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escritor e jornalista peruano apoiou as lutas operárias e se pronunciou contra a exploração indígena. Censurado e perseguido, foi enviado à Europa, onde se nutriu das ideias da Revolução Russa e conheceu as lutas operárias da Itália. Intelectual e militante criativo, advogou pela politização do professor e lançou as bases do marxismo latino-americano, que, segundo ele, deveria ser criação heroica e cuja inspiração deveria ser encontrada em nossa América, disse José Carlos Mariátegui. A revolução não é somente a luta pelo pão, mas também a conquista da beleza.
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José Carlos Mariátegui nasce em 1894 em Moquegua, ao sul do [Música] Peru. Cresce no seio de uma família humilde. Sua mãe é uma mulher de origem mestiça que trabalha como costureira, e seu pai, funcionário da Administração Pública, o abandona prontamente. Mariátegui tem 8 anos quando uma infecção em sua perna esquerda o obriga a se mudar com sua família para Lima. Seu repouso forçado o aproxima da leitura e do estudo.
"Bom, José Carlos, sendo criança na escola primária, sofre um acidente que lhe lesiona a perna esquerda, a partir do qual ele deixa os estudos, quer dizer, nem sequer conclui a escola primária, mas sim, ao estar prostrado, faz da necessidade virtude. E, de alguma maneira, o autodidatismo, a afição pela leitura, tem a ver com essa dificuldade física, eh, de sua imobilidade durante mais de 2 anos em uma cama. E essa leitura, essa vocação por por o estudo, o acompanhará ao longo de sua vida."
Sem sustento paterno e apertado economicamente, começa a trabalhar aos 14 anos na oficina da editora do jornal "La Prensa", desempenhando-se como aprendiz de ofício. Não tarda em ascender para se tornar mais tarde redator, adotando o pseudônimo de Juan Croniker.
"Aos 14 anos, Mariátegui começa a trabalhar em um jornal. Ele sempre diz que começa a trabalhar como uma espécie de cadete, não, dentro desse jornal, mas isso o aproxima do mundo da escrita e, fundamentalmente, algo que será muito central em sua formação, em sua formação juvenil, que é vincular-se à poesia literária."
Mariátegui não passa pela educação média, não chegará à universidade, mas sim, desde muito jovem, tem vínculos com a vanguarda estética peruana, fundamentalmente com um grupo que se chamava Grupo Colónida, que era conduzido por um poeta que era Abraham Valdelomar. Mariátegui participa ativamente desse grupo, participa ativamente, realiza algumas atividades públicas que vão gerar algumas polêmicas, entre elas um baile no cemitério com uma bailarina russa. E, além disso, ao mesmo tempo, forma-se como jornalista. Nesses anos, também estabelece amizade com o filho de Manuel González Prada, destacado escritor, pensador e político de esquerda, que denuncia em seu tempo a exploração operária e a submissão dos indígenas.
"Este é um segundo momento que eu acho que é fundante, que é um divisor de águas em Mariátegui, e na medida em que sua verdadeira escola será o jornalismo, quer dizer, o jornalismo como processo de conhecimento, de auscultar a própria realidade peruana, que era uma realidade complexa, dinâmica, em ebulição, onde a rua também será uma escola a céu aberto. Ali ele registrará numerosos acontecimentos e irá aprendendo este fenômeno tão inédito que é a irrupção das multidões, de multidões urbanas de estudantes ativando por seus direitos, ao calor, pouco a pouco, do que será a Reforma Universitária, que, embora irrompa em Córdoba em 1918, imediatamente se irradiará ao resto da América Latina, terá como um epicentro o Peru e, mais especificamente, Lima. Mas também a irrupção do movimento operário, os primeiros artigos escritos por Mariátegui que coincidem com as primeiras greves nacionais do movimento operário no Peru. E, além disso, soma-se um elemento que é determinante nas reflexões políticas e, inclusive, no replanejamento do socialismo no próprio Mariátegui, que são os levantes indígenas que começam a ocorrer a partir de 1915 e que serão diversos ao longo e largo do Peru, que vão surpreender, vão de alguma maneira obrigar Mariátegui, pouco a pouco, a replanejar um socialismo autóctone que possa levar em conta as raízes profundas camponesas e indígenas dessa nação truncada que é o [Música] Peru."
Neste contexto e com apenas [idade não especificada] anos, José Carlos Mariátegui funda no início de 1919 o jornal "La Razón", de onde defende as ideias reformistas e apoia as lutas operárias e estudantis.
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Em meados de 1919, devido a posições políticas de esquerda favoráveis à Revolução Soviética, é expulso pelo governo ditatorial de Leguía. Diante da alternativa de ser encarcerado, Mariátegui recebe uma bolsa que o afasta do Peru e empreende uma viagem pela Europa. Sua experiência na Europa marca um antes e um depois em sua vida. Ali faz seu primeiro aprendizado marxista e decide consagrar sua vida ao socialismo revolucionário no Peru. Renega de seus escritos anteriores e define seu passado como a "Idade da Pedra".
"De alguma maneira, por uma espécie de exílio brando concedido pelo governo de Augusto Leguía e por comodidades que gerava Mariátegui como militante, já como jornalista comprometido da época, o enviam à Europa. E a Europa é, eu diria, sua segunda escola. Se a primeira escola é o jornalismo peruano, o poder registrar e dar conta dos acontecimentos e dessas multidões em ebulição nessa Peru tão complexa e diversa, há uma segunda escola que é também a céu aberto, em uma crise civilizatória, que é a Europa e, mais especificamente, a Itália."
Mariátegui chega à Itália durante os anos de ascensão das lutas operárias e a abandona com o fascismo em alta. A experiência europeia e, particularmente, sua estadia italiana deixam uma marca permanente em sua concepção política. Na Europa, conhece as propostas de Georges Sorel e Antonio Gramsci e compreende a importância do mito como motor para empreender as lutas sociais.
"O conceito de mito, que ele retoma de Georges Sorel e de seu livro 'Reflexões sobre a Violência', é, é um, eu diria, é um elemento fundamental para entender o socialismo indo-americano de Mariátegui, porque o mito não tem a ver com uma mentira, com uma ficção, com um distanciamento da ciência que beneficia um processo revolucionário, mas sim, pelo contrário, o mito é um elemento catalisador, é um elemento mobilizador, tem a ver com os afetos, com as paixões, com as imagens que ativam os setores populares em prol da transformação da realidade. E já não será o mito da greve revolucionária como em Sorel, mas sim que estaremos na presença do mito do ayllu, do mito da comunidade indígena, do mito do Tahuantinsuyo como uma civilização alternativa à que estava em decadência naquele então na [Música] Europa."
Na América Latina, essa perspectiva do mito se une a um tema capital: a questão do indigenismo.
"Mariátegui extrai o mito no ayllu, não é a civilização, não é o alfabeto do branco que levanta a alma do índio, é o mito, é a ideia da revolução socialista."
Nessa mesma viagem, conhece também quem será a companheira do resto de sua vida, Ana Chiappe. Juntos, têm quatro filhos. Residem mais de dois anos na Itália, onde desposa uma mulher e algumas ideias.
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Enquanto isso, no Peru, avançam as lutas pela Reforma Universitária e cresce o movimento operário. O Peru continua sob o governo ditatorial de Augusto Leguía, que leva adiante um regime repressivo e políticas de entreguismo econômico aos Estados Unidos. Corre o ano de 1923 e Mariátegui retorna ao Peru e se propõe não só a difundir a doutrina marxista, mas a revisá-la à luz de seu próprio país. Entre outras atividades, funda agremiações estudantis, camponesas e operárias e se desempenha como conferencista na Universidade Popular González Prada. Isso lhe vale diversas formas de repressão, censura e perseguição política.
No entanto, o compromisso de Mariátegui não se limita às reivindicações operárias. Também se mostra interessado por posições próximas ao feminismo e à luta pela igualdade sexual, e começa a indagar as relações entre opressão feminina, sexualidade e poder.
"O tipo de mulher que produzir uma civilização nova tem que ser substancialmente distinto do que formou a civilização que agora declina. Ele é um dos primeiros marxistas que levanta que o educador macho, o varão, deve ser educado, não um pouco retomando as teses sobre Feuerbach, por quê? Porque deve ser despatriarcalizado. Porque considera que as mulheres só devem educar-se na tarefa do lar, em seu rol de mãe, de reprodutora. E Mariátegui se nutre e aprende das correntes feministas da época, às quais considera profundamente revolucionárias, e levanta, eu diria, uma pedagogia feminista, uma pedagogia da despatriarcalização das práticas educativas, outorgando um rol protagônico à mulher nos processos não só educativos, mas culturais, políticos e socioeconômicos."
Sua saúde, sempre frágil, sofre um novo revés quando em 1924 lhe amputam a perna direita devido ao aparecimento de um tumor, pelo que só pode se deslocar em cadeira de rodas.
No final do século XIX e início do XX, produzem-se no Peru importantes levantes indígenas que são reprimidos pelas forças governamentais. Por isso, o indigenismo peruano opta por uma visão mais radical que renega a herança espanhola, se articula com posições da esquerda revolucionária e se propõe como uma forma de superar modelos políticos e culturais prévios, tais como a colônia e a república burguesa. Inspirado na doutrina marxista, mas longe de uma teoria totalizadora e de uma visão mecanicista da sociedade, Mariátegui busca construir um socialismo indo-americano. Isso o leva a revalorizar a tradição comunitária indígena como base para a construção de um novo tipo de [Música] socialismo.
"Amauta" resulta ser seu projeto editorial mais importante. De suas páginas, Mariátegui apresenta as chaves políticas e ideológicas sobre as quais fundar um projeto socialista indo-americano.
"A revista 'Amauta' é talvez a revista mais importante que foi editada em toda a região, comparando-a com todas as revistas de vanguarda que foram editadas nos anos 20 na América Latina, e que tem, porque tem a singularidade totalmente própria de articular vanguarda estética, teoria e aposta política marxista e indigenismo. Junta essas quatro coisas. Se a gente vê o primeiro número de 'Amauta', no primeiro número, por exemplo, publicam em 1926, publicam a primeira tradução de Freud ao castelhano, 'Introdução à Psicanálise', e assim, digamos, tem esse nível de experimentação e de novidade permanente."
"Amauta" ia se chamar originariamente "Vanguardia", e acho que é um dado muito curioso que finalmente decidam chamá-la "Amauta", que em língua indígena significa mestre, o mestre, o conhecedor, aquele que porta determinados saberes e que os socializa, os difunde, no interior de sua própria comunidade e para outras latitudes. Essa ideia do "amauta", do mestre indígena, não só em termos pessoais, mas coletivos. Uma revista que oficie como nexo articulador dessas diferentes experiências de luta, dessas tradições culturais, artísticas, mas também das distintas vanguardas políticas, tanto no Peru como no resto de nossa América, e inclusive em outras latitudes mundiais, como é o caso da Europa. Misturá-las, colocá-las a dialogar em pé de igualdade."
Dita empresa não pode desvincular-se de uma profunda compreensão das particularidades da realidade latino-americana sobre as quais construir um socialismo autóctone. E foi parte de um editorialismo programático, de um projeto político-cultural que envolvia, no caso de Mariátegui, também um projeto editorial, a Editora Minerva, que conduzia, que dinamizava o próprio José Carlos, da publicação da revista, e do periódico, melhor dizendo, "Labor", um periódico que tinha por propósito também gerar instâncias de formação, de difusão de ideias, de polêmica fraterna para a constituição de um movimento operário organizado que ainda estava em formação naquele então no Peru.
Mariátegui deixa para trás a idealização romântica do índio do passado incaico, que somente considerava o indígena como um ser autóctone ao qual deveria respeitar.
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"Analfabetismo. Pensar na democratização da educação dos indígenas, se em paralelo não se discute o problema da terra. Discutir o problema pedagógico, político dos povos indígenas é discutir o acesso à terra e o reconhecimento de seus direitos como povos, inclusive preexistentes aos Estados-nação."
Em junho de 1927, a revista "Amauta" é fechada pela suposta existência de um complô comunista para derrubar o governo de Leguía. Sua casa é invadida em várias ocasiões e ele sofre assédio policial. Em 1928, Mariátegui rompe com o APRA, a Aliança Popular Revolucionária Americana, partido fundado pelo pensador e político Haya de la Torre, e cria o Partido Socialista Peruano, mais próximo das diretrizes da Terceira Internacional. Nesse mesmo ano, José Carlos Mariátegui publica seus famosos "Sete Ensaios de Interpretação da Realidade Peruana", um de seus livros fundamentais e ainda vigente para a reflexão sobre a situação latino-americana. A respeito, em sua advertência expressa:
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"Uma só coisa, um único processo. E se algum mérito espero e reclamo que me seja reconhecido é o de também, conforme um princípio de Nietzsche, meter todo o meu sangue em minhas ideias."
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"O problema do analfabetismo do índio resulta, enfim, ser um problema muito maior que transborda do restrito marco de um plano meramente pedagógico. Cada dia se compreende mais que alfabetizar não é educar. A escola elementar não redime moral e socialmente o índio. O primeiro passo real para sua redenção tem que ser o de abolir sua servidão."
José Carlos Mariátegui denuncia o modelo educativo liberal, o qual reduz o problema do índio à questão educacional e não o aborda como problema social e econômico.
"O pedagogo moderno sabe perfeitamente que a educação não é uma mera questão de escolas e métodos didáticos. O meio econômico social inexoravelmente [afeta] a labor do mestre."
Educação liberal, um modo de legitimar o sistema latifundiário baseado no gamonalismo, que era uma hierarquia de funcionários ou intermediários que se colocavam a serviço do latifúndio para manter um regime de exploração do índio e assim sustentá-lo na opressão e na ignorância. A redenção do indígena e da classe trabalhadora só será possível pondo fim à exploração mediante uma mudança na propriedade da terra e dos demais meios de produção. Daí, então, que se torne preciso denunciar o trato dispensado aos indígenas no que Mariátegui entende como uma linha de continuidade entre o Vice-reinado e a República. A educação nacional, por conseguinte, não tem um espírito nacional, tem mais bem um espírito colonial e colonizador.
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Mariátegui tem previsto viajar à Argentina por motivos políticos e médicos. Sua saúde piora e guarda a esperança de receber em Buenos Aires um melhor tratamento, mas morre antes de partir, em 17 de abril de 1930, na Cidade de [Música] Lima.
"Eu tenho a impressão que Mariátegui era anacrônico no sentido de que em sua época não era, não podia ser lido. Você o lê e lhe dá a impressão que os 'Sete Ensaios' foi um livro que não teve impacto no momento. Digamos, o Partido Socialista não só desmantelou Mariátegui, porque Mariátegui morre, mas porque já havia perdido, digamos, haviam sido derrotadas todas as suas hipóteses políticas, haviam sido derrotadas. Ou seja, que o problema dessa obra é que ela é anacrônica, é inatual no momento em que é escrita e é atual posteriormente. É uma coisa muito rara, isso, mas acontece com muitas obras, digamos, que a sua época não pode falar ou dizem coisas que ninguém pode escutar naquele momento, e que sim falam às gerações posteriores."
"Construir, em última instância, um sujeito 'sentipensante', afetivo, mas também que possa ser rigoroso na chave de análise concreta dessa realidade tão complexa, que é a realidade contemporânea. Eu diria que a ideia de construir um socialismo original, autóctone, e pensá-lo de maneira integral como alternativa civilizatória, e não só na chave de uma impugnação à dimensão econômica da exploração, hoje mais do que nunca, esse planteamento de Mariátegui de pensar que a crise que se vive a nível global, que sofre a sociedade toda, é uma crise de valores, é uma crise política, é uma crise socioeconômica, é uma crise cultural, e, portanto, a resposta na chave de um projeto alternativo também tem que ser integral, tem que envolver todas as dimensões da vida cotidiana. E nesse plano, Mariátegui tem muito a nos dizer."
Trata-se de não copiar nem de calcar, como dizíamos no começo, mas de pensar o socialismo como uma criação heroica dos povos de nossa América. José Carlos Mariátegui, jornalista, intelectual e militante, defensor dos operários e camponeses oprimidos, nos deixa o dever de refletir sobre nossa realidade latino-americana para repensarmo-nos a partir de nossas riquezas e para conquistar a beleza.
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