, a gente acha que esses recursos vão eh filtrando para dentro das comunidades. Eles vão entendendo que hoje a régua conta com 45 colaboradores, né? 45, são 24 que trabalham só na área de reflorestamento. Então o recurso vai filtrando para a comunidade local que é extremamente importante também. Mas estamos todos convidados e temos guias e temos alojamentos e todos podem ficar e uma comida maravilhosa. Tem alguém que já comeu lá?
>> Ah, puxa vida, você precisava nem falar.
>> É alguma outra pergunta, time?
>> Não. Completamos os 20. Obrigado, Nicas.
[aplausos]
>> Então, chegou na hora da última palestra. Liana. Liana. Ah, por favor, fala um pouco de coisas que estão chegando, tão vindo, né? Obrigada.
>> Por favor, se conseguir 10 minutos, a gente agradece. 15.
>> É, obrigada. Eh, obrigada a todos. Eh, uma boa tarde, um prazer estar aqui com vocês. Vou falar um pouquinho sobre o meu trabalho aqui no Jardim Botânico, embora não seja dentro do Jardim Botânico, é aqui no Centro de Pesquisa. Eh, falar um pouquinho sobre a inteligência artificial. Se a inteligência artificial é o novo, é o novo binóculo, é mais um questionamento do que é uma afirmação, né? Avanços e limites tecnológicos em estudos de frugivoria por aves. Tem o o ponto.
>> Acho que não, né?
[risadas]
>> Escondi.
>> Ai, obrigada. É aqui, é para baixo, para baixo,
>> para baixo.
>> Então, a observação de aves eh se se dá há mais há milhares de anos, né, começando com os povos originários e mais recentemente datadas com os naturalistas europeus e norte-americanos. E hoje em dia vem crescendo muito com as passarinhadas. Eh, e a observação de aves para além eh, da boniteza e do que desperta dentro da gente, né? Eh, é importante porque as aves são indicadoras. Ao estudá-las, a gente consegue entender como eh as características dos ambientes, né? Tanto é que Thomas Lovejoy já falava que se cuidar se se cuidamos das aves, estaremos cuidando da maior parte dos problemas do mundo. É, a observação de aves vem evoluindo junto com a tecnologia, começando desde as observações diretas, sem binóculo até o início do uso de binóculos e outras e tecnologias mais avançadas e mais recentes, como as armadilhas fotográficas e posterior uso de modelos eh de inteligência artificial para o processamento dessas informações a partir das eh das armadilhas. Para além disso, não é só um avanço tecnológico, também temos avanço social com a inclusão da ciência cidadã e com conhecimento tradicional em estudos científicos que até então não eram reconhecidos, né? Eh, dito isso, olhando essa linha do tempo e todos os avanços, a gente se questiona: eh, será que a gente está substituindo o olhar humano pela máquina?
Então, ai, está funcionando aqui só um um exemplo do que a gente está desenvolvendo nosso trabalho. Então, a gente está estudando dois sistemas para responder essa pergunta. Um dos sistemas é na Amazônia, eh nesse pontinho vermelho aqui, na cidade eh de Carauari, que é o interior do Amazonas, né? A gente tem um desenho bem complexo, não vou entrar em detalhes para agilizar aqui. Se vocês tiverem interesse, eh, pode escanear o QR code que a gente fez um mini documentário com todas as etapas do trabalho, o que que a gente está fazendo por lá. E nesses lugares a gente eh observou as aves que visitam os açaizeiros, então a espécie percatória e a gente observou 154 eh açaizeiros. Fizemos eh aplicamos as os métodos de amostragem de aves nesses nesses açaizeiros. Depois eu vou entrar em detalhes. E o outro sistema é a Mata Atlântica, então só que com mutampedulha, com a Jussara, né? Então no interior aqui do Rio de Janeiro, a gente eh da mesma forma numa escala muito menor, mas mesmo da mesma forma na Amazônia, a gente fez observações nos eh nas Jussaras, então a gente fez observações focais. Então, aqueles 154 açaizeiros e 34 Jussaras eh foram observados. E a gente botou armadilhas fotográficas. Então aqui eh ixe, acho que não vai reproduzir, mas enfim, não vai. Eh, é a forma que a gente instalou as câmeras nesses lugares. O do da esquerda é na Mata Atlântica a gente conseguiu instalar com escada, que foi perfeito, mas para a Amazônia a gente teve que escalar eh escalar mesmo, porque teve açaizeiros com mais de 30 m.
Então vou só, já que, né, não faz nenhum sentido falar no avistar sem trazer bonitos registros, eh alguns registros que a gente fez, eh isso para a Mata Atlântica, dos mais de 80.000 70.000 vídeos que a gente registrou, então alguns registros deles Turdus. O que eu faço dos tucanos é uma subespécie e para a Mata Atlântica foram foi um número muito reduzido de vídeos quando comparado para Amazônia. Então aqui a Proquinias, Araponga e um Turdus incomodadíssimo lá atrás glossos. E aqui uma comunidade inteira, algumas espécies de tordos.
Bom, a partir disso, a gente aplicou a inteligência artificial nesse nesse banco de dados, nesses vídeos, para justamente filtrar esses 80.000 vídeos, eh dentre esses 80.000 1 vídeos do que de fato existia animal, como a inteligência funciona. Então, a gente submete os vídeos, opa, acho que não vai reproduzir não, a gente submete os vídeos à inteligência e ela detecta pelo shape, né, se é um animal, na verdade ela detecta animal, humano e veículo e e o que não tem nada. Então, todos esses vídeos que potencialmente teriam animal, a gente checou, só que eh checou manualmente, né? Porque aqui vocês estão vendo que ela está dando a espécie, mas na verdade os bounding boxes não dão as não dá espécie. O que que ela dá? Ela dá um valor de intervalo de de eh confiança do quanto por cento aquele vídeo tem chance de ter um animal. Então a gente começou a checar esses vídeos e a gente viu que não estava funcionando muito bom, muito bem, porque as pirruras estão lá no açaizeiro e ele está dizendo que o animal está aqui, que são os frutos de açaí. É o vento.
>> É o vento.
Não, ele não reconheceu a paisagem, né, de fato. Eh, dito isso, a gente checou todos os vídeos manualmente porque não não pôde confiar de fato no método, né? E a gente viu uma eficiência muito boa para a Mata Atlântica. Então, 85% dos vídeos que ele assegurou que era um animal, de fato era, mas para a Amazônia foi 7%. Um valor muito baixo. Então, eh, variou, né? Foi um valor diferente entre os entre os biomas. Aqui mais ou menos, só para ilustrar como a inteligência funcionou. No caso ali ela acertou, né?
Não, eh, possíveis causas, né, do não funcionamento para a Amazônia, eh, a complexidade na estrutura, esse de cima, o precatório é na Amazônia, então é uma paisagem extremamente complexa, especialmente na floresta, né, e a gente não conseguiu instalar câmeras muito perto dos açaizeiros, o que também é um problema. Eh, as árvores são muito distantes, muito difíceis de serem escaladas, então foi de fato muito complicado, um pouco diferente para para Mata Atlântica que eh são florestas mais jovens, né? Então você tem indivíduos mais próximos, mais fácil de instalar e mais baixos também, né? E outra condição eh que foi é bem importante é que a precatória, né, ao açaí ele frutifica no período do inverno. Então foram dezenas de milhares de vídeos de vento, ao contrário da Jussara, que é no período do inverno também, mas é um período seco. Então a gente acredita que esses fatores têm sido eh bem importantes.
Eu vou trazer aqui paralelamente como os dois métodos, né, observação focal e int e câmera trap funcionaram, não usando inteligência artificial porque não funcionou de fato, né? Então não é uma intenção, não é comparar entre os entre os métodos e sim entre os entre os biomas, mas sim a gente vê um paralelo para tentar entender como os dois métodos funcionaram, né? A gente viu que indiferente do método, né, o esforço amostral na Amazônia foi muito maior, mais de 25.000, eh, quase 25.000 horas de amostragem e para a Mata Atlântica foram 1300 horas. E a diferença no registro foi gritante, né? Para a Mata Atlântica a gente registrou mais de 3.000 interações e para a Amazônia 415 dentro dessas 24.000 horas, né? Então, embora os métodos funcionem de forma semelhante, né, que a gente vê, por exemplo, muito mais uma amostragem muito maior que ah, com a armadilha fotográfica e também o número maior de espécies do que quando a gente compara com o focal, que foi um, é importante ressaltar que foi um focal com um número limitado de horas, né? É só para ilustrar mesmo de fato, mas a gente vê que há uma complementaridade dos métodos, né? Você quando você eh agrega os dois métodos juntos, você tem uma suficiência amostral muito maior.
Então, a gente viu que, eh, só um resumo, tem um baixo número de espécies para a Amazônia, um alto para a Mata Atlântica e que uma das coisas mais importantes, quando a gente pensa no método, o focal tem uma alta eh alta eficiência taxonômica. Então, o que você vê é muito mais fácil identificar do que quando você olha no registro das câmeras. E isso a gente encontrou especialmente para para Mata Atlântica. Eh, quase 40% dos registros da Mata Atlântica foram de Turdus, eh, que a gente não conseguiu definir a espécie porque o Turdus flaviceps, que no caso desse é muito parecido com o Turdus leucomelas nos vídeos, né? Eles são parecidos de fato, né? Mas pros vídeos foi muito decisivo. Então foram mais de 1000 registros com Turdus, né? Uma pena. Inclusive se alguém quiser ajudar com eles, a gente super aceita. E uma outra coisa foi a eficiência da câmera. Eh, a gente perdeu muito, mais de 1000 registros nessa situação que a câmera demora muito tempo para ativar e daí o bicho já foi, já pegou e já foi embora. Então você só vê o galho o aqui a influência balançando no caso, né? Ai, então a gente vê que de fato existe uma complementaridade no método, enquanto que o focal é muito mais eficiente na identificação, mas você tem limitações nas escalas, né, tanto de tempo quanto de espaço. Eh, as armadilhas fotográficas são o contrário, né? Você tem uma limitação na identificação. Eh, mas, eh, você consegue mostrar grandes áreas, né? E paralelamente, né, coisas que com focal a gente não consegue, mas também tem uma limitação muito grande que é o volume, o tempo que você leva para processar essas informações. A gente levou um ano e meio para processar tudo isso.
Então, de fato, né, a gente precisa desenvolver modelos de inteligência que sejam eficientes para ambientes tropicais, porque para flor, para ambientes eh mais simplificados, por exemplo, a savana africana, o modelo que a gente usou funciona a 90%. Que quando a gente olha para para Amazônia, né, o que a gente tem que aqui tem um um pitangos dentro dessa paisagem muito complexa, é muito difícil. Então, a gente está trabalhando junto com a equipe do Mega Detector, que é que vem desenvolvendo esses esses modelos e para tentar treinar e de alguma forma conseguir uma melhor eficiência para uma maior celeridade.
É, eu trago aqui uma devolutiva que a gente fez para as comunidades, só para ressaltar que para além do que a gente eh de usar a inteligência artificial para ciência, é também para as devolutivas sociais, né? Aqui, obviamente, a gente não conseguiu usar os dados da inteligência porque [risadas] não deu muito certo, mas a gente construiu esse mini guia, eh, produziu esse mini guia como entrega às comunidades que a gente trabalhou, no caso da Amazônia, né, que são os moradores dos açaizeiros do médio de Juruá. Então, são os animais que visitam esses açaizeiros. Se vocês quiserem escanear, é o QR code do mini guia e os vídeos do de eh você vai ter o bicho, né, a ave que a gente registrou, no caso aqui tem mamíferos também, então tem a ave e o vídeo que corresponde ao registro dela. Então aqui só uma fotinho das pessoas recebendo. Isso foi as foram as comunidades e as escolas que a gente a gente entregou esse material. E obrigada.
[aplausos]
Deu certo. Eh, eu lembro que está tudo sendo filmado, vai ficar no canal do Avistar. Quem perder os QR codes ou alguma coisa, vai lá que você ainda pega.
>> É, quem é que segue aqui? Quem é que toca o show? Acabou a palestra, agora é hora da
>> Por favor, Flávio. Era para ser o Rajão. Rajão está caminhando de passarinhada.
>> A gente pode fazer um sorteio, né?
>> Vamos lá. Me dá aí então. Rajão. Cadê?
>> Então dá um. Vamos sortear o que agora a gente vai quem está sem número. Oi,
>> eu não posso porque eu estou com sorteador aqui aberta. Vamos começar sorteando o quê?
>> Binóculo.
>> Começar com binóculos. Assim comum.
>> Tá bom. Então os óculos. Os óculos são malucos. Os livros.
[risadas]
>> Qual que é esse? Tem óculos para sortear
>> do sortear do
>> Tá bom. Vai aí
>> os óculos.
>> O meus não está se pergunta se
>> alguém não pegou número para o sorteio? Se não, por favor, levante a mão que o Gustavo vai até vocês.
>> Ah, todo mundo pegou, então, né? Então, beleza, tem que esclarecer uma coisa. Se é seis ou se é
>> só tem dois. Seis ou nove, só isso.
>> Sobrou.
>> Bom, todo mundo pegou seu número para o sorteio, certo?
>> É, a gente vai então. Cadê que está? Aquilo era da Cristina.
>> Ah, tá. Eu ia roubar aqui.
>> Você pegou o da Cristina para sortear
>> o livro da Cristina.
>> É porque cadê o do que a gente vai sortear?
>> Eu quero as coisas do sorteio
>> aqui dentro. Aqui dentro.
>> Tá sem número.
>> Sem número. G. Cadê o Gustavo? Ele está indo aí te dar. Gustavo, Gustavo,
>> ninguém viu, ninguém viu,
>> Gustavo. Gustavo, aquele senhor ali.
>> Eu vou chegar lá. Eu vou chegar lá.
>> Caraca, irado. Vamos botando aqui em cima que a gente vai dando, né?
>> É muito. Ah, eu quero ganhar um.
>> Eu também. Hum,
[risadas]
acho que eu tenho já.
>> Eu nunca ganho sorteio nenhum na minha vida. Eu
>> também não. Eu não ganho nem para o ímpar. Imagina se eu gasto.
>> É, são vários kits
>> aí, galera. Ó, livros autografados.
>> Top.
>> Make autografado.
>> Olha a quantidade. Vai primeiro a sortear,
>> gente. É o sorteio com mais chances de ganhar que vocês já vão participar na vida de vocês.
>> Vem cá. Uma pessoa vai ganhar tudo
[risadas]
e aí escolhe para quem gosta. Distribui.
>> Bom, todo mundo pegou, então, papel. A gente vai começar a sortear os livros que o Marcão deixou pra gente. Famílias cultivadas no Arboreto do Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Eh, número 16.
>> Não tem, né? Pode ser qualquer um dos dois, né?
>> 16. Ninguém é o 16. Então passa outro número aí. Se não responder a gente muda. Novo sorteio sem
>> sortear agora
>> 84.
>> 84. Que é isso, gente? Demorou muito
>> de novo.
>> Sortear agora na ordem.
>> 24
>> 24 assinado. Não, agora
>> gente, ninguém. 24. Tá esquisito isso aí.
>> É que sobrou eram.
>> Ah, que sobrou.
>> Foi isso que
>> então a gente vai até aparecer alguém. Vai, vai.
>> Calma que tem que rodar a página, senão dá ruim. 44
>> 44. Eh, finalmente
>> pode mandar.
>> Posso outros? Então vamos lá.
>> Eu sou 40, podia ter ganhado.
>> Bateu na trave.
>> Bati na trave.
>> Sortear agora.
>> 133. 133. Ninguém. Já
>> de novo.
>> 33
[risadas]
>> depois eu quero.
>> Sorteio de novo.
>> Sortearemos de novo. Gin já tem 72.
>> Não sei. Tá com você.
>> 72.
>> Tá comigo.
>> Só pode estar comigo não está. Tá brincando.
>> Vai de novo. Pera aí.
[risadas]
>> Eu tenho que buscar o binóculo lá na associação. Tem.
>> Vai lá, vai lá, vai lá. Vai ser o último. Pode buscar. Pede para algum voluntário
>> vai
>> sortear agora.
>> 52. 52.
>> É possível. Tá esquisito isso. Não é que tem muito número. Tem muito número.
>> Cadê o resto do povo? Ninguém quer ganhar. Coisa de graça.
>> 90. 90.
>> Dá pras duas. Toma. Conclusão
>> é porque 61 é 90. Vai de novo.
>> 49
>> 49
>> E tão bom quando existe o número.
>> Pode,
>> pode. 97
>> 97
>> 101 e são todos nossos car encerrar a gravação. Tem coisa aparecer agora.
>> Oito. Número oito.
>> E bom
>> 31.