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Olá pessoal, tudo bem? Que alegria estar aqui com vocês mais uma vez e agora para falar de um clássico da nossa literatura que é Memórias de Marta, da grande Júlia Lopes de Almeida. Fique comigo até o final desse vídeo, vai valer muito a pena. E literatura você já sabe, é com Alencar.
[Música]
Bom, estamos falando de uma das maiores escritoras da história da literatura brasileira. Júlia Lopes de Almeida viveu entre o século XIX e o século XX. Morreu na década de 1930. E ela foi uma escritora de muito renome na época em que ela produziu, a partir da década de 1880 até o seu falecimento. Além de uma escritora muito notória, ela também foi uma palestrante. Viajou por diversas partes do país, levando as suas ideias, muitas vezes defendendo os direitos das mulheres, direito ao voto, à educação, ao divórcio. E ela era uma mulher muito à frente de seu tempo. Se nós pensarmos que a lei do divórcio só vai se concretizar no Brasil lá em 1977, imaginem, foi uma mulher que escreveu muito. Ela transitou por vários gêneros, escreveu romance, conto, poesia, literatura infantil. Ela escrevia muito. Dizem que ela todo dia sentava para escrever, estava sempre desenvolvendo a sua arte, que é a arte literária. O problema é que ela ficou meio de lado, ela caiu em ostracismo durante o século XX. Nos últimos anos, ela tem sido recuperada, as pessoas têm estudado sobre ela, ela tem aparecido em listas de vestibular e isso é maravilhoso.
Talvez esse esquecimento, esse silenciamento associado a Júlia Lopes de Almeida tenha começado a acontecer quando ela foi excluída da Academia Brasileira de Letras. Essa é uma história muito famosa. Ela foi uma das organizadoras da academia, mas quando fundaram a instituição, Machado e outros nomes, decidiu-se então que só homens participariam, 40 cadeiras ocupadas por homens. Foram os moldes da Academia Francesa de Letras. No lugar da Júlia acabou entrando o marido, que é o Filinto de Almeida, um bom escritor, mas na minha opinião, ela é muito melhor. Lembrando que a primeira mulher a ingressar na ABL foi Raquel de Queiroz, apenas em 1977. Vejam como demorou. Aqui no nosso canal já há várias aulas sobre ela, sobre a obra dela. Só você dar uma procuradinha. Por exemplo, A Falência é um livro que nós já temos análise aqui, mas você não vai olhar agora, só depois.
Bom, Memórias de Marta é o livro de estreia de Júlia Lopes de Almeida. E o livro foi publicado num formato bem conhecido do século XIX, que é o folhetim. Entre 1888 e 1889, a autora publicou essa narrativa incrível em um periódico lá do Rio de Janeiro. E quando a história estava concluída, foi tudo então reunido e transformado em livro. O foco narrativo é em primeira pessoa, é um livro de memórias, então uma autobiografia, só que é uma autobiografia ficcional. É bom que se diga. O livro é chamado de romance. Então, se é autobiografia, se é memórias, é alguém que conta em primeira pessoa passagens, reminiscências da sua vida. A Marta, uma mulher mais velha, professora, resolve então lembrar algumas passagens que ela considera relevantes da sua existência. Ela começa na infância e vai até os 20 e poucos anos, quando ela já tinha se tornado uma professora e quando ela perde a sua mãe. As memórias vão até a morte da mãe. É um livro curto, são 12 capítulos no total, os 12 são bem breves. A linguagem é simples, objetiva, clara, que é o estilo da Júlia Lopes de Almeida.
Vamos aos personagens mais relevantes dessa narrativa. Em primeiro lugar, aquela que dá nome ao livro. Claro, Marta. Uma menina que nasce numa condição social privilegiada, mas que acaba perdendo tudo com a morte do pai e ela vai lutar para melhorar a condição de vida dela e da mãe. A mãe dela é uma mulher muito sofrida, uma mulher que luta a vida inteira para que a filha tenha mais condições do que ela teve. Inclusive, coloca a sua saúde em risco, sendo lavadeira. A profissão de lavadeira era muito comum antigamente. Então, lavava, engomava roupas para fora para se sustentar e, principalmente, sustentar Marta. O pai havia sido um caixeiro viajante que foi roubado em viagem e por isso ele temia ser chamado de ladrão. Os patrões poderiam achar que ele estava enganando, que na verdade ele não foi roubado, que ele tinha roubado o dinheiro e ele acaba então tirando a própria vida.
Outra personagem que vale a pena a gente citar aqui é a Ilhoa. Ilhoa é vizinha de Marta e de sua mãe num cortiço no bairro de São Cristóvão. A Ilhoa é uma mulher bruta que batia nos filhos e brigava constantemente com o marido. Ela tinha três filhos. A mais velha era a Carolina, que sofria horrores, tinha que dar conta da casa, cuidar dos irmãos e ainda sofrer muitas agressões por parte da mãe. Depois, o segundo filho, Maneco. Maneco, como diz na história, tinha 8 anos. Era magro, orelhudo e pálido. Cheirava sempre a cachaça. O Maneco acabou se tornando viciado em álcool por causa de um comerciante que morava nos arredores ali do cortiço. Então, o comerciante achava engraçado dar bebida alcoólica para a criança e ele vai fazendo isso. O menino então se torna um alcoólatra e acaba falecendo precocemente. A cena, inclusive, do falecimento dele é muito triste. A história dele ali é bastante melancólica, faz a gente pensar muito também. A mais nova era a Rita e a Rita posteriormente irá para a escola, tal qual aconteceu com Marta.
Falar em escola, nós temos aí a personagem Ana, dona Ananinha, que é a professora. A professora que se afeiçoa por Marta. As duas têm uma relação muito próxima. Dona Aninha, sem dúvida, vai ajudar a nossa protagonista. Primo de dona Aninha é Luiz. Luiz, que vai conhecer Marta e que vai se aproximar dela. Ela inclusive vai cultivar um sentimento sobre ele e ele será a primeira desilusão amorosa de Marta. E por fim, Miranda, homem de 40 e tantos anos, muito sério e bondoso. Miranda é um cliente da mãe de Marta e ele vai pedir a mão da nossa protagonista em casamento e ela vai aceitar. Já vamos falar um pouquinho mais sobre isso. Então, o típico romance, você tem lá a personagem principal ou a família principal e as personagens secundárias orbitam em torno das principais.
Marta, em suas memórias, começa dizendo que ela não se lembra muito bem da infância dela antes ali dos 5 anos de idade, quando o pai dela era vivo ainda e eles tinham uma condição social mais abastada. Aí vem a morte do pai e a mãe sofre muito por perder o marido e também por precisar sobreviver em uma situação muito difícil financeiramente. Eis então que mãe e filha vão para São Cristóvão, um bairro do Rio de Janeiro, e vão morar em um cortiço. Os cortiços eram bastante comuns lá no século XIX. Inclusive, minha gente, a história podemos perceber que se passa sim no século XIX, no Rio de Janeiro. Então, nós temos aí um tempo e um espaço nessa obra. E eu tô me lembrando aqui do livro O Cortiço, do Aluísio Azevedo. Essa obra aqui faz lembrar um pouquinho esse clássico do naturalismo. Porém, Júlia Lopes de Almeida não tem os elementos naturalistas tão fortes. A questão do darwinismo, do positivismo, ela não traz isso com muita intensidade nas obras dela.
Uma passagem que marcou bastante a infância da Marta foi quando a mãe a levou à casa de uma cliente. Era uma casa rica, era uma casa com móveis bonitos, onde as pessoas usavam roupas elegantes. Lá Marta encontra uma menina que tinha uma boneca maravilhosa para ela, claro. E Marta até se olha no espelho, se compara com a filha da cliente, mãe, ela vê ali então a sua pobreza, a sua miséria, a sua feiura, ela se acha feia. E Marta vai carregar essa espécie de complexo de inferioridade pela vida afora. Mesmo depois já concursada, ingressando na carreira de professora, tendo um ordenado decente, mesmo assim ela ainda carrega essa diminuição, essa baixa autoestima.
Agora, quando Marta ingressa na escola, a vida dela muda. É um divisor de águas. Ela vai conhecer o outro universo muito diferente do cortiço que era insalubre. Logo, ela vai ter uma proximidade muito grande com a dona Aninha. Diz o livro: "A professora começou a mostrar predileção por mim, dando-me muitas vezes uma cadeira a seu lado para ajudá-la a tomar a lição das meninas do ABC." É interessante que esse é um livro que não fala mal da escola. Existem muitas obras da literatura brasileira que quando trazem à tona o universo escolar fazem duras críticas. Isso a gente percebe, por exemplo, em O Ateneu, do Raul Pompeia. Vocês se lembram do Aristarco, o diretor déspota, materialista? E aqui não, as lembranças, as memórias de Marta acerca da escola são memórias, em geral, agradáveis.
Logo Marta foi percebendo que esse era o caminho dela. Não tinha jeito de ela trabalhar com atividades domésticas manuais. A mãe dela até tentou ensinar algumas atividades para ela, mas ela não conseguia fazer. O negócio dela era realmente estudar, o que era incomum para as crianças brasileiras de maneira geral no Brasil do século XIX. A prioridade em casa era o trabalho. Então, as crianças estudavam pouco e trabalhavam muito. Havia poucas escolas pelo Brasil. A educação, ela ficava principalmente na mão da Igreja Católica, dos padres e das freiras. E era uma educação voltada principalmente para as elites. Então, não era fácil para uma criança, para uma menina sair da favela, do cortiço, conseguir então ingressar no mundo escolar.
O tempo foi passando, Marta foi crescendo e sempre estudando muito. O livro diz: "Os meses foram correndo. Eu estudava muito, mas ou pelo esforço intelectual ou pela fraqueza física, estava sempre nervosa, irritada e magra. A minha preocupação constante era ser vítima de um desastre imprevisto." Então, ela sempre achava que ela estava na eminência de vivenciar algo trágico. Ela aos poucos vai virando uma ajudante da professora, inclusive começa a receber um pequeno ordenado. Em decorrência disso, ela e a mãe conseguem até sair do cortiço e morar em um pequeno chalé.
Ao entrar na casa dos 20 anos, Marta vai passar por duas situações sociais que serão difíceis para ela. Primeiro, a professora dona Ninha a convida para uma festa em sua casa e Marta vai. É uma jovem, ela quer curtir um pouco a vida social, porque afinal de contas era com a mãe em casa, estudando ou trabalhando na escola, mas ela não se sente nada bem. É aquele negócio que a gente tinha comentado do complexo de inferioridade. Depois da festa, a professora também a convida para um passeio. A professora e o marido alugam umas casas na serra, que fica em Engenheiro Paulo de Frontin, no Rio de Janeiro. Lá Marta então vai conhecer um belo mancebo, um belo jovem chamado Luiz, parente da professora e estudante de medicina. Ele é muito extrovertido, ele tem uma conversa agradável, ele tem uma proximidade inclusive com a Marta. O leitor até pressente que vai acontecer algo entre os dois. Ela diz nas memórias: "Voava o tempo alegremente. Luiz frequentava a casa com assiduidade e levava-me de todas as vezes flores colhidas nas suas excursões." Porém, não é o que ela espera, não é o que a gente imagina, porque logo Luiz se interessa lá por uma outra jovem. Marta vê os dois fazendo juras de amor em inglês, inclusive. E a partir daí o coração dela se fecha para o amor.
Ela presta um concurso para ser uma professora efetiva, passa e olha a coincidência do destino, a ironia do destino. Ela acaba sendo nomeada no dia do casamento do Luiz com a moça por quem ele se apaixonou. Então, a nossa protagonista aqui vai se tornar uma professora. É interessante até a gente ressaltar que a profissão de professora para as mulheres aí nessa virada do 19 para o 20 é uma profissão, era uma profissão aceita. A gente sabe que numa sociedade patriarcal, machista, sexista, as mulheres saíam da tutela do pai para entrar na tutela do marido. A menina se tornava adolescente, já começava a montar um enxoval pensando em se casarem. As moças se casavam muito cedo, ainda na adolescência. Imaginem vocês. A minha avó se casou com 15 anos. A minha avó materna, a paterna com 19. As moças normalmente não passavam de 20 anos. Então, o destino delas era cuidar da casa, do marido, dos filhos. A profissão de professora ainda poderia ser, porque afinal de contas, como se fosse uma extensão da casa. Cuida da casa, cuida das crianças que são suas e também das crianças dos outros. Então, as moças frequentavam a escola normal, viravam normalistas, professoras.
Até que Marta terá um pretendente. E ela diz: "Bem cedo, neste país ardente, as mulheres ouvem dizer que as amam. E eu só aos 24 anos, despertava no coração cansado de um velho uma paixão sossegada e mansa." Miranda vai aparecer. Então, como nós já comentamos, é um cliente da mãe de Marta, um homem de estatura mediana, gordo, calvo, com muitos fios brancos. E ele tinha feições miúdas, dentes pequenininhos, peito robusto, um homem bondoso. Eles não vão se casar com o amor ardente. Não podemos dizer que Marta ama de paixão Miranda, mas é uma espécie de convenção. É que a mãe insiste muito para que Marta se case, tenha um companheiro, como era convencional para as moças daquele tempo, ela acaba aderindo a isso. Então, e eles vão se casar.
O problema é que poucos dias depois do casamento, a mãe começa a se mostrar muito doente e ela falece. Com o falecimento dela acaba também a história, as memórias não vão adiante. Interessante a gente pensar que ela encerra o seu relato com o falecimento da mãe. Talvez ela carregue um pouco de culpa. Em várias passagens da história, ela se vê uma moça que não valoriza tudo que a mãe fazia para ela. Ela escrevendo as memórias muitos anos depois já pensa diferente. É muito comum, na verdade, quando você lê uma autobiografia, um livro de memórias, o memorialista não ser mais como ele era antigamente. Ele se arrepender um pouco das coisas que ele fez, das coisas que ele disse. A gente vai mudando, a gente vai se transformando com o passar dos anos.
Então, Marta às vezes demonstra um certo mal-estar por não ter correspondido todo carinho, todo esforço que a mãe teve que fazer para ela conseguir então ter algum êxito profissional, financeiro, emocional na vida. Quer dizer, morre a mãe, acaba a história. Agora vejam como essa é uma história também muito feminina. O que é comum nos livros da Júlia Lopes de Almeida. Vocês podem procurar aqui no canal, como eu comentei, o vídeo de A Falência, um romance maravilhoso. Predominam as personagens femininas, é elas que se projetam na história e na obra da Júlia em geral. É assim, aí se vê as mulheres muitas vezes subjugadas, maltratadas, reprimidas, um reflexo do que era o Brasil nos tempos da escritora. Então, os homens, eles são menos numerosos, eles não têm tanta projeção, tanto relevo na literatura da Júlia Lopes de Almeida. É só a gente perceber aqui nessa história. Já começa que a nossa personagem Marta não tem pai, então já acontece aí um parricídio. O pai dela morreu, então a vida dela é ela e a mãe. Se a gente pensar na vizinha a Ilhoa, a Ilhoa lidava sozinha com os filhos. Ela tinha um marido, mas o marido aparecia só no final do dia. Quer dizer, o homem não aparece. Ela não teve o amor que ela esperava ter do Luiz. Ele se afasta dela. Olha o afastamento dos homens. Ela consegue então casar só quando ela já tinha 24 anos com homem que faz lembrar muito mais o pai dela do que o marido. Então, é uma história bastante feminina, uma história muito bem escrita, vale a pena ser lida. Bom, a Júlia sempre vale a pena ser lida. Tá bom, minha gente. Prazer estar com vocês.