Transcription
[Música] Olá, eu sou Edson Caiapó, pertencente ao povo Mebengo Cré. Sou professor de história e educação indígena na licenciatura intercultural no Instituto Federal da Bahia e vou me reportar a uma temática de grande relevância que é a questão indígena na escola.
19 de abril, né? Estamos então entrando mês de abril e geralmente as escolas, os professores e professoras lembram da data do 19 como o dia do índio, né? Essa data foi eh conversada, né? Eu diria assim, inclusive muito pouco conversada com os povos indígenas no congresso indigenista interamericano que aconteceu em 1940 no México. E em 1943 o Brasil acatou essa essa decisão lá lá do México e determinou o 19 de abril como dia do índio.
1943, nós estávamos vivendo ali no meio de uma ditadura, né, o Estado Novo do Getúlio Vargas, que tão pouco dialogava com os povos indígenas, que tão pouco respeitava, né, os nossos direitos. E nesse momento, então, cria essa ideia do do dia do índio em que as crianças se pintam, né, e se pintavam, né, pintavam o rosto de de tinta guache e fazia um cocarzinho de de cartolina, né, e conversava um pouco, né, sobre os índios do passado que estão congelados no passado. E por aí as coisas estavam resolvidas. E aí no no ano seguinte, no mês de abril do ano seguinte, novamente lembravam, né, desse desse folclore que é esse personagem chamado índio.
Nós povos indígenas, né, e o movimento indígena, particularmente tem pensado de maneira muito crítica sobre essa data, 19 de abril, porque ela definitivamente não nos representa. E aí, nesse sentido, a ONU criou uma data que para nós é interessante porque teve diálogo com os nossos povos, que é a data do 9 de agosto, que é a data, né, que nós eh lembramos como o dia internacional dos povos indígenas. Mas de maneira geral, o movimento indígena tem então dialogado e tem orientado sobre o abril indígena, né? Então, abril, é um tempo oportuno para nós educadores e educadoras e a sociedade brasileira conversarmos um pouco sobre povos indígenas, sobre quem somos, de onde viemos, o que fazemos, né, onde estamos, né? Não é uma data para comemorar. 19 de abril não tem, não há nada para comemorar. Há muito que conversar, né, sobre os desafios dos que os povos brasileiros enfrentam, né, eh, e os desafios que o estado brasileiro tem que enfrentar para que os os povos indígenas sejam respeitados nos seus direitos, convivendo tranquilamente dentro da sociedade brasileira.
Existe a lei 11.645 645 de 2008, que estabelece a obrigatoriedade do estudo de história e cultura afrobrasileira indígena na escola. Obviamente que há muitos desafios a a serem enfrentados, né? Os os a os educadores e educadoras não recebem, né, uma formação qualificada nos cursos de licenciatura para lidar com essa temática. De todo modo, a lei 11.645 foi um avanço, é um avanço, né? E foi uma conquista dos movimentos sociais e particularmente do dos povos indígenas. E foi um avanço paraa escola, né, para para o currículo das escolas brasileiras.
Para além da lei 11.645 de 2008, nós temos a a Base Nacional Curricular Comum, a BNCC, que também estabelece, né, esse a necessidade desse diálogo com as diversidades, né, brasileiras e particularmente com as diversidades sociolinguística e cosmológica dos povos indígenas. né? Então, a a BNCC está eh orientando no sentido de tirarmos da escola todos os equívocos, né? Desfazer todo tipo de estereótipo contra os nossos povos, sabe? Então, aquela ideia de que nós somos povos do passado, né? Eh, estamos congelados no passado e que os povos indígenas foram extintos e que os povos indígenas são mentirosos, são preguiçosos, são trava para o progresso nacional, elas têm que ser totalmente desfeitas. para então trazermos uma outra realidade dos nossos povos.
Infelizmente, né, as instituições de ensino superior e os cursos de licenciatura estão caminhando de maneira muito lenta para fazer uma reestruturação no sentido de trazer a temática indígena para o currículo desses cursos. E aí, nesse sentido, nós educadores e educadoras temos que tomar à frente para organizarmos dentro das escolas a formação continuada, né, para que os professores consigam de maneira tranquila e muito qualificada trabalhar com essas com essas temáticas. De todo modo, né, nós estamos falando assim da eh de uma força que nós devemos mover pela educação continuada, mas não podemos esquecer de pressionar as instituições de ensino superior e os cursos de licenciatura para que lá na formação inicial essas temáticas estejam abordadas de forma transversal e que todos os professores e professoras formadas saiam de lá da universidade qualificados para trabalhar tranquilamente e com muito respeito, né, essas questões questões, falar das nossas histórias, das nossas memórias, dos nossos eh saberes vinculados aos pajés, as curandeiras, as parteiras, as benzedeiras, falar de um laboratório que nós milenarmente temos dentro das nossas comunidades construindo conhecimento, que estabelece, por exemplo, uma relação de respeito e de manejo respeitado respeitável dentro dos nossos territórios, um respeito com todas as formas de vida e uma eh e a construção são de um bioma equilibrado aonde os nossos povos estão. Uma lição que serve obviamente pra sociedade brasileira, especialmente em tempos de crise e particularmente de crise climática, de emergência climática, né?
Dialogar com os povos indígenas seria então repensar essa ação de progresso humano para podermos então construir uma nova sociedade pautada no no respeito a todas as formas de vida e na busca de um equilíbrio climático e de um equilíbrio entre as pessoas, né, nas relações interpessoais e e grupais.
[Música] É necessário que nós eh eh façamos um esforço muito grande no sentido de abordar os povos indígenas como povos do tempo presente, né? Abordar a a os os a sociedade, os, né, os nossos irmãos afro-brasileira como pessoas que merecem respeito, porque são pessoas humanas, assim como nós, povos indígenas. temos a credencial, né, para os direitos humanos e os nossos direitos precisam ser respeitados, né? Nós, povos indígenas, precisamos ter os nossos territórios demarcados, precisamos ter segurança alimentar, precisamos ter os nossos territórios protegidos pela pelo Estado brasileiro, sabe? E precisamos dialogar com a sociedade não indígena. E a sociedade não indígena precisa adotar essa vontade de dialogar para construirmos, então, conhecimentos interculturais, né, conhecimentos tradicionais dos nossos povos, da sociedade afro-brasileira e da e da sociedade não indígena. Um diálogo em busca da superação dos desafios e das crises colocadas pelo mundo moderno. Os povos indígenas têm total vontade, né, eh, e disposição para fazer essa conversa.
As escolas precisam se abrir para para convidar as lideranças indígenas, dialogar com a literatura indígena, dialogar com os saberes indígenas dentro da escola para que as crianças e adolescentes consigam então entender a realidade da sociedade brasileira e a realidade da composição da da sociedade brasileira.
Por hoje é só. A minha pretensão não é esgotar essa temática, essa conversa, que é uma conversa que precisa ser prolongada, que precisa ser continuada. Estou, na verdade, só colocando aqui algumas questões e algumas provocações iniciais para pensarmos. Eu quero assim convidar a todas as pessoas que nos ouvem, que dê a sua opinião, que as pessoas possam então visitar o site da nova escola e consultar tanta coisa interessante que tem ali sobre a educação e particularmente sobre povos indígenas e história indígena. Agradeço imensamente por e por ouvirem e um grande abraço a todos e todas.